Haicai, Verso e Prosa

Letras e Sentimentos

Meu Diário
26/07/2020 18h17
Histórias e fotos – capítulo X

 A compra da casa

Na liquidação da loja ao final de 1972, não sobrou nada. O carro, a casa que compramos em 36 parcelas e faltava um ano para terminar o pagamento. Foi tudo pelo ralo. A doença do marido nos tirou tudo. Só não levou a minha determinação de não depender de ninguém e ser sujeito da minha própria história. Perto do apartamento que alugamos após nos desfazermos da casa, iam construir um conjunto residencial para os trabalhadores sindicalizados. Trabalhando no SESC, eu poderia me inscrever.

Após a inscrição aprovada, pagava-se a entrada em 24 meses, durante a construção. Depois haveria o sorteio de localização do imóvel e ajuste das mensalidades. As moradias variavam de tamanho: um quarto, dois quartos pequenos dois quartos maiores e três quartos. Com a minha renda, consegui me inscrever na de dois quartos maiores.

No início de 1974, as coisas não ficaram mais fáceis, mas, consegui um pouco de equilíbrio. Com horários normais de trabalho, as aulas da faculdade eram todas assistidas. Mas, os rendimentos eram poucos. Os mesmos do ano anterior. A matrícula do primário substituiu a do SESC e as aulas das quintas séries o da Educação Integrada. No MOBRAL recebíamos meio salário mínimo. Na Educação Integrada, que comecei a dois de agosto, um salário.

Eu precisava fazer malabarismo para suprir as necessidades primordiais: moradia, alimentação e remédios. Felizmente naquela época, o INPS funcionava. Todo o tratamento do meu marido foi feito no Hospital Santa Isabel, em Blumenau, com os melhores especialistas.

Finalmente, os imóveis estavam quase prontos e a construtora mandou uma carta marcando o dia do sorteio. Assim, se alguém quisesse fazer alguma modificação, aproveitaria a fase de acabamentos. A que nos coube ficava numa pequena elevação e tinha um enorme pé de abacate. Sanados todos os problemas. Recebemos a casa e mudamos. Era bem menor do que a da Rua Almirante Barroso, mas, havia possibilidades de futuros aumentos.

Levei um susto quando recebi o carnê de pagamentos. As prestações mensais quase dobraram o valor das parcelas da entrada. Eu precisava dar um jeito de ganhar mais um pouco. Só que já estava com todos os horários, dos três turnos completos. Perdi algumas noites de sono e resolvi que iria a São Paulo comprar roupas para revender. Comuniquei nas escolas que iria a São Paulo na sexta e voltaria no domingo. Todos os professores queriam novidades. Recebi uma lista de encomendas.

Fui à rodoviária tomar informações das passagens. Tinha um ônibus que saía de Itajaí As dezenove horas e chegava a São Paulo às sete da manhã. Se eu comprasse a passagem de ida e volta teria um desconto. Comprei a volta para as dezenove horas de sábado. Era uma experiência.

Se eu usasse o dinheiro do primário para fazer as compras, poderia repô-lo em uma semana. Ao entregar a encomenda receberia 50% e o resto, no pagamento seguinte, quando eu viajasse outra vez. Viajei dormi a noite toda no ônibus. Ao chegar à rodoviária, fui ao banheiro, escoveis os dentes, arrumei o cabelo e a maquiagem. Tomei café dentro da rodoviária e me informei se havia guarda-bagagem. Fui até lá falei com a funcionária, peguei chave e deixei a mala vazia.

Anotei o itinerário na agenda e saí. Para chegar à 25 de Março, andava-se um pouco pela Rua Santa Ifigênia e chegava. Andei de ponta a ponta, olhando as lojas e preços. Na volta comprei o que pude e voltei à rodoviária. Deixei as compras guardadas e fui almoçar, dentro da rodoviária. Sentei em uma mesa mais reservada e conferi minha relação. Ainda faltava metade das encomendas.

Voltei e comprei quase tudo que faltava e levei para a rodoviária. Agora faltava pouco. Sentei no restaurante, tomei um café e voltei às compras. Às dezessete horas estava tudo pronto. Arrumei na mala e fiquei aguardando o ônibus, às dezenove horas. Cheguei a Itajaí de volta às sete da manhã. Peguei um táxi. Às sete e quinze estava em casa. Ainda encontrei o pessoal dormindo.

