Haicai, Verso e Prosa

Letras e Sentimentos

Meu Diário
24/01/2018 00h02
Renga do Grupo HAIKAI & SEUS ASCENDENTES E DESCENDENTES

Renga "Chuva de verão" completo. Incluindo comentários da Regina Alonso.

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Caros Haijins amigos!

 

Agradeço de coração, a todos que se dispuseram a nos atender, na solicitação de mostrar o que seria um RENGA. Já que o nosso grupo destina-se ao estudo e divulgação do WAKA, TANKA, RENGA; HAIKAI. HAIGA; HAIBUN e SENRYU.

 

Só mostrar um já realizado não daria a dimensão das dificuldades de encadear as várias idéias do grupo participante.

 

Já houvera falado com o Carlos Martins sobre realizar um renga neste grupo. A oportunidade aconteceu com a chegada da Regina Alonso. O desafio veio com a postagem do haiga do Carlos "Chuva de verão". Regina pediu licença e juntou um dístico ao haicai dele, formando um belo tanka.

 

Vi no título semelhança com o renga do qual eu participara, em 2010, sob a orientação do Professor, Paulo Franchetti, na (Lista Haicai, comandada por ele e Rosa Clemont).

 

Timidamente, compus a 3ª estrofe e perguntei se poderia dar sequência ao tanka. Tive o incentivo dos dois. Foi uma experiência incrível. Numa semana completamos as 36 estrofes.

 

Grata a todos que prontamente atenderam ao meu convite para que fizessem suas estrofes, àqueles que solicitaram participação e aos que exigiram, perguntando se o renga era restrito a três pessoas. Muito obrigada a todos.

 

Foi uma experiência fantástica de grande aprendizado e ousadia, de aprender fazer... fazendo!

 

Obrigada Carlos Martins, pelas palavras sempre positivas, leves, ZEN!

 

Obrigada, Regina Alonso, pelo apoio e colaboração. Queremos contar com a sua experiência para comentar o encadeamento das estrofes. Fechando assim, nosso primeiro RENGA VIRTUAL do Grupo: HAIKAI & SEUS ASCENDENTES E DESCENDENTES.

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Verão de 2018

Benedita Azevedo.

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RENGA : Chuva de verão

01

Chuva de verão –

Barulho de água na calhas,

no mais, o silêncio.

---------------------Carlos Martins

02

Dormem juntinhos na gruta

o rebanho e o pastor.

-------------------- Regina Alonso

03

Guardando a entrada

a cadela de vigia --

Estronda o trovão.

--------------------Benedita Silva de Azevedo.

04

"O relâmpago ilumina

as casas na noite escura".

--------------------Carlos Martins

05

Tempo nebuloso

risca o céu de colorido –

Duplo arco-íris.

--------------------Sandra Hiraga

06

No pontilhão da cidade

sorri casal de mendigos.

----------------------Regina Alonso.

07

Voluntário chega

com uma sopa quentinha

após o toró

-------------------Clara Znifer

08

Na frente da Catedral

os moradores de rua.

-------------------Nilza Azzi

09

Bando de andorinhas -

O céu por alguns instantes

no olhar do mendigo

-------------------Rose Mendes

10

Uma ponta de saudade

passa pelo pensamento.

----------------Sandra Hiraga

11

Revoada de pombos

em torno do coreto ---

Manhã de verão

----------------Carlos Martins

12

A criançada na creche

corre na recreação!

----------------Benedita Azevedo.

13

As folhas ao sol

lembram a arte da Criação

por puro Amor...

-------------- Antonio De Jesus Anjes

14

Caminhantes continuam

pela alameda em flor.

--------------Regina Alonso

15

O sol ardente

plácido corre o riacho

homens conversam

-------------- Antonio De Jesus Anjes

16

Dois pescadores com anzol

enchem a cesta de peixes.

---------------Benedita Azevedo.

17

Tarde preguiçosa ―

Em uníssono as cigarras

na mata do rio.

----------------Carlos Martins

18

voa, voa um passarinho

sobre o mistério da tarde

---------------Rose Mendes

19

Apenas silêncio

e o arrebol de verão -

Olhar para o céu...

-------------Marco Aurélio Goulart

20

Lá sobre a Serra do Órgãos

a cachoeira murmura

---------------Benedita Azevedo

21

Uma gota d’água

Pinga, pinga persistente

Perfurando a rocha

-------------Pedro Caluchi

22

a tarde vai se esvaindo

e esta chuva que não cessa.

------------Elisa Campos

23

vai chegando a noite

cantam os pássaros pretos

entre o bambuzal

-------------Severino José

24

num farfalhar de folhas

meus passos seguem a trilha

--------------Elisa Campos

25

Noite silenciosa...

só o grito da coruja

rasga a escuridão!

