Haicai, Verso e Prosa

Letras e Sentimentos

Meu Diário
24/01/2018 00h51
RENGA: Chuva de verão: Comentários: Regina Alonso -

 

Chuva de verão –

Barulho de água na calhas,

no mais, o silêncio.

Dormem juntinhos na gruta

o rebanho e o pastor.

.........Carlos e Regina

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Os primeiros versos trazem com sensibilidade e maestria a chuva de verão, forte e rápida: resta apenas o barulho sutil da água nas calhas. No dístico, o silêncio prevalece na quietude do sono do pastor (homem que cuida, tal qual a mãe) junto ao rebanho (a lembrar os filhos) na gruta (útero primevo). O renga é prática antiga usada muito antes de Bashô (séc XVII): considero este início muito feliz e adequado ao renga, pois os versos se encadeiam numa cena, ritmo e silêncio que traz a natureza (homem, chuva, animais) no tempo de hoje (agora) mas que nos permite sentir o outro tempo (distante, anterior) longíquo quando começou o renga.

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Dormem juntinhos na gruta

o rebanho e o pastor.

Guardando a entrada

a cadela de vigia --

Estronda o trovão.

----------Regina e Benedita.

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Mudança do ambiente com sutileza, da quietude para o movimento/barulho: o verso 'a cadela de vigia' sugere que algo pode acontecer... E o silêncio é quebrado com o barulho do trovão.

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Guardando a entrada

a cadela de vigia --

Estronda o trovão.

"O relâmpago ilumina

as casas na noite escura".

----------Benedita e Carlos

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As casas estarão à escura por que é noite ou faltou luz com o estrondar do trovão? O que importa é o contraponto do clarão com o escuro da noite, trazendo o belo mesmo diante do perigo... 'do homem que vive o risco de viver', apenas viver é o que vale! Contrapondo também ao guardar (remete à vigilância, em silêncio e com atenção) a entrada da gruta, o barulho do trovão. O encadeamento se faz por esses contrapontos...

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"O relâmpago ilumina

as casas na noite escura".

Tempo nebuloso

risca o céu de colorido –

Duplo arco-íris.

----------Carlos e Sandra

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Ainda é verão (o kigo arco-íris é típico de verão, quando apresentam arcos bem nítidos e grandiosos), mas o renga é levado para outro lado, da escuridão/negror, do barulho e talvez medo, para o arco-íris em cores duplicadas, trazendo luz, alegria com muita sutileza: nada é explícito... apenas sugerido.

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Tempo nebuloso

risca o céu de colorido –

Duplo arco-íris.

No pontilhão da cidade

sorri casal de mendigos.

-----------Sandra e Regina

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A alegria da luz e da cor é ampliada até aos mendigos, que sorriem, esquecidos talvez das agruras da vida de privações diante da vivacidade (que bem caracteriza o verão) sugerida. Achei muito adequado ao andamento do renga, o 'casal' numa relação sutil com o 'duplo' arco-íris, reforçando a sensação de que os sonhos efervescem nesta estação.

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No pontilhão da cidade

sorri casal de mendigos.

Voluntário chega

com uma sopa quentinha

após o toró

-----------Regina e Clara

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Oportuna não só a chegada do voluntário com a sopa quentinha, amarrando bem com os mendigos num clima de solidariedade, mas também 'o toró' que quebra o andamento anterior, mais suave... A sopa foi servida 'após o toró', que 'fecha' inesperadamente o momento, o acontecer. A gente sente que tudo se alterna em diferente andamento, quase como a lembrar 'depois da tempestade vem a bonança'.

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Voluntário chega

com uma sopa quentinha

após o toró

Na frente da Catedral

os moradores de rua.

---------------Clara e Nilza

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Antes os mendigos, agora os moradores de rua compõem a cena talvez numa praça onde está a Catedral. Confesso que tive medo de que o renga corresse o risco de 'parar', prender-se na mesma situação (pessoas em estado de risco). Mas... a Catedral remete à praça, e a praça é espaço livre, 'é espaço do povo' (moradores de rua, mendigos, etc): todos que ali chegam são acolhidos pelo espaço/ações e o renga continua a andar, a correr também livre...