O marido, de cara amarrada, achava uma temeridade arriscar o dinheiro do mês! Não dei muita importância, pois isso não mudaria em nada a minha decisão. Tomamos um café gostoso com o pão quentinho comprado na padaria da rodoviária.

Os três estavam curiosos para ver as compras. Todos ganharam presentes. Ao examinar a mercadoria, ele aprovou e disse que eu tivera bom gosto na escolha. Sendo a maioria encomendas, eu estava confiante.

O almoço vinha pronto do restaurante. Foi uma atitude que tomei para que a alimentação não faltasse à hora certa. Pois, às vezes eu me atrasava na hora do almoço. Havia um restaurante perto do conjunto. Um dia, resolvi perguntar se poderiam me vender comida em marmita, para quatro pessoas, incluindo a sobremesa? Ele me olhou sério! Expliquei que não tinha tempo para cozinhar e nem como pagar uma empregada. Depois de saber o que fazia do meu tempo, ele disse que iria tentar me atender.

Pediu que eu comprasse um jogo de marmitas grandes com seis vasilhas. Só depois ele poderia calcular o valor. Fui ao supermercado, fiz a compra e deixei no restaurante. Eles entregaram ao meio dia. Nossa! Comida boa e farta. Uma marmita era para a sobremesa.

Aprovada por todos, passei no restaurante para combinar. Eu resolvi pagar o mês adiantado para garantir que nunca faltasse, à hora certa. O dono sugeriu que eu pagasse 15 dias, para experimentar. Assim fizemos. Foi um sucesso! Comida e sobremesa variadas e saborosas. Para evitar qualquer mal entendido na hora da entrega, se não tivesse ninguém em casa, comprei outro jogo de marmitas. Combinamos um lugar para o entregador deixar a comida e levar a outra marmita vazia. Então, fiz questão de pagar o mês inteiro adiantado.

Voltando às encomendar compradas em São Paulo, após o almoço, separei em sacos plásticos, comprados com tal finalidade e coloquei em uma bolsa. Pronta para a entrega do primário e outra com as encomendas do ginásio. Na hora do recreio, entreguei e recebi o dinheiro. A maioria preferiu dar um cheque com o restante do pagamento. Outros pagaram à vista. Ao final da tarde, voltei para casa com o dinheiro do primário recuperado e cheques que me garantiam viajar ao final do mês, já sem mexer em nada. A partir do mês seguinte, com o lucro das vendas eu pagava a prestação da casa.

Esta foto é da carteira de estudante do terceiro ano do curso de Letras.


Publicado por Benedita Azevedo em 26/07/2020 às 18h17
Copyright © 2020. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
 
26/07/2020 18h14
Histórias e fotos – capítulo IX

Concurso de professores

No segundo semestre de 1972, os alunos do MOBRAL já liam, dezesseis deles iniciaram a Educação Integrada, em agosto. Recebi esses dois certificados. Passei no concurso para professores municipais e no vestibular. A loja que se arrastou de agosto de 1970 até final de 1972, foi liquidada. Eu ficava parte da manhã para ajudar a negociar as dívidas. Morávamos perto. Sempre que aparecia um credor, meu marido marcava para a manhã seguinte, quando eu estivesse na loja. Não dava mais para manter aquela situação. Durante um tempo, vivíamos dos meus proventos e a venda domiciliar de mercadorias que sobraram. Depois negociei com um comerciante, toda a mercadoria que restava por um preço bem baixo. Mas Liquidei aquilo de vez.

Em 1973, doze dos alunos da Educação Integrada receberam o certificado do primário. Oito já estavam matriculados na quinta série do Ensino Fundamental à noite. Meu novo trabalho e a faculdade não me permitiram continuar a dar esperanças de realização do sonho de estudar e progredir.