--------Benedita Azevedo.

26

Passa, na noite sem lua,

o jovem casal em juras.

--------------Carlos Martins

27

Silêncio na noite

aves pousadas nos ramos

anjos sobre a terra

--------------Rose Mendes

28

Nem passarinhos verão

a morna chuva de estrelas.

------------- Marco Bastos

29

Chia no fogão

a comida preferida

pescada frita

----------------Regina Alonso

30

a mesa posta pra dois

e um som suave no ar.

--------------Benedita Azevedo.

31

por todo o quintal

sinais visíveis de chuva

ah!, a brisa fresca!

--------------Severino José

32

ao arrepio do sabiá

horas passam no telhado.

33

amoroso encontro

a noite cai na cidade

não há solidão

--------------Rose Mendes

34

Ao sopro do vento frio

um abraço aquece o casal.

---------------Marco Aurélio.

35

crianças brincam

com um enorme cipó ―

Campo de verão.

---------------Carlos Martins

-

36

Sombra de corpos no chão

e lá se vai a manhã...

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Praia do Anil, Magé - RJ

14-01-2018, antes do Fantástico, nosso fantástico RENGA! Às 20h 41m.

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Benedita Azevedo.

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Encadeado, pois, hora juntamos primeiro o terceto com o dístico, e a seguir, o mesmo dístico com o próximo terceto, e assim, sucessivamente.

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RENGA ENCADEADO

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RENGA : Chuva de verão

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Chuva de verão –

Barulho de água na calhas,

no mais, o silêncio.

Dormem juntinhos na gruta

o rebanho e o pastor.

............Carlos Martins e Regina Alonso

 

Dormem juntinhos na gruta

o rebanho e o pastor.

Guardando a entrada

a cadela de vigia --

Estronda o trovão.

------------Regina e Benedita

 

Guardando a entrada

a cadela de vigia --

Estronda o trovão.

"O relâmpago ilumina

as casas na noite escura".

-----------Benedita e Carlos Martins

-

"O relâmpago ilumina

as casas na noite escura".

Tempo nebuloso

risca o céu de colorido –

Duplo arco-íris.

----------Carlos e Sandra Hiraga

-

Tempo nebuloso

risca o céu de colorido –

Duplo arco-íris.

No pontilhão da cidade

sorri casal de mendigos.

------------Sandra Hiraga e Regina

-

No pontilhão da cidade

sorri casal de mendigos.

Voluntário chega

com uma sopa quentinha

após o toró

--------------Regina e Clara Znifer

-

Voluntário chega

com uma sopa quentinha

após o toró

Na frente da Catedral

os moradores de rua.

---------------Clara e Nilza Azzi

-

Na frente da Catedral

os moradores de rua.

Bando de andorinhas -

O céu por alguns instantes

no olhar do menino

--------------Nilza e Rose Mendes

-

Bando de andorinhas -

O céu por alguns instantes

no olhar do menino

Uma ponta de saudade

passa pelo pensamento.

----------Rose e Sandra Hiraga

-

Uma ponta de saudade

passa pelo pensamento.

Revoada de pombos

em torno do coreto ---

Manhã de verão

-------Sandra e Carlos Martins

-

Revoada de pombos

em torno do coreto ---

Manhã de verão.

A criançada na creche

corre na recreação!

----------Carlos e Benedita Azevedo.

-

A criançada na creche

corre na recreação!

As folhas ao sol

lembram a arte da Criação

por puro Amor...

-----Benedita e Antonio Anjes

-

As folhas ao sol

lembram a arte da Criação

por puro Amor...

Caminhantes continuam

pela alameda em flor.

---------Antonio e Regina Alonso

-

Caminhantes continuam

pela alameda em flor.

O sol ardente

plácido corre o riacho

homens conversam

-------Regina e Antonio Anjes

-

O sol ardente

plácido corre o riacho

homens conversam

Dois pescadores de anzol

enchem a cesta de peixes.

-------Antônio e Benedita Azevedo.

-

Dois pescadores com anzol

enchem a cesta de peixes.

Tarde preguiçosa ―

Em uníssono as cigarras

na mata do rio.

-----------Benedita e Carlos Martins

-

Tarde preguiçosa ―

Em uníssono as cigarras

na mata do rio.

voa, voa um passarinho

sobre o mistério da tarde

----------Carlos e Rose Mendes

-

voa, voa um passarinho

sobre o mistério da tarde

Apenas silêncio

e o arrebol de verão -

Olhar para o céu...