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Na frente da Catedral

os moradores de rua.

Bando de andorinhas -

O céu por alguns instantes

no olhar do menino.

--------------Nilza e Rose

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As andorinhas (de verão, assim eu sinto) levam também nossa atenção para o voo (movimento alto) e ao mesmo tempo que desviam da cena anterior, fazem o encadeamento com o olhar do menino (que pode ser um dos moradores de rua). A expressão 'por alguns instantes' conduz o renga com agilidade, pois tudo acontece num átimo de tempo.

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Bando de andorinhas -

O céu por alguns instantes

no olhar do menino

Uma ponta de saudade

passa pelo pensamento.

----------Rose e Sandra

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As andorinhas em bando dão o clima de partida ou chegada, propício à saudade, que dá continuidade ao renga levando-o com harmonia.

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Uma ponta de saudade

passa pelo pensamento.

Revoada de pombos

em torno do coreto ---

Manhã de verão

-----------Sandra e Carlos

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Os pombos voam, geralmente fazem barulho, afinal é verão e é manhã, o horizonte se alarga... A saudade parece ir embora, como se o movimento da revoada limpasse a cena anterior, sem perder o encadeamento, pois podemos imaginar que há pessoas no coreto ('ponta de saudade/passa pelo pensamento'... 'pensamento' traz o homem...). Encadeamento perspicaz entreos versos da 1ª e da 2ª estrofe.

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Revoada de pombos

em torno do coreto ---

Manhã de verão.

A criançada na creche

corre na recreação!

-------------Carlos e Benedita

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Tudo é movimento, a vivacidade é típica do verão: pombos (aves) e crianças (gente), todos seres vivos, alegres na claridade e calor desta estação. Encadeamento se dá pela evolução da agitação da revoada dos pombos 'livres' em volta do coreto para a correria das crianças 'presas' (num espaço fechado) na creche. Essa contraposição entre os espaços "aberto/fechado" foi sutil e movimentou/'levou' o renga com presteza.

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A criançada na creche

corre na recreação!

As folhas ao sol

lembram a arte da Criação

por puro Amor...

-----------Benedita e Antonio

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O haicai prestigia a natureza, ou melhor, é a natureza que 'fala' ao haijin. O homem é natureza e sabe que o Amor é o fulcro do convívio em harmonia com todos os seres vivos. O mistério da Criação trazido pelo brilho/luz das flores ao sol, parece iluminar também o haijin, que sutilmente (sem explicitar), coloca-se com humildade e nos passa gratidão pela vida.

Oportuno lembrar H. Masuda Goga: Quase todos os que estudam o haicai acreditam que Bashô escreveu seus poemas de acordo com a iluminação Zen. Portanto, pensam que o haicai é uma poesia que nasceu do zen-budismo. Mas o próprio Bashô disse que não era bonzo nem adepto da seita Zen, apesar da grande amizade com o bonzo Bucchô. Bashô foi espiritualmente influenciado pelo bonzo amigo, de forma profunda, tendo a sua atitude perante a arte se tornado cada vez mais rigorosa e séria. Ele ficou sensibilizado pelas vicissitudes não só da vida humana, mas também dos outros seres vivos que habitam o universo (o trecho grifado por mim, acredito, remete ao que comentei anteriormente).

As crianças correm (movimentam-se) no seu viver, mas as folhas imóveis (supõe-se) recebem direto a 'luz'(criação), sem fazer qualquer movimento/ação. Encadeamento pelos opostos 'movimento Ximobilidade'.

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As folhas ao sol

lembram a arte da Criação

por puro Amor...

Caminhantes continuam

pela alameda em flor.

------------Antonio e Regina

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Gosto da ideia do caminhante (cada homem no caminho, no seu viver) continuar apesar das vicissitudes, isto é, apenas viver. Entregar-se ao que é traz as flores que me remetem à leveza, ao belo... e o renga caminha 'naturalmente', sem ficar 'engessado' na imobilidade das folhas (imobilidade? talvez entregues à luz natural, dádiva - do Sol; ser criatura por arte da Criação... por puro Amor).

