Haicai, Verso e Prosa

Letras e Sentimentos

Meu Diário
01/11/2020 17h01
Histórias e fotos - capítulo XXI

Reaprendendo a viver

O Amilcar faleceu dia 04 de maio de 1980, no dia em que completava 53 anos, faltando três meses para completarmos 18 anos de casados. Com muitos altos e baixos, dez anos após sofrer  um AVC, os filhos crescidos, estudando, o Rogério trabalhando...a casa tomou um aspecto vazio. Mesmo estando acamado há quase dois anos, sentimos muito sua presença.  Faltava alguma coisa. Tínhamos de reestruturar tudo. Reaprender a viver sem ele.

Os filhos se dedicaram aos estudos, teriam o vestibular ao final daquele ano. Na Universidade Federal do Maranhão a concorrência era grande. Além dos maranhenses  muita gente de fora se inscrevia para disputar uma vaga.  Após dois anos com o Amilcar acamado e muitos desafios a superar, o dois não conseguiram aprovação. Para os cursos preferidos por eles só havia uma opção à época, no Estado do Maranhão: UFMA - Universidade Federal do Maranhão.

Matricularam-se em um cursinho. Jane conseguiu uma vaga em Odontologia, aos 17 anos, em Julho de 1981. Rogério continuou no cursinho e dois anos depois mudou de área e cursou Administração de Empresa, a princípio em Belém, depois  na UEMA.

Em julho de 1981, um ano após o falecimento do Amilcar, um grupo de professores do Marista viajou para  fazer um Curso de Atualização em Educação. Começou em Campinas, SP dia 07 de junho  e terminou no Rio de Janeiro, dia 27 do mesmo mês, ministrado pela equipe de professores da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. O grupo nominado de “ V JEMAR – Jornada de Educadores  Maristas”. Foi um divisor de águas em minha vida, o romper de um casulo.  

V JEMAR (Jornada de Educadores Maristas)

Os  professores  eram  divididos por equipes.  Havia uma  hora de  recreação. Cada dia um grupo era responsável. A minha vez era a última.  Após um período sem escrever  quase  nada,  resolvi  homenagear  a  todos numa espécie de cordel em quadras, menos a métrica, pela dificuldade de encaixar os nomes das pessoas presentes.  Ao final, a direção do evento solicitou uma cópia para anexar aos anais da JEMAR. O Irmão Salvador sugeriu que o título fosse modificado para V Gemada, significando a mistura de pessoas de muitos Estados e suas características.

V GEMADA

Uma pequena homenagem

agora quero prestar,

aos educadores que vieram

fazer a V JEMAR.

 

Do extremo Norte ao Sul,

temos gente de todo lugar,

com a grande disposição

dos conhecimentos ampliar.

 

GRACIANO de Belém,

BENEDITA do Maranhão,

temos ELZA e JOÃO BATISTA,

participando em comunhão.

 

Com CLEIDE, do Recife,

veio Alfredo, um vendaval;

da Paraíba, ANTONIETA,

nossa rainha do Carnaval.

 

VANDA veio de Uberaba,

da Bahia, MARA e IACEMA;

de Alagoas, a BARTIRA

viva apesar de pequena.

 

De Goiás, Maria José;

Vila Velha PENHA E MARINA;

do belo Rio de Janeiro;

com amor: SÔNIA e CRISTINA.

 

De São Paulo, a Grande  Metrópole,

temos  MÁRCIA E ALICE;

MARIA HELENA e ELIZA, do Paraná,

encantando-nos com sua meiguice.

 

Quanta gente bacana!

Agora estou a pensar;

veio do Rio Grande do SUL

participar da V JEMAR:

 

SANETE, NEIDA, MARIA HELENA,

NEWTON, GILSON e SILVANA,

também a MARIA EMÍLIA,

Participando com gana.

 

Os trabalhos preciosos

preciso também  resaltar,

das  pessoas que trabalham

concretizando a V JEMAR.

 

Quem já viu pessoas iguais

aos Irmãos LAURINDO E SALVADOR?!

Dois pastores de Deus,

espalhando muito amor.

 

O Irmão CHESTANI nos trouxe

a noção do equilíbrio mental

que, por fim se resumiu

no AMOR o grande “sinal”.