----------Rose e Marco Aurélio

-

Apenas silêncio

e o arrebol de verão -

Olhar para o céu...

Lá sobre a Serra do Órgãos

a cachoeira murmura

------Marco Aurélio e Benedita

-

Lá sobre a Serra do Órgãos

a cachoeira murmura

Uma gota d’água

Pinga, pinga persistente

Perfurando a rocha

--------Benedita e Pedro Caluchi

-

Uma gota d’água

Pinga, pinga persistente

Perfurando a rocha

a tarde vai se esvaindo

e esta chuva que não cessa.

--------Pedro Caluchi e Elisa Campos

-

a tarde vai se esvaindo

e esta chuva que não cessa.

vai chegando a noite

cantam os pássaros pretos

entre o bambuzal

-------------Elisa e Severino José.

-

vai chegando a noite

cantam os pássaros pretos

entre o bambuzal

num farfalhar de folhas

meus passos seguem a trilha

---------Severino e Elisa Campos

-

num farfalhar de folhas

meus passos seguem a trilha

Noite silenciosa...

só o grito da coruja

rasga a escuridão!

--------Benedita Azevedo.

-

Noite silenciosa...

só o grito da coruja

rasga a escuridão!

Passa, na noite sem lua,

o jovem casal em juras.

---------Benedita e Carlos Martins

-

Passa, na noite sem lua,

o jovem casal em juras.

Silêncio na noite

aves pousadas nos ramos

anjos sobre a terra

-----------Carlos Martins e Rose Mendes.

-

Silêncio na noite

aves pousadas nos ramos

anjos sobre a terra

Nem passarinhos verão

a morna chuva de estrelas.

---------Rose e Marco Bastos.

-

Nem passarinhos verão

a morna chuva de estrelas.

Chia no fogão

a comida preferida

pescada frita

-----------Marcos Bastos e Regina Alonso.

-

Chia no fogão

a comida preferida

pescada frita

a mesa posta pra dois

e um som suave no ar.

---------Regina e Benedita Azevedo.

-

a mesa posta pra dois

e um som suave no ar.

por todo o quintal

sinais visíveis de chuva

ah!, a brisa fresca!

--------Benedita e Severino José

-

por todo o quintal

sinais visíveis de chuva

ah!, a brisa fresca!

ao arrepio do sabiá

horas passam no telhado.

--------------Severino José e Elisa Campos.

-

ao arrepio do sabiá

horas passam no telhado.

amoroso encontro

a noite cai na cidade

não há solidão

----------Elisa Campos e Rose Mendes.

-

amoroso encontro

a noite cai na cidade

não há solidão

Ao sopro do vento frio

um abraço aquece o casal.

---------Rose Mendes e Marco Aurélio.

-

Ao sopro do vento frio

um abraço aquece o casal.

As crianças brincam

com um enorme cipó ―

Campo de verão.

-------Marco Aurélio e Carlos Martins

-

As crianças brincam

com um enorme cipó ―

Campo de verão.

Sombra de corpos no chão

e lá se vai a manhã...

---------Carlos Martins e Regina Alonso

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RENGA: Chuva de verão:..............Comentários: Regina Alonso

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Chuva de verão –

Barulho de água na calhas,

no mais, o silêncio.

Dormem juntinhos na gruta

o rebanho e o pastor.

.........Carlos e Regina

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Os primeiros versos trazem com sensibilidade e maestria a chuva de verão, forte e rápida: resta apenas o barulho sutil da água nas calhas. No dístico, o silêncio prevalece na quietude do sono do pastor (homem que cuida, tal qual a mãe) junto ao rebanho (a lembrar os filhos) na gruta (útero primevo). O renga é prática antiga usada muito antes de Bashô (séc XVII): considero este início muito feliz e adequado ao renga, pois os versos se encadeiam numa cena, ritmo e silêncio que traz a natureza (homem, chuva, animais) no tempo de hoje (agora) mas que nos permite sentir o outro tempo (distante, anterior) longíquo quando começou o renga.

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Dormem juntinhos na gruta

o rebanho e o pastor.

Guardando a entrada

a cadela de vigia --

Estronda o trovão.

----------Regina e Benedita.

-

Mudança do ambiente com sutileza, da quietude para o movimento/barulho: o verso 'a cadela de vigia' sugere que algo pode acontecer... E o silêncio é quebrado com o barulho do trovão.

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Guardando a entrada

a cadela de vigia --

Estronda o trovão.

"O relâmpago ilumina

as casas na noite escura".