Assumi meu trabalho no SESC e gostei muito de ensaiar o Grupo Teatral “ARTE-DRAMA” - O coordenador anterior já havia escolhido o texto e estava com o roteiro pronto. Uma adaptação de “O Morro dos Ventos Uivantes”. Moacir, o ator principal, sabia tudo de teatro. Coloquei-o como diretor da peça, pois além do teatro eu tinha de divulgar as atividades do SESC para os comerciários. Isso implicava em ir às lojas, marcar um dia para reuni-los e inscrevê-los nas atividades do Centro de atividades.

Eu preferia ir ao comércio nos dias em que trabalhava das 13 às 19h. Nos outros ensaiava o teatro com Moacir e administrava toda a parte de figurino e locais para as apresentações. As primeiras foram no Centro de Atividades, em Itajaí, onde tínhamos um salão para 50 pessoas. A clientela era formada pelos comerciários e seus familiares. No segundo semestre fizemos apresentações em Florianópolis e outras unidades do SESC-SC.

As aulas de recuperação na oitava série também foram satisfatórias. No primeiro semestre trabalhei a unidade de fonética e classes de palavras. No segundo a programação de oitava série: ninguém consegue aprender orações subordinadas sem conhecer as classes de palavras. Todos foram aprovados. Com avaliações contínuas, eu fazia exercícios de reforço para os que tinham mais dificuldades. No último sábado do mês eu dispensava os que obtivessem notas azuis e trabalhava com as dificuldades dos demais. Todos foram aprovados. Usei com eles a mesma metodologia que usara na Educação Integrada. A interpretação do que liam era fundamental.

Fiz minha inscrição para o “Projeto Rondon”, no diretório acadêmico, na faculdade. Consegui a indicação para prestá-lo durante três meses, no INPS, recebendo meio salário mínimo. Trabalhei como assistente no consultório médico da pediatria.

Em outubro fiz o concurso da prefeitura e fui aprovada. Segundo as informações, os aprovados nas várias áreas, seriam nomeados no início do ano letivo. Era a minha esperança. Gostava muito do trabalho de orientação social. Entretanto, aquele horário estava me prejudicando muito.

As aulas da faculdade começavam às dezenove horas. Três dias da semana eu saia na mesma hora do trabalho. Chegava quase na metade da primeira aula de duas horas. Quando saía às vinte e uma horas, chegava quase ao final da última aula. Pegava o caderno de uma colega para copiar a matéria e deixar em casa dela na passagem para o trabalho, no dia seguinte. As aulas do sábado foram deixadas para trás.

Fiquei reprovada por falta. Eu não poderia continuar no SESC em 1974. As aulas de português, pré requisito de todo o curso, seria no sábado. O que me tranquilizava era a crença de que seria nomeada e conseguiria as aulas das quintas séries, no município.

Em dezembro recebi um memorando solicitando minha presença na prefeitura. Eu tinha de apresentar os documentos para a nomeação.

Eu pegaria uma turma de primeiro ano, pela manhã e quatro turmas de 5ª série a tarde, somando 20 aulas de português.

Receberia um salário mínimo da nomeação do primário. As quintas séries seriam através de contrato de 10 meses, o que me daria o correspondente a mais um salário. As faltas seriam descontadas.

Era bom ter um salário certo, mas, agora eu estaria fora de casa os três turnos. Os filhos com 9 e 10 anos, ficariam com o pai que, após o AVC, em agosto de 1970 recebera meio salário mínimo do INPS por 90 dias e permanecia sem renda.

Esta foto era da carteirinha de estudante, do segundo ano de Letras. 


Publicado por Benedita Azevedo em 26/07/2020 às 18h14
Copyright © 2020. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
 
26/07/2020 18h05
Histórias e fotos – capítulo VIII

Um emprego de verdade

Agora, aprovada em Direito e Letras precisava de um emprego para garantir a mensalidade da faculdade. A prefeitura cancelou as bolsas que oferecia.

Fui falar com a secretária de educação. Contei das aprovações e perguntei qual das duas seria melhor para se arranjar um emprego? Ela disse que se eu fizesse Direito só arranjaria estágio no 4º ano. Mas, se fizesse Letras poderia fazer o concurso que teria para o primário no segundo semestre. Se fosse aprovada já seria nomeada no início de 1974. Poderia também lecionar português nas 5ª séries que seriam criadas no ano seguinte, em todas as escolas municipais. Saí da prefeitura e fui fazer a matrícula.