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Caminhantes continuam

pela alameda em flor.

O sol ardente

plácido corre o riacho

homens conversam

------------Regina e Antonio

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E o renga continua , mas percebemos que o andamento muda: da leveza para o sol ardente, talvez dezembro (início das férias de verão) ou quem sabe fevereiro (quando terminam as férias de verão), dois meses bem quentes. Gostei da placidez do riacho contrapondo-se ao calorão que 'abate', mas o riacho está cheio devido às chuvas típicas dessa estação... as águas correm seguindo seu curso natural... e parecem levar os homens para o encontro com o outro, quem sabe sentados nas pedras ao redor do riacho... e a conversa 'rola' espontânea como as águas.

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O sol ardente

plácido corre o riacho

homens conversam

Dois pescadores de anzol

enchem a cesta de peixes.

------------Antônio e Benedita

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O encadeamento se dá pela água do riacho que leva dois homens à pescar. Tudo é harmonia, a conversa cessa e faz-se silêncio, podemos supor, quando os homens ficam atentos a escolher e prender iscas. Depois, imaginamos o silêncio interrompido pelo lançamento do anzol nas águas e quem sabe até pelas expressões de espanto, alegria (ou decepção) com o peixe que vem preso ao anzol e vai para a cesta.

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Dois pescadores com anzol

enchem a cesta de peixes.

Tarde preguiçosa ―

Em uníssono as cigarras

na mata do rio.

---------Benedita e Carlos

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Agora o encadeamento se faz por similitude de sons: antes, ruídos, expressões quase barulho 'leve' (permitam-me para ser mais clara); agora o zunir inconfundível das cigarras rompe com força, quebra de vez o silêncio e nos leva mais longe, adiante... para a mata.

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Tarde preguiçosa ―

Em uníssono as cigarras

na mata do rio.

voa, voa um passarinho

sobre o mistério da tarde

-------- Carlos e Rose

-

Percebo que a tarde finda, pela agregação da palavra 'mistério' ao último verso. O renga segue no voo do de um só passarinho. Talvez a intenção seja passar do zunir de muitas cigarras (em uníssono) para a tarde que se vai, sem pressa, no voo de 'um só' passarinho. Da tensão forte do canto estrídulo das cigarras afrouxamos para o voo do pássaro em solidão e provável silêncio, ao entardecer. Gostei da mudança de 'muitas' (cigarras) para 'um', solidão que sempre perpassa o entardecer (embora no verão haja a alegria das cores, do dia/luz que se alonga... porém, na mata, a solidão ao entardecer é mais 'visível/sentida', mesmo nessa estação).

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voa, voa um passarinho

sobre o mistério da tarde

Apenas silêncio

e o arrebol de verão -

Olhar para o céu...

------------Rose e Marco

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Encadeamento sutil. Sinto que o silêncio 'arde' ao sol poente, quando o vermelho intenso, vivo e brilhante cobre o céu, que parece em chamas... E quase intuitivamente, erguemos os olhos ao céu e contemplamos algo que é 'fogo', beleza do fenômeno natural. Há contemplação e movimento da cabeça para o alto que conduzem com muita sutileza, o renga.

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Apenas silêncio

e o arrebol de verão -

Olhar para o céu...

Lá sobre a Serra do Órgãos

a cachoeira murmura

--------------Marco Aurélio

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O encadeamento traz cena de extrema beleza. A cachoeira, no verão, abundante, devido às chuvas. O curso do rio, em queda vertical. A denominação do local coloca o renga 'no chão', no real acontecer e sai do clima de silenciosa contemplação. Agora a cachoeira murmura e os sons despertam, cortam a quietude e conduzem o renga.