----------Benedita e Carlos

-

As casas estarão à escura por que é noite ou faltou luz com o estrondar do trovão? O que importa é o contraponto do clarão com o escuro da noite, trazendo o belo mesmo diante do perigo... 'do homem que vive o risco de viver', apenas viver é o que vale! Contrapondo também ao guardar (remete à vigilância, em silêncio e com atenção) a entrada da gruta, o barulho do trovão. O encadeamento se faz por esses contrapontos...

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"O relâmpago ilumina

as casas na noite escura".

Tempo nebuloso

risca o céu de colorido –

Duplo arco-íris.

----------Carlos e Sandra

-

Ainda é verão (o kigo arco-íris é típico de verão, quando apresentam arcos bem nítidos e grandiosos), mas o renga é levado para outro lado, da escuridão/negror, do barulho e talvez medo, para o arco-íris em cores duplicadas, trazendo luz, alegria com muita sutileza: nada é explícito... apenas sugerido.

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Tempo nebuloso

risca o céu de colorido –

Duplo arco-íris.

No pontilhão da cidade

sorri casal de mendigos.

-----------Sandra e Regina

-

A alegria da luz e da cor é ampliada até aos mendigos, que sorriem, esquecidos talvez das agruras da vida de privações diante da vivacidade (que bem caracteriza o verão) sugerida. Achei muito adequado ao andamento do renga, o 'casal' numa relação sutil com o 'duplo' arco-íris, reforçando a sensação de que os sonhos efervescem nesta estação.

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No pontilhão da cidade

sorri casal de mendigos.

Voluntário chega

com uma sopa quentinha

após o toró

-----------Regina e Clara

-

Oportuna não só a chegada do voluntário com a sopa quentinha, amarrando bem com os mendigos num clima de solidariedade, mas também 'o toró' que quebra o andamento anterior, mais suave... A sopa foi servida 'após o toró', que 'fecha' inesperadamente o momento, o acontecer. A gente sente que tudo se alterna em diferente andamento, quase como a lembrar 'depois da tempestade vem a bonança'.

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Voluntário chega

com uma sopa quentinha

após o toró

Na frente da Catedral

os moradores de rua.

---------------Clara e Nilza

-

Antes os mendigos, agora os moradores de rua compõem a cena talvez numa praça onde está a Catedral. Confesso que tive medo de que o renga corresse o risco de 'parar', prender-se na mesma situação (pessoas em estado de risco). Mas... a Catedral remete à praça, e a praça é espaço livre, 'é espaço do povo' (moradores de rua, mendigos, etc): todos que ali chegam são acolhidos pelo espaço/ações e o renga continua a andar, a correr também livre...

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Na frente da Catedral

os moradores de rua.

Bando de andorinhas -

O céu por alguns instantes

no olhar do menino.

--------------Nilza e Rose

-

As andorinhas (de verão, assim eu sinto) levam também nossa atenção para o vôo (movimento alto) e ao mesmo tempo que desviam da cena anterior, fazem o encadeamento com o olhar do menino (que pode ser um dos moradores de rua). A expressão 'por alguns instantes' conduz o renga com agilidade, pois tudo acontece num átimo de tempo.

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Bando de andorinhas -

O céu por alguns instantes

no olhar do menino

Uma ponta de saudade

passa pelo pensamento.

----------Rose e Sandra

-

As andorinhas em bando dão o clima de partida ou chegada, propício à saudade, que dá continuidade ao renga levando-o com harmonia.

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Uma ponta de saudade

passa pelo pensamento.

Revoada de pombos

em torno do coreto ---

Manhã de verão

-----------Sandra e Carlos

-

Os pombos voam, geralmente fazem barulho, afinal é verão e é manhã, o horizonte se alarga... A saudade parece ir embora, como se o movimento da revoada limpasse a cena anterior, sem perder o encadeamento, pois podemos imaginar que há pessoas no coreto ('ponta de saudade/passa pelo pensamento'... 'pensamento' traz o homem...). Encadeamento perspicaz entre os versos da 1ª e da 2ª estrofe.

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Revoada de pombos

em torno do coreto ---

Manhã de verão.

A criançada na creche

corre na recreação!

-------------Carlos e Benedita

-

Tudo é movimento, a vivacidade é típica do verão: pombos (aves) e crianças (gente), todos seres vivos, alegres na claridade e calor desta estação. Encadeamento se dá pela evolução da agitação da revoada dos pombos 'livres' em volta do coreto para a correria das crianças 'presas' (num espaço fechado) na creche. Essa contraposição entre os espaços "aberto/fechado" foi sutil e movimentou/'levou' o renga com presteza.

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A criançada na creche

corre na recreação!

As folhas ao sol

lembram a arte da Criação

por puro Amor...