Ao final da semana fui visitar Aurenir, uma amiga nordestina de Bodocó-PE. Falei a ela que precisava arranjar um emprego para garantir o pagamento da faculdade. Ela perguntou se eu queria pegar algumas aulas de recuperação na 8ª série, aos sábados?

Ela era professora de português. Na escola onde trabalhava formaram uma turma com alunos que não conseguiram o aproveitamento necessário para fazerem o 2º grau.

Perguntei se eu poderia me habilitar só com o vestibular? Ela disse que sim. Desde que fosse acadêmica de letras. Fizemos as contas e não daria para pagar a mensalidade. Ela me pegou pelo braço e saímos pela porta da cozinha, para a outra rua. Fomos falar com Carmem a coordenadora do SESC-Itajaí.

Fui apresentada e falei que precisava de um emprego e se ela não estava precisando de alguém no Centro de Atividades? Ela disse que precisava de uma funcionária para trabalhar no Grupo Recreativo, mas, precisava entender de teatro, pois o rapaz formara o “Grupo Teatral Arte-Drama” e precisou se afastar. Além disso, teria que divulgar as atividades da entidade no comércio.

Rápido eu perguntei se ela deixaria eu fazer uma experiência. Ela arregalou os olhos e disse: Estou gostando do seu jeito. Vamos tentar. Passa lá na segunda feira para conversamos.

Voltamos à casa da minha amiga. Ela entrou no quarto e saiu com uma bolsa cheia de livros: - Aqui estão todos meus livros do curso de Letras. Eu terminei no ano passado. São seus. Aqui tem 3 cadernos de 10 matérias. Com isso já dá para começar. Fiquei emocionada. Voltei para casa com dois trabalhos. Era só organizar o horário. Sem esforço e estudo nada disso aconteceria. Se eu tivesse ficado só reclamando e não fizesse nada, teria pedido ajuda para voltar para o Maranhão derrotada.

Na segunda, fui ao SESC. O horário era móvel. Seis horas de trabalho, sendo: 2ª, 4ª e 6ª das 13 às 19h e 3ª e 5ª das 15 às 21h. Todos os sábados das 8 às 14h. No mês seguinte alternava. Os dias que se trabalhava até às 19, passaria para 21h e o das 21 para 19h.

Como os horários seriam alternados, daria para assistir 50% das aulas, o mínimo para não reprovar por falta. Naquele ano as aulas de inglês seriam aos sábados. Fui conversar com a secretária se poderia deixar de fazer o inglês. Ela disse que na matrícula teria de ser horário cheio, mas, eu poderia faltar, ser reprovada por falta e faria depois.

Esta foto foi para a carteira de identidade que eu perdera, em 1973. Fiz duas e guardei uma. Estava vestida com o guarda pó do primário. À época, pediram que eu tirasse os brincos e o colar.

-

NATUREZA

Cenários da minha infância.

Sol da manhã a brilhar...

O mato molhado de orvalho

Refrescam frutos maduros..

O Sol por traz das palmeiras

das paisagens maranhenses

Às margens do Itapecuru...

Pela manhã, ao sair para a escola

A beleza extasiante de ver

O Sol e a neblina subirem.

Os marrecos a sobrevoarem o rio

Deixavam-me encantada a observá-los

Até sumirem na curva rio acima...

E a euforia ao vê-los retornarem

Em busca de alimento mergulhar aqui e ali.

Os caminhos na floresta...

Onde muitas vezes andei

Em busca de frutas e pássaros,

Ou simplesmente passava

Para acompanhar minha mãe

Em visitas às comadres

Mães dos filhos que

ajudava a trazer ao mundo.

Itajaí, SC, 27.08.72

Benedita Azevedo


Publicado por Benedita Azevedo em 26/07/2020 às 18h05
Copyright © 2020. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
 
26/07/2020 17h40
Histórias e fotos – capítulo VII

 

Resultado do Vestibular

Desde meados de 1970, quando meu marido teve o AVC, comecei a ir com ele para a loja. Consequentemente, com o espírito que tenho não ia ficar só de coadjuvante. Percebendo que ele não era mais aquela pessoa atenta aos mínimos detalhes, fui discretamente assumindo a direção das coisas. Não que eu tivesse planejado, mas foram acontecendo. Desde então, com a necessidade de tempo para cuidar da loja, da família e da minha formação, já prevendo o final insustentável da loja, dormia sempre após a meia noite, uma, às vezes duas da manhã, para está de pé às seis e trinta. Esse hábito adquirido naquela época me acompanha até hoje. Cinco seis horas de sono são suficientes.