 

A Irmã CARMELITA, confesso,

a  princípio me preocupou...

mas, ao final dos trabalhos,

as dúvidas dissipou.

 

TESCAROLO, quem diria?

Colocou-se ao nosso nível,

e com essa sua técnica

conseguiu do seu trabalho

o rendimento possível.

 

Irmão Ramalho mostrou-nos

a evolução da igreja:

tirando os banlangandãs,

fica a palavra de DEUS,

o essencial que Ele deseja.

 

Pra falar de Champagnat,

mostrando sua filosofia,

teremos o Irmão Laurindo,

pra nossa grande alegria.

 

O AMOR FRATERNO é fundamento.

Por isso é importante ver

o empenho dos Maristas

em tornar-nos conscientes

do que devemos fazer.

 

Voltei muito animada. Aqueles 20 dias comungando com educadores de vários Estados, com visões diversificadas, foi uma iluminação em minha vida. De repente, passei a ver um mundo diferente, cheio de possibilidades. Queria voltar a estudar, fazer um mestrado... Mas, o estudo dos filhos era prioridade. Segui fazendo todos os cursos de atualização ao meu alcance.

 

Rio de Janeiro, 25/06/81

Benedita Silva de Azevedo

 

 

 

 

 

 


Publicado por Benedita Azevedo em 01/11/2020 às 17h01
Copyright © 2020. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
 
23/10/2020 09h40
 Histórias e fotos- capítulo XX

  O sofrimento do marido chega ao fim.

Nossa vida com o Amilcar doente era sempre um sobressalto. Ao sair pela manhã para o colégio, nunca sabíamos o que poderia acontecer. Já não íamos à praia aos domingos. Os filhos eram compreensivos. As condições do pai não mais permitiam. Ao final do bimestre, eles me ajudavam a corrigir a parte objetiva das provas, com o gabarito. Eram momentos de sobressaltos, mas, equilibrados. Foi muito difícil quando tive de fazer um plano funeral. Há muito eu sabia que a doença dele era irreversível. Mas, ainda não tivera coragem para aceitar isso por completo. Aproveitei uma promoção e fiz um plano com carência reduzida.

Em julho de 1980, faria 10 anos que tivera o AVC. Começamos o ano apreensivos. Os filhos no terceiro ano CI (Ensino médio) precisavam ter dedicação maior aos estudos. O pai só piorava. Em março, logo após o início das aulas, teve uma piora acentuada. Comentei com ele que seria necessário ir para o hospital. Trocamos um olhar piedoso e suas lágrimas desceram. Entendi que ele não queria ir. Saí do quarto para me recompor de tanta emoção. Resolvi pedir uma licença de 30 dias nas aulas da noite e contratar a Irmã Esmeralda, enfermeira, que passou a ir todos os dias, pela manhã, fazer os curativos e controlar o soro. Eu ia almoçar e a levava para o colégio a tarde, seu horário de trabalho. Em abril mamãe foi de Itapecuru passar uns dias e acompanhá-lo na parte da tarde, enquanto eu voltava para o Marista com a Irmã.

No feriado da Semana santa, notei que ele estava com uma ronqueira no peito. Chamamos o médico. Ele disse que estava chegando ao final o sofrimento dele. Chamamos o padre para lhe dar a extrema unção no dia 22 de abril. Amilcar respirava com muita dificuldade. Estávamos todos à sua volta: Eu, mamãe, Rogério, Jane e Maria, a cuidadora. Ao término da cerimônia, Rogério foi levar o padre. Os outros se afastaram do quarto. Ao ver Amilcar naquelas condições, não resisti. Deitei ao seu lado. Aconcheguei-me a ele, pus a cabeça em seu ombro e falei: “Meu amor, perdoa-me por tudo. Por não poder ter ficado ao teu lado por mais tempo. Se eu pudesse teria ficado todos os dias à sua cabeceira, para lhe dar o apoio da presença. Mas, eu precisava trabalhar para cuidar dos nossos filhos. Você viu como estão bonitos?! Já terminam o científico este ano (segundo grau). Jane quer fazer Odontologia e Rogério, Farmácia. Vou continuar trabalhando muito para que eles atinjam seus objetivos. Você pode descansar em paz, eu prometo fazer tudo para que eles tenham aquilo que nós dois, juntos, sonhávamos: uma vida digna e honesta. Sei que você sofreu muito. Os ciúmes faziam parte da sua natureza. Queria-me só para você e foi assim até hoje.