-----------Benedita e Antonio

-

O haicai prestigia a natureza, ou melhor, é a natureza que 'fala' ao haijin. O homem é natureza e sabe que o Amor é o fulcro do convívio em harmonia com todos os seres vivos. O mistério da Criação trazido pelo brilho/luz das flores ao sol, parece iluminar também o haijin, que sutilmente (sem explicitar), coloca-se com humildade e nos passa gratidão pela vida.

Oportuno lembrar H. Masuda Goga: Quase todos os que estudam o haicai acreditam que Bashô escreveu seus poemas de acordo com a iluminação Zen. Portanto, pensam que o haicai é uma poesia que nasceu do zen-budismo. Mas o próprio Bashô disse que não era bonzo nem adepto da seita Zen, apesar da grande amizade com o bonzo Bucchô. Bashô foi espiritualmente influenciado pelo bonzo amigo, de forma profunda, tendo a sua atitude perante a arte se tornado cada vez mais rigorosa e séria. Ele ficou sensibilizado pelas vicissitudes não só da vida humana, mas também dos outros seres vivos que habitam o universo (o trecho grifado por mim, acredito, remete ao que comentei anteriormente).

As crianças correm (movimentam-se) no seu viver, mas as folhas imóveis (supõe-se) recebem direto a 'luz'(criação), sem fazer qualquer movimento/ação. Encadeamento pelos opostos 'movimento Ximobilidade'.

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As folhas ao sol

lembram a arte da Criação

por puro Amor...

Caminhantes continuam

pela alameda em flor.

------------Antonio e Regina

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Gosto da ideia do caminhante (cada homem no caminho, no seu viver) continuar apesar das vicissitudes, isto é, apenas viver. Entregar-se ao que é traz as flores que me remetem à leveza, ao belo... e o renga caminha 'naturalmente', sem ficar 'engessado' na imobilidade das folhas (imobilidade? talvez entregues à luz natural, dádiva - do Sol; ser criatura por arte da Criação... por puro Amor).

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Caminhantes continuam

pela alameda em flor.

O sol ardente

plácido corre o riacho

homens conversam

------------Regina e Antonio

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E o renga continua , mas percebemos que o andamento muda: da leveza para o sol ardente, talvez dezembro (início das férias de verão) ou quem sabe fevereiro (quando terminam as férias de verão), dois meses bem quentes. Gostei da placidez do riacho contrapondo-se ao calorão que 'abate', mas o riacho está cheio devido às chuvas típicas dessa estação... as águas correm seguindo seu curso natural... e parecem levar os homens para o encontro com o outro, quem sabe sentados nas pedras ao redor do riacho... e a conversa 'rola' espontânea como as águas.

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O sol ardente

plácido corre o riacho

homens conversam

Dois pescadores de anzol

enchem a cesta de peixes.

------------Antônio e Benedita

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O encadeamento se dá pela água do riacho que leva dois homens à pescar. Tudo é harmonia, a conversa cessa e faz-se silêncio, podemos supor, quando os homens ficam atentos a escolher e prender iscas. Depois, imaginamos o silêncio interrompido pelo lançamento do anzol nas águas e quem sabe até pelas expressões de espanto, alegria (ou decepção) com o peixe que vem preso ao anzol e vai para a cesta.

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Dois pescadores com anzol

enchem a cesta de peixes.

Tarde preguiçosa ―

Em uníssono as cigarras

na mata do rio.

---------Benedita e Carlos

-

Agora o encadeamento se faz por similitude de sons: antes, ruídos, expressões quase barulho 'leve' (permitam-me para ser mais clara); agora o zunir inconfundível das cigarras rompe com força, quebra de vez o silêncio e nos leva mais longe, adiante... para a mata.

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Tarde preguiçosa ―

Em uníssono as cigarras

na mata do rio.

voa, voa um passarinho

sobre o mistério da tarde

-------- Carlos e Rose

-

Percebo que a tarde finda, pela agregação da palavra 'mistério' ao último verso. O renga segue no voo do de um só passarinho. Talvez a intenção seja passar do zunir de muitas cigarras (em uníssono) para a tarde que se vai, sem pressa, no voo de 'um só' passarinho. Da tensão forte do canto estrídulo das cigarras afrouxamos para o voo do pássaro em solidão e provável silêncio, ao entardecer. Gostei da mudança de 'muitas' (cigarras) para 'um', solidão que sempre perpassa o entardecer (embora no verão haja a alegria das cores, do dia/luz que se alonga... porém, na mata, a solidão ao entardecer é mais 'visível/sentida', mesmo nessa estação).

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voa, voa um passarinho

sobre o mistério da tarde

Apenas silêncio

e o arrebol de verão -

Olhar para o céu...