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Lá sobre a Serra do Órgãos

a cachoeira murmura

Uma gota d’água

Pinga, pinga persistente

Perfurando a rocha

-------------Benedita e Pedro

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Excelente a passagem da abundância de água para um pingo e sua força. O pingo, na persistência de seu fazer/ser, perfura a rocha... Os versos me fizeram lembrar de Bashô em sua viagem pelo Japão inóspito e longínquo, especialmente ao norte. E ele continuou, enfrentando o árduo caminho para levar a poesia, praticar com os que o recebiam... e exultar ao encontrar, compartilhar e ouvir/colher tão belos poemas, sem saber que precisaria vir longe, tão longe para encontrar a beleza! Esse encadeamento (e andamento do renga) para mim é de extrema sensibilidade e percepção.

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Uma gota d’água

Pinga, pinga persistente

Perfurando a rocha

a tarde vai se esvaindo

e esta chuva que não cessa.

-------------Pedro Caluchi e Elisa

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A chuva está de volta ligando-se perfeitamente ao pingo persistente. Tudo se esvai, o tempo (a tarde)... e faz sentir a impermanência, o transitório viver, eterna mudança, tempo inexorável. Só a chuva teima em permanecer: o último verso ('e esta chuva que não cessa) dá sensação de impaciência (nostalgia?) do homem, talvez até cansado de esperar por uma trégua (mudança meteorológica). A tarde passa, só a chuva fica, o contraditório no inabalável (tarde e chuva): tarde inexorável passa e chuva, também inexorável, parece ter vontade própria e permanece, apesar da vontade do homem consciente de que não pode mudar o que é. Este sentimento de impossibilidade, tempo e espera da mudança (nova estação?) é que,contraditoriamente conduz o renga.

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a tarde vai se esvaindo

e esta chuva que não cessa.

vai chegando a noite

cantam os pássaros pretos

entre o bambuzal

------------Elisa e Severino

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Oportuna a chegada dos pássaros pretos (vivem em pequenos bandos, fazem muito barulho) – indica mudança de estação: verão para outono (talvez se iniciando e nos livrando do calor abafado). Conhecido como graúna, assum-preto, melro... é inteiro negro, o que origina seu nome popular. A noite está chegando: ainda há luz e podemos vê-los no lusco-fusco do anoitecer. É um dos pássaros de voz mais melodiosa, o que nos faz imaginar a beleza da canção que passa entre as hastes e folhas do bambuzal e conceber ainda o arrepiar das penas da cabeça e pescoço, enquanto canta. Até a fêmea canta. O canto dos pássaros avisa sutilmente, que a chuva passou. O renga é levado (e nos leva) à passagem da tarde para a noite pelo canto harmonioso. O movimento dos bambus (podemos pressupor que são novos, com hastes flexíveis e folhas viçosas) completam o andamento, encadeando e levando o renga numa composição de cena cheia de formosura, diminuindo a sensação de monotonia e melancolia do outono.

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vai chegando a noite

cantam os pássaros pretos

entre o bambuzal

num farfalhar de folhas

meus passos seguem a trilha

-------------Severino e Elisa

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A chuva cessa, os pássaros cantam e o homem (o próprio poeta?) pode seguir a trilha, o caminho que a natureza lhe aponta. O encadeamento sutil se faz pelos sons (do forte ao leve): do canto intenso dos pássaros pretos ao farfalhar (rumorejar, ciciar) de folhas.

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num farfalhar de folhas

meus passos seguem a trilha

Noite silenciosa...

só o grito da coruja

rasga a escuridão!

------------Elisa e Benedita

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O tempo vai com os passos do caminhante, tempo que se amplia, alonga pelo caminho (vida?) sem fim... e o grito da coruja na escuridão, lembra a 'morte' do verão e do outono, pois tudo passa na roda do viver-morrer, recomeçar no novo tempo (estação/inverno) anunciado pelo grito que rasga a escuridão. A coruja procura abrigo e alimento? O que importa é o círculo do tempo inexorável, que faz um encadeamento forte pela 'quebra' do cicio das folhas ('quase' silêncio) ao grito da coruja. E leva o renga pelo caminho (tempo inabalável do homem).

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Noite silenciosa...

só o grito da coruja

rasga a escuridão!

Passa, na noite sem lua,

o jovem casal em juras.