Surpreendentemente, Amilcar, que perdera os movimentos das articulações há bastante tempo, pelo efeito da esclerose, levantou o braço esquerdo, afagou meus cabelos e chorou convulsivamente. Eu não entendi como pode ter acontecido. Como arranjou forças para levantar aquele braço inerte?! Fazia tanto tempo que não tinha um carinho e me deixei ficar ali, até que ele se acalmasse e adormecesse. Levantei devagar e fui conversar com a mamãe. Ela chorava. Assistira da porta a cena comovente.

Na manhã seguinte, Amilcar amanheceu melhor. Os olhos brilhavam. Quando entrei com o café, ele sorriu. Mais uma vez me desculpei por não poder ficar mais tempo com ele. Precisava trabalhar. Mas, se precisasse Maria me chamaria eu viria correndo. Prometi chegar mais cedo. Estava de licença à noite. Diante da melhora do genro mamãe voltou para Itapecuru.

Passados doze dias da extrema unção, na véspera do aniversário dele, num sábado, eu trabalhei em casa, corrigindo provas na parte da manhã. Maria avisou que Amilcar não comera o lanche. Fui ao quarto e percebi que ele não conseguia abrir direito os olhos. Seu globo ocular parecia dançar de um lado para o outro na órbita. Preparei um copo de leite e lhe dei às colheradas. Ele tomou com dificuldade. Fiquei ao seu lado segurando-lhe a mão até ele dormir. Verifiquei sua temperatura, estava normal.

Deitei-me a seu lado, na rede. Acordei cedo e lembrei de que era aniversário dele. Mesmo doente, todo ano eu e os filhos cantávamos parabéns. Fiquei a olhá-lo da porta. Continuava sem abrir completamente os olhos. Peguei a mão dele e beijei. A temperatura ainda estava normal. saí e fui corrigir provas enquanto Maria tentava lhe dar o café. Ele não se alimentou. Na hora do almoço não abriu a boca para comer.

A vizinha da frente chamou Jane para mostrar um trabalho escolar que estava fazendo. Rogério lavava o carro na calçada da casa. A Irmã Esmeralda, como aparentemente ele tivesse melhorado, foi passar o final de semana no convento onde morava. Mas, qualquer coisa era só telefonar que ela viria.

Preparei um copo de leite para Amilcar. Ele estava com a respiração ofegante. Coloquei a primeira colherada em sua boca e observei a ponta do nariz muito branca. Coloquei mais uma colherada. Pareceu-me que a área branca do nariz estava aumentando. Pousei o copo na bandeja e segurei a mão dele. Estava um gelo. Verifiquei suas pernas. Geladas. A área branca do nariz aumentava, parecia que o sangue estava fugindo. Compreendi que chegara a hora dele partir. Um tremor percorreu meu corpo. Pensei em chamar os filhos, mas achei melhor não assustá-los. Segurei a mão dele e comecei a rezar em voz alta o Pai Nosso e a Ave-Maria. Quando terminei, ele deu um sorriso e parou de respirar. Senti um vazio angustiante enorme! Já esperávamos por isso, mas o fato consumado é assustador. Coloquei as mãos dele sobre o peito e olhei o relógio. Catorze horas do dia 04 de maio de 1980. Aniversário dele de 53 anos. Quase 10 após o AVC.

Respirei três vezes, profundamente, tentando readquirir o equilíbrio, e fui à frente da casa chamar os filhos. Na volta, abracei-os e falei com cautela:

 - O pai descansou. Já estava sofrendo muito. Os dois saíram correndo para o quarto. Rogério chorou baixinho. Jane perdeu o controle e lamentou:

- Eu pensava que meu pai pudesse melhorar. Eu não queria que ele nos deixasse. - Chorava. Abracei-a e tentei acalmá-la. Levei-os para a sala e falei:

- O pai já estava sofrendo há muito tempo. Deus teve pena dele e lhe deu o descanso. Não significa que esteja morto para sempre. Um dia nos encontraremos outra vez.