------------Rose e Marco

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Encadeamento sutil. Sinto que o silêncio 'arde' ao sol poente, quando o vermelho intenso, vivo e brilhante cobre o céu, que parece em chamas... E quase intuitivamente, erguemos os olhos ao céu e contemplamos algo que é 'fogo', beleza do fenômeno natural. Há contemplação e movimento da cabeça para o alto que conduzem com muita sutileza, o renga.

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Apenas silêncio

e o arrebol de verão -

Olhar para o céu...

Lá sobre a Serra do Órgãos

a cachoeira murmura

--------------Marco Aurélio

-

O encadeamento traz cena de extrema beleza. A cachoeira, no verão, abundante, devido às chuvas. O curso do rio, em queda vertical. A denominação do local coloca o renga 'no chão', no real acontecer e sai do clima de silenciosa contemplação. Agora a cachoeira murmura e os sons despertam, cortam a quietude e conduzem o renga.

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Lá sobre a Serra do Órgãos

a cachoeira murmura

Uma gota d’água

Pinga, pinga persistente

Perfurando a rocha

-------------Benedita e Pedro

-

Excelente a passagem da abundância de água para um pingo e sua força. O pingo, na persistência de seu fazer/ser, perfura a rocha... Os versos me fizeram lembrar de Bashô em sua viagem pelo Japão inóspito e longínquo, especialmente ao norte. E ele continuou, enfrentando o árduo caminho para levar a poesia, praticar com os que o recebiam... e exultar ao encontrar, compartilhar e ouvir/colher tão belos poemas, sem saber que precisaria vir longe, tão longe para encontrar a beleza! Esse encadeamento (e andamento do renga) para mim é de extrema sensibilidade e percepção.

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Uma gota d’água

Pinga, pinga persistente

Perfurando a rocha

a tarde vai se esvaindo

e esta chuva que não cessa.

-------------Pedro Caluchi e Elisa

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A chuva está de volta ligando-se perfeitamente ao pingo persistente. Tudo se esvai, o tempo (a tarde)... e faz sentir a impermanência, o transitório viver, eterna mudança, tempo inexorável. Só a chuva teima em permanecer: o último verso ('e esta chuva que não cessa) dá sensação de impaciência (nostalgia?) do homem, talvez até cansado de esperar por uma trégua (mudança meteorológica). A tarde passa, só a chuva fica, o contraditório no inabalável (tarde e chuva): tarde inexorável passa e chuva, também inexorável, parece ter vontade própria e permanece, apesar da vontade do homem consciente de que não pode mudar o que é. Este sentimento de impossibilidade, tempo e espera da mudança (nova estação?) é que,contraditoriamente conduz o renga.

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a tarde vai se esvaindo

e esta chuva que não cessa.

vai chegando a noite

cantam os pássaros pretos

entre o bambuzal

------------Elisa e Severino

-

Oportuna a chegada dos pássaros pretos (vivem em pequenos bandos, fazem muito barulho) – indica mudança de estação: verão para outono (talvez se iniciando e nos livrando do calor abafado). Conhecido como graúna, assum-preto, melro... é inteiro negro, o que origina seu nome popular. A noite está chegando: ainda há luz e podemos vê-los no lusco-fusco do anoitecer. É um dos pássaros de voz mais melodiosa, o que nos faz imaginar a beleza da canção que passa entre as hastes e folhas do bambuzal e conceber ainda o arrepiar das penas da cabeça e pescoço, enquanto canta. Até a fêmea canta. O canto dos pássaros avisa sutilmente, que a chuva passou. O renga é levado (e nos leva) à passagem da tarde para a noite pelo canto harmonioso. O movimento dos bambus (podemos pressupor que são novos, com hastes flexíveis e folhas viçosas) completam o andamento, encadeando e levando o renga numa composição de cena cheia de formosura, diminuindo a sensação de monotonia e melancolia do outono.

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vai chegando a noite

cantam os pássaros pretos

entre o bambuzal

num farfalhar de folhas

meus passos seguem a trilha

-------------Severino e Elisa

-

A chuva cessa, os pássaros cantam e o homem (o próprio poeta?) pode seguir a trilha, o caminho que a natureza lhe aponta. O encadeamento sutil se faz pelos sons (do forte ao leve): do canto intenso dos pássaros pretos ao farfalhar (rumorejar, ciciar) de folhas.

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num farfalhar de folhas

meus passos seguem a trilha

Noite silenciosa...

só o grito da coruja

rasga a escuridão!