--------------Benedita e Carlos

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Sim, contraditório é o tempo: transitório pelas estações, em constantes mudanças e inflexível diante do mistério 'vida-morte' (nascer para morrer... morrer para nascer). É inverno (coruja é kigo de inverno), e o encadeamento se faz pela 'noite sem lua', que reforça o escuro da cena anterior, mas sem 'colar' no negror, pois aparece 'o jovem casal em juras', o que 'ilumina' o poema de 'outra luz '(do amor? do convívio?). O que vale é o andamento e mudança de tensão intensa para afrouxamento pela cena de aconchego.

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Passa, na noite sem lua,

o jovem casal em juras.

Silêncio na noite

aves pousadas nos ramos

anjos sobre a terra

---------------Carlos e Rose

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Confesso que me fiquei um pouco perdida no último verso. Senti necessidade de saber um pouco sobre o que são os anjos: mais poderosos do que os humanos, vivem no céu. Seres espirituais, sem um corpo físico real, mas têm inteligência, emoções e vontade. O fato de não terem corpos não muda o fato de terem suas personalidades. Criados como uma ordem superior de criaturas no universo, em comparação aos seres humanos, é de sua natureza possuir maior conhecimento, adquirido através da longa observação das atividades dos humanos.

Podemos imaginar no frio da noite sem lua, o casal em juras. E vem o silêncio das aves em pouso nos ramos... o casal em juras seria a personificação dos anjos sobre a terra? Sinto-me confusa e apreensiva - o renga vai ficar paralisado? Ou será conduzido pelos seres espirituais que adquirem conhecimento observando o casal em juras e neste caso não haveria personificação? Seriam anjos mesmo sobre a terra, mesmo sem corpo físico, mas personificados pelas aves em pouso nos ramos?

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Silêncio na noite

aves pousadas nos ramos

anjos sobre a terra

Nem passarinhos verão

a morna chuva de estrelas.

-------------Rose e Marco

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Lindo e oportuno o último verso, 'a morna chuva de estrelas', que condiz com o clima anterior, mas traz a renovação do renga, ao propor um caminho novo, surpreendente. A chuva é morna, tépida e real, mas só vista pelos que contemplam, pelos que erguem os olhos às alturas? 'Nem passarinhos verão' reforça a natureza das alturas (céu, estrelas) a acontecer inexoravelmente, diante ou distante de qualquer olhar Parece-me que intuitivamente a primavera se insinua.

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Nem passarinhos verão

a morna chuva de estrelas.

Chia no fogão

a comida preferida

pescada frita

-------------Marcos e Regina

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Pescadinha é abundante em setembro, e assim passamos para a alegria da primavera, cores, sons (chiados do peixe na frigideira). O renga é levado para outro lado, isto é, o acontecer passa do lado de fora (céu, estrelas) e conduz o renga para o lado de dentro (cozinha da casa) onde se dá o encontro jovial em volta da mesa... o cheiro atrai (todos? alguns?) para mesmo lugar, onde a refeição é feita com júbilo, e dá a sensação de confirmar o renascimento (do homem e do próprio renga), afinal o 'peixe' também foi o primeiro alimento  oferecido ao homem na travessia do mar.

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Chia no fogão

a comida preferida

pescada frita

a mesa posta pra dois

e um som suave no ar.

---------Regina e Benedita

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A alegria pode ser compartida por apenas um casal (a mesa posta sugere... ) e o som suave insinua clima de romance, de paz, de harmonia. O renga caminha com sutileza e permite leve reflexão sobre a alegria como um estado de ser, estar e que independe da quantidade de pessoas...(reflexão sobre o mundo de hoje, redes sociais...)

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a mesa posta pra dois

e um som suave no ar.

por todo o quintal

sinais visíveis de chuva

ah!, a brisa fresca!