Eu queria pedir ajuda ao Bosco, um amigo e vizinho, mas, Rogério fez questão de ir à funerária contratar o velório. Telefonei para a Irmã Esmeralda, que prometera preparar o corpo. Liguei para os amigos mais próximos, para mamãe, para o colégio e para os irmãos de Amilcar. Os de São Paulo e o de Santa Catarina. Pedi aos cunhados que avisassem o pai e as irmãs em Portugal.

Nos dois anos que ficou de cama, só três amigos dele o visitaram. O Sr. Resende, a madrinha do Rogério e o Sr. José Leite e esposa. Talvez eu involuntariamente, tenha me afastado. Com uma jornada muito grande de trabalho, além dos cuidados que precisava ter com o marido, não me sobrava tempo para as relações sociais.

Irmã Esmeralda chegou e preparou o corpo. Vestiu a roupa, calçou os sapatos, amarrou a gravata e ficou aguardando a funerária. Rogério chegou acompanhado de um amigo. O carro funerário colocou os ornamentos na sala de visita para compor o velório.

Os amigos começaram a chegar. O apoio maior veio do pessoal do Marista onde eu trabalhava. D. Vilma, Bosco, Marialda e outros passaram a noite. Mamãe chegou na manhã do dia seguinte, antes do enterro que saiu às dez horas, do dia 5 de maio de 1980.

Bosco, coordenador do Serviço de Orientação Religiosa do Colégio Marista, encarregou-se de organizar a missa de sétimo dia, a ser celebrada na capela do colégio, com a presença dos alunos do segundo científico, colegas de Jane e Rogério. No dia, a capela ficou repleta. Eram quase 200 alunos nas 5 turmas.

Amílcar, depois de tanto sofrimento, merecia aquela missa bonita, celebrada pelo capelão do Marista, Padre Paulo.

Esta foto foi recuperada de um crachá.

 

 

 

 

 

 

 

 


Publicado por Benedita Azevedo em 23/10/2020 às 09h40
Copyright © 2020. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
 
20/10/2020 03h40
Texto recuperado I - Primeiros contatos com o haicai

Meu caro amigo, José Marins!

Permita-me fazer um comentário do qual você é um dos personagens.

Nesta ordem: Antonio Pimentel, Edson, Teruko e José Marins têm uma grande parcela de colaboração na minha formação de haicaísta. Eu os considero meus mestres de haicai. Li uma citação do Savioli, no livro Burajiru, onde afirma que a ignorância é atrevida. Pois bem, na minha atrevida ignorância, ao me apaixonar pela concisa forma do haicai, publiquei o livro “Nas Trilhas do Haicai”, com 280 tercetos. Para mim eram haicai, com todas as sílabas, no formato exigido.

A princípio não conhecia a realidade do haicai no Brasil. Ao ser convidada pelo Antônio Pimentel, em novembro de  2.000, para o lançamento do livro "Na trança do tempo" de Lena Jesus Ponte, tive o primeiro contato com o haicai e os primeiros brasileiros a praticá-lo. Confesso que a parte histórica, a princípio, conquistou a professora de literatura. Além de comprar o livro lançado, ganhei mais dois sobre o assunto. Meu entusiasmo em publicar o livro com uma pequena monografia ao final,  tinha por objetivo trabalhar com meus alunos da rede pública, textos curtos, feito a trova e o haicai; partindo daí para textos mais complexos em prosa e verso.

Nas reuniões de sábado, na Papelaria Ideal, em Niteroi, aprendi  as primeiras regras sobre o haicai com o amigo, Pimentel e a indicação de publicação na página do Haicai Brasileiro, no site do jornal Nippo-Brasil, e a coluna “Pétalas ao Vento”.

Foi ali, nos dez artigos do Edson que aprendi o que é haicai. Comecei a enviar meus haicai, aí sim, já com o kigo. Ele me convidou a participar do Festival do Japão em julho de 2005 e lá conheci o Murata, Douglas e Hazel que me convidaram a participar do Grêmio Ipê. Dia 05 de agosto de 2005, participei pela primeira vez da reunião do grupo. De então até abril de 2007, viajei uma vez por mês a São Paulo, onde participava das oficinas coordenadas pelo Edson, onde os haicais eram avaliados pela  professora Teruko Oda.