------------Elisa e Benedita

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O tempo vai com os passos do caminhante, tempo que se amplia, alonga pelo caminho (vida?) sem fim... e o grito da coruja na escuridão, lembra a 'morte' do verão e do outono, pois tudo passa na roda do viver-morrer, recomeçar no novo tempo (estação/inverno) anunciado pelo grito que rasga a escuridão. A coruja procura abrigo e alimento? O que importa é o círculo do tempo inexorável, que faz um encadeamento forte pela 'quebra' do cicio das folhas ('quase' silêncio) ao grito da coruja. E leva o renga pelo caminho (tempo inabalável do homem).

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Noite silenciosa...

só o grito da coruja

rasga a escuridão!

Passa, na noite sem lua,

o jovem casal em juras.

--------------Benedita e Carlos

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Sim, contraditório é o tempo: transitório pelas estações, em constantes mudanças e inflexível diante do mistério 'vida-morte' (nascer para morrer... morrer para nascer). É inverno (coruja é kigo de inverno), e o encadeamento se faz pela 'noite sem lua', que reforça o escuro da cena anterior, mas sem 'colar' no negror, pois aparece 'o jovem casal em juras', o que 'ilumina' o poema de 'outra luz '(do amor? do convívio?). O que vale é o andamento e mudança de tensão intensa para afrouxamento pela cena de aconchego.

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Passa, na noite sem lua,

o jovem casal em juras.

Silêncio na noite

aves pousadas nos ramos

anjos sobre a terra

---------------Carlos e Rose

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Confesso que me fiquei um pouco perdida no último verso. Senti necessidade de saber um pouco sobre o que são os anjos: mais poderosos do que os humanos, vivem no céu. Seres espirituais, sem um corpo físico real, mas têm inteligência, emoções e vontade. O fato de não terem corpos não muda o fato de terem suas personalidades. Criados como uma ordem superior de criaturas no universo, em comparação aos seres humanos, é de sua natureza possuir maior conhecimento, adquirido através da longa observação das atividades dos humanos.

Podemos imaginar no frio da noite sem lua, o casal em juras. E vem o silêncio das aves em pouso nos ramos... o casal em juras seria a personificação dos anjos sobre a terra? Sinto-me confusa e apreensiva - o renga vai ficar paralisado? Ou será conduzido pelos seres espirituais que adquirem conhecimento observando o casal em juras e neste caso não haveria personificação? Seriam anjos mesmo sobre a terra, mesmo sem corpo físico, mas personificados pelas aves em pouso nos ramos?

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Silêncio na noite

aves pousadas nos ramos

anjos sobre a terra

Nem passarinhos verão

a morna chuva de estrelas.

-------------Rose e Marco

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Lindo e oportuno o último verso, 'a morna chuva de estrelas', que condiz com o clima anterior, mas traz a renovação do renga, ao propor um caminho novo, surpreendente. A chuva é morna, tépida e real, mas só vista pelos que contemplam, pelos que erguem os olhos às alturas? 'Nem passarinhos verão' reforça a natureza das alturas (céu, estrelas) a acontecer inexoravelmente, diante ou distante de qualquer olhar Parece-me que intuitivamente a primavera se insinua.

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Nem passarinhos verão

a morna chuva de estrelas.

Chia no fogão

a comida preferida

pescada frita

-------------Marcos e Regina

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Pescadinha é abundante em setembro, e assim passamos para a alegria da primavera, cores, sons (chiados do peixe na frigideira). O renga é levado para outro lado, isto é, o acontecer passa do lado de fora (céu, estrelas) e conduz o renga para o lado de dentro (cozinha da casa) onde se dá o encontro jovial em volta da mesa... o cheiro atrai (todos? alguns?) para mesmo lugar, onde a refeição é feita com júbilo, e dá a sensação de confirmar o renascimento (do homem e do próprio renga), afinal o 'peixe' também foi o primeiro alimento oferecido ao homem na travessia do mar.

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Chia no fogão

a comida preferida

pescada frita

a mesa posta pra dois

e um som suave no ar.

---------Regina e Benedita

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A alegria pode ser compartida por apenas um casal (a mesa posta sugere... ) e o som suave insinua clima de romance, de paz, de harmonia. O renga caminha com sutileza e permite leve reflexão sobre a alegria como um estado de ser, estar e que independe da quantidade de pessoas...(reflexão sobre o mundo de hoje, redes sociais...)

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a mesa posta pra dois

e um som suave no ar.

por todo o quintal

sinais visíveis de chuva

ah!, a brisa fresca!