---------Benedita e Severino

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Adorável e pertinente esta brisa, que nos faz perceber que ainda caminhamos pela primavera... e a chuva (que já passou) faz 'liga' tênue com os versos anteriores e aprofunda o renga, com o sentido de que o que já aconteceu (a chuva de primavera, silenciosa e constante, sugerindo desprendimento, despreocupação) possa trazer outros benefícios ao findar. Assim, podemos imaginar que a chuva, ao cessar, traz o frescor, ventinho gostoso que sopra , entra pela janela e refresca o local onde está a mesa posta... talvez o casal (namorados? amigos?não importa!) se aproxime da janela e converse, sentindo o vento de primavera. Lindo sentir que o renga é encadeado pela chuva (que cessa!) e levado suavemente pela refrescante e agradável brisa.

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por todo o quintal

sinais visíveis de chuva

ah!, a brisa fresca!

ao arrepio do sabiá

horas passam no telhado.

---------Severino e Elisa

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O sabiá se arrepia à brisa refrescante, e horas (muito tempo) passam no telhado. Encadeamento pelo arrepio e quem sabe, até pelo canto, às vezes nostálgico, da ave. O telhado nos aproxima do alto, do céu de primavera e seu brilho menos intenso que o de verão. Certa imobilidade do tempo, dando sensação de quietude.

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ao arrepio do sabiá

horas passam no telhado.

amoroso encontro

a noite cai na cidade

não há solidão

----------Elisa e Rose

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A noite vem, noite de primavera, mais suave e clara, trazendo o encontro propício que encadeia e conduz o renga pelo convívio amoroso - não há solidão, ainda que haja nostalgia do canto de um só sabiá no telhado.

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amoroso encontro

a noite cai na cidade

não há solidão

Ao sopro do vento frio

um abraço aquece o casal.

---------Rose e Marco Aurélio

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Sinto que é vento frio de primavera, frio menos intenso que o de inverno... um abraço dá o calor necessário aos corpos e leva a solidão embora. O andamento do renga se faz pelo abraço que 'leva' o poema, o frio e a solidão embora. Aqui também me parece que o fim da primavera se insinua, ou melhor, que o abraço sugere certa vivacidade/energia que indica mudança de estação.

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Ao sopro do vento frio

um abraço aquece o casal.

As crianças brincam

com um enorme cipó ―

Campo de verão.

---------Marco e Carlos

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E do recolhimento no abraço, o poema passa para a amplitude no movimento de balançar de crianças penduradas no cipó. Muito interessante esse encadeamento pelos opostos: 'fechar'(movimento de abraçar, abrigar) para 'abrir', 'ampliar' (movimento de balançar no cipó). A primavera finda, a estação é outra: é verão (de volta à estação do início do renga – o ir e vir das estações, do círculo viver-morre... renascer) – tempo de vivacidade, atividade, energia... trazidos pelo viço e frescor do verdejante campo de verão.

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As crianças brincam

com um enorme cipó ―

Campo de verão.

Sombra de corpos no chão

e lá se vai a manhã...

---------Carlos e Regina

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Aqui é nítido e ao mesmo tempo sutil o encadeamento entre os três primeiros versos e os dois últimos. Gosto da sensação de que tudo anda, passa, se transforma – 'sombra de corpos no chão/ e lá se vai a manhã' – no instante (tempo fugaz) que é o acontecer (a razão) do próprio haicai. Acho que o fechamento do renga é forte por trazer o sentido de transitoriedade do tempo, vida-morte que sustenta (ou leva adiante?) o renga que se movimenta como a vida-morte, no círculo inexorável do tempo, da existência.

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Obs sobre o título do renga: 'Chuva de verão', bem de acordo ao desenrolar do renga, onde a chuva provoca o primeiro poema e também é reiterada em outros.

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verão/2018

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Referências

 

RENGA : Chuva de verão

Inspirado no haiga de Carlos Martins.

Conduzido por Benedita Azevedo

Comentários de Regina Alonso.

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Participantes: Carlos Martins, Regina Alonso, Benedita Azevedo, Sandra Hiraga, Clara Szanifer, Nilza Azze, Marco Bastos, Rose Mendes, Antonio de Jesus Anjes, Marco Aurélio Alencar, Pedro Caluchi, Elisa Campos, Severino José.


Publicado por Benedita Azevedo em 24/01/2018 às 00h51
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