Só pude fazer tudo isso pela situação geográfica da minha casa, que, em relação aos locais de trabalho, estudo e colégio dos filhos ficava a dois quarteirões, em direções diferentes.

Chegou o tão esperado dia do resultado do vestibular. Só não estava mais ansiosa, por não ter tempo de pensar no assunto. As responsabilidades eram grandes. Seria no ginásio de esportes, já não me lembro o nome, mas como disse Bashô, isso não é importante e sim o que aconteceu naquele dia.

Saí de casa cedo para receber os resultados. Nunca soubera do trote dado aos calouros pelos veteranos. Os resultados de Direito foram lidos primeiro. À medida que eram anunciados, os aprovados se dirigiam ao centro da quadra. Ali as mulheres tinham as unhas cortadas e os homens a cabeleira tosquiada. Eram 150 vagas, fui classificada em 48º lugar, mas, como minha primeira opção era Letras, poderia descer após a leitura dos classificados em meu curso.

Festejei muito. Mesmo que não fosse classificada em Letras, iria fazer Direito. Pareceu-me muito lenta a leitura após minha classificação. Finalmente os classificados em Letras foram nominados. A leitura era do último para o primeiro. Quando chegou ao trigésimo fiquei apreensiva. Acreditava que seria classificado entre os últimos, o que para mim estava muito bom. Chegou ao vigésimo, e nada. O coração acelerou um pouquinho, já me via fazendo a matrícula em Direito. Décimo lugar... Benedita Silva de Azevedo.

Naquele momento, respirei fundo e desci para receber o trote que seria duplo. Tive as unhas cortadas e tomei um banho de tinta. A alma estava leve e o coração descompassado, mas, cheio de alegria, como nunca estivera antes.

Cheguei a casa e todos ficaram assustados. Tive que explicar que conseguira classificação em dois cursos e era o costume das faculdades dar trotes nos novatos. Além disso, eu teria de andar com o boné azul dos calouros durante todo o ano. Se não o fizesse pagaria multa.

Esta foto é da carteirinha do primeiro ano de letras, da FEPEVI – Fundação de Ensino do polo Geoeducacional do Vale do Itajaí - 1973. Hoje Universidade do Vale do Itajaí – UNIVALI.

Poesia da I Fase

Saudades I

Quantas saudades eu tenho!

Do tempo que longe vai

Da casa cheia de sonhos

Da vivência com meu pai.

Às vezes fico pensando

Quantos sonhos lá ficaram

Daqueles bosques tão lindos

Meus pensamentos voaram.

Andaram longas estradas

Vagaram por este país

Coloquei o sonho em prática

Fui dependente e feliz.

Hoje perdida no tempo

que no passado ficou

só trago muita saudade

da lembrança que restou.

Das lindas flores que havia

Naquelas plantas selvagens,

Brancas, lilás, amarelas,

Em meio a verdes folhagens.

.

Longe a perder de vista

Vislumbrava o coqueiral

Aquela planta nativa

Nascia desde o quintal.

O sabiá logo à tardinha

No seu dobrado saudoso

Enchia-me de alegria

Ai, que tempo venturoso!

Entre a mata e o mar do Anil

Não vejo mais as palmeiras

Moro agora em outro extremo

Destas terras brasileiras.

São Luís, MA, 05.10.65

Editado em 01/05/06

Praia do Anil, 15 de julho de 2020

Benedita Azevedo.


Publicado por Benedita Azevedo em 26/07/2020 às 17h40
Copyright © 2020. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
 
26/07/2020 17h27
Histórias e fotos – capítulo VI

O vestibular e o sonho

1971-1972 dois anos de muita pressão psicológica, um super esforço intelectual, idas e vinda com o marido para o hospital, mudanças de planos, reconstrução de objetivos e a manutenção da família, me levaram a engordar 10 quilos. Tirando as roupas perdidas, não me preocupei com isso. Estava saudável fisicamente.