---------Benedita e Severino

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Adorável e pertinente esta brisa, que nos faz perceber que ainda caminhamos pela primavera... e a chuva (que já passou) faz 'liga' tênue com os versos anteriores e aprofunda o renga, com o sentido de que o que já aconteceu (a chuva de primavera, silenciosa e constante, sugerindo desprendimento, despreocupação) possa trazer outros benefícios ao findar. Assim, podemos imaginar que a chuva, ao cessar, traz o frescor, ventinho gostoso que sopra , entra pela janela e refresca o local onde está a mesa posta... talvez o casal (namorados? amigos?não importa!) se aproxime da janela e converse, sentindo o vento de primavera. Lindo sentir que o renga é encadeado pela chuva (que cessa!) e levadosuavemente pela refrescante e agradável brisa.

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por todo o quintal

sinais visíveis de chuva

ah!, a brisa fresca!

ao arrepio do sabiá

horas passam no telhado.

---------Severino e Elisa

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O sabiá se arrepia à brisa refrescante, e horas (muito tempo) passam no telhado. Encadeamento pelo arrepio e quem sabe, até pelo canto, às vezes nostálgico, da ave. O telhado nos aproxima do alto, do céu de primavera e seu brilho menos intenso que o de verão. Certa imobilidade do tempo, dando sensação de quietude.

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ao arrepio do sabiá

horas passam no telhado.

amoroso encontro

a noite cai na cidade

não há solidão

----------Elisa e Rose

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A noite vem, noite de primavera, mais suave e clara, trazendo o encontro propício que encadeia e conduz o renga pelo convívio amoroso - não há solidão, ainda que haja nostalgia do canto de um só sabiá no telhado.

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amoroso encontro

a noite cai na cidade

não há solidão

Ao sopro do vento frio

um abraço aquece o casal.

---------Rose e Marco Aurélio

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Sinto que é vento frio de primavera, frio menos intenso que o de inverno... um abraço dá o calor necessário aos corpos e leva a solidão embora. O andamento do renga se faz pelo abraço que 'leva' o poema, o frio e a solidão embora. Aqui também me parece que o fim da primavera se insinua, ou melhor, que o abraço sugere certa vivacidade/energia que indica mudança de estação.

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Ao sopro do vento frio

um abraço aquece o casal.

As crianças brincam

com um enorme cipó ―

Campo de verão.

---------Marco e Carlos

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E do recolhimento no abraço, o poema passa para a amplitude no movimento de balançar de crianças penduradas no cipó. Muito interessante esse encadeamento pelos opostos: 'fechar'(movimento de abraçar, abrigar) para 'abrir', 'ampliar' (movimento de balançar no cipó). A primavera finda, a estação é outra: é verão (de volta à estação do início do renga – o ir e vir das estações, do círculo viver-morre... renascer) – tempo de vivacidade, atividade, energia... trazidos pelo viço e frescor do verdejante campo de verão.

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As crianças brincam

com um enorme cipó ―

Campo de verão.

Sombra de corpos no chão

e lá se vai a manhã...

---------Carlos e Regina

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Aqui é nítido e ao mesmo tempo sutil o encadeamento entre os três primeiros versos e os dois últimos. Gosto da sensação de que tudo anda, passa, se transforma – 'sombra de corpos no chão/ e lá se vai a manhã' – no instante (tempo fugaz) que é o acontecer (a razão) do próprio haicai. Acho que o fechamento do renga é forte por trazer o sentido de transitoriedade do tempo, vida-morte que sustenta (ou leva adiante?) o renga que se movimenta como a vida-morte, no círculo inexorável do tempo, da existência.

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Obs sobre o título do renga: 'Chuva de verão', bem de acordo ao desenrolar do renga, onde a chuva provoca o primeiro poema e também é reiterada em outros.

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verão/2018

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Referências

 

RENGA : Chuva de verão

Inspirado no haiga de Carlos Martins.

Conduzido por Benedita Azevedo

Comentários de Regina Alonso.

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Participantes: Carlos Martins, Regina Alonso, Benedita Azevedo, Sandra Hiraga, Clara Szanifer, Nilza Azze, Marco Bastos, Rose Mendes, Antonio de Jesus Anjes, Marco Aurélio Alencar, Pedro Caluchi, Elisa Campos, Severino José.

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Um trabalho coletivo é feito uma engrenagem onde todos as peças são imprescindíveis. Obrigada a todos que aceitaram o convite de caminhar conosco pelas estações deste RENGA.

 

Praia do Anil, 19/01/2018, às 17h:57m

EMI Benedita Azevedo.

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Administradores e moderadores do grupo

Benedita Silva de Azevedo

administradora

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Carlos Martins

Regina Alonso

Moderadores


Publicado por Benedita Azevedo em 24/01/2018 às 00h02
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