Ao concluir o Clássico em julho de 1972, foi um peso que me saiu dos ombros. Sem ele eu não conseguiria dar um passo à frente. Após fazer as últimas provas dia 7 de julho, comecei a estudar os conteúdos que poderiam entrar no vestibular.

Não queria me preocupar com matemática, física e química, pois não teria tempo de assimilar os conteúdos. Seria necessário reforçar as matérias da área humanística com peso maior na contagem de pontos. Mesmo assim assisti às aulas do cursinho.

Nesse espaço de tempo aconteceram coisas boas que me surpreenderam. Recebi convites de alguns cursos preparatórios do madureza, para contar aos alunos como eu tinha conseguido fazer os dois ciclos em um ano, fazendo todas as provas dos dois? Eu levava os certificados, os professore conferiam as datas das provas... A única explicação era a dedicação aos estudos e determinação de vence ou vencer. Eu não tinha outra opção.

Tendo feito um curso de Parapsicologia, na última semana de setembro de 1971, divulgado por um dos professores que nos ministraram aulas no salão paroquial, até acreditava que seria uma missão. Mas, a missão mais concreta que eu tinha pela frente era cuidar dos filhos e lhes dar bons exemplos.

Ao final daquele curso fizemos um teste vocacional. Meu resultado, “Literatura e artes em geral” me fez quebrar aquela cisma de fazer Direito. Coloquei-o em segunda opção e Letras em primeira, na inscrição do vestibular.

Continuei as aulas, agora com a matéria da Educação Integrada. Aquele grupo até parecia comigo. Iniciamos em agosto. Os alunos pretendiam terminar em fevereiro, pois se eu passasse no vestibular, eles não queriam outra professora.

Minha responsabilidade ficava maior. Combinamos tentar fazer as matérias do primeiro semestre até a primeira quinzena de novembro. Se conseguíssemos, faríamos o resto até fevereiro. Só não valia eles torcerem para eu não ser aprovada no vestibular!

Meus filhos fariam a primeira comunhão em outubro. Eu precisava providenciar as roupas. O dinheiro estava curto. Eu tinha dois novelos de linha cleia branca em casa. Resolvi fazer o vestido da Jane em crochê. Arte aprendida com minha professora do 3º e 5º anos do primário, no Grupo Escolar Gomes de Sousa, em Itapecuru Mirim, Dona Francisca Rodrigues.

Quando chegava das aulas de Educação integrada, às 21:30 sentava-me para ver televisão e fazia o crochê. Fiz o vestido e as meias. Ficaram lindos. Em um final de semana fiz a roupa do Rogério. Eu não contava com ninguém. Longe da terra natal, da família, lutando para sobreviver dignamente, sem depender de ninguém.

Não permitia que nada negativo se sobrepusesse à minhas atividades. Lição aprendida no livro “O caminho da felicidade” de Humberto Rohden, lido na década de reclusão pós casamento.

Enfim, chegou a semana do vestibular.

Os filhos fizeram a primeira comunhão e já estavam de férias. Saí só com duas canetas, um lápis e uma borracha. A primeira prova era a de português e Literatura, as matérias que mais me dedicara, até por conta das aulas da Educação Integrada, que eu ficava pesquisando nas gramáticas, a maneira mais fácil de passar aos alunos.

Achei que me saí bem. As provas das matérias que eu estudara para o Clássico eu fiz bem. Matemática até consegui fazer alguma coisa. Mesmo as de Química e Física respondi algumas questões básicas, resultado das aulas que assisti como ouvinte no primeiro ano científico, no Colégio São José e nas aulas do cursinho, oferecido pelo Diretório acadêmico.

Aguardemos os resultados!

Esta foto era do crachá da escola. Os professores da Educação Integrada que não eram da Unidade Escolar tinham de se identificar na portaria.


Publicado por Benedita Azevedo em 26/07/2020 às 17h27
Copyright © 2020. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.



Página 3 de 24 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 » [«anterior] [próxima»]

Tela de Claude Monet
Site do Escritor criado por Recanto das Letras