Todo este preâmbulo, para contar como conheci o amigo José Marins. Após receber um volume do meu livro “Nas Trilhas do Haicai”, certo dia, me apareceu um e-mail dele falando do livro. Dizia que a minha vivência haicaísta o impressionara, mas, que a maioria dos meus tercetos, não eram haicai. E que poderia me orientar numa nova edição do livro. Disse-lhe que ia pensar no assunto, mas para outros haicais, pois aqueles já estavam publicados e não valeria a pena gastar mais dinheiro com eles. Passou algum tempo e o procurei. Muito ocupado, ele marcou uma data para que eu lhe enviasse o material para um novo livro.

Não lembro ao certo, tenho anotado em algum lugar, mas, me parece que lhe enviei 320 haicais. Ele respondeu o e-mail dizendo que não se faziam livros com tantos poemas. Que o ideal seria selecionar 200 e fazer dois livros com 100 cada um, pois, eu escolhera o formato do seu “Pinha Pinhão”.

Durante a seleção discutimos vários aspectos do haicai. Ele me indicou artigos da Débora, da Rosa e do site www.kakine.com para ler, sugeriu que lesse os haicais da Teruko e que não fosse tão rigorosa com a métrica. Acabamos nos tornando amigos. Selecionamos 170 haicais. Por sugestão dele, dividimos os livros por temas, de acordo com os haicais. Fizemos o “Canto de Sabiá” com 100 e “Praia do Anil” com 70 haicais.

Na minha aprendizagem do haicai clássico, foram meus mestres: primeiro o Edson, através do Nippo-Brasil e do Caqui. Depois a Teruko, no Grêmio Haicai Ipê junto com o Edson. Mais tarde, o Marins deu-me um toque diferente completando o meu entendimento sobre o haicai.  Douglas era a nossa âncora no Grêmio Haicai “Águas de Março”, sempre presente e solícito na orientação de seus membros.

"Na Haikai-l, sou mais uma observadora e aprendo muito. Foi aqui que conheci os artigos do prof. Paulo Franchette e a admiração dos haicaístas pelo seu trabalho e orientação. Leio tudo que é postado.  Somos 150 com a maioria “oculta” como já foi falado. Mas, como diz o provérbio, “o exemplo fala mais alto que as palavras”. Nosso mestre, Paulo, com sua vasta produção de haicais, provocou muitos de nós a seguir-lhe o exemplo. Quantos destes ocultos deixam de publicar seus trabalhos porque não recebem nenhuma palavra de incentivo! - Pelo menos: “que bom que você tentou, continue praticando!”.  Ninguém começou a praticar o haicai sendo o máximo. Cada um teve o seu tempo de aprendizado. Por isso, para quem gosta deste gênero mágico de composição e quer vê-lo parte integrante da literatura brasileira, sem nenhuma restrição, precisa apoiar quem está começado.

Há uma citação dos trovadores, que no momento, é o maior movimento literário brasileiro, que eles fazem questão de divulgar em todos os boletins, que ilustra a minha observação." - “O que você faz pela trova, é tão importante quanto a trova que você faz” (Deixei os dois  últimos parágrafos sem edição). 

Marins, obrigada pelas dicas, tão importantes no meu aprendizado. Obrigada a todos os confrades da Haika-l, obrigada Pimentel, Douglas,  Edson, muito obrigada minha mestra e amiga Teruko.

Praia do Anil, 03/10/2010

Editado em 20/10/2020

Fraterno abraço

Benedita Azevedo


Publicado por Benedita Azevedo em 20/10/2020 às 03h40
Copyright © 2020. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
 
19/10/2020 00h28
Histórias e fotos – capítulo XIX

 Outra mudança

Ao vender a casinha, em 1978, comprei uma Brasília 76, contratei um instrutor e aprendi a dirigir junto com os filhos. A nova casa adquirida no Maranhão Novo passava por adaptações e ficaria pronta em noventa dias. A princípio recusei mudar-nos para uma casa da firma enquanto a nossa ficasse pronta.

Entretanto, após a inundação da casa onde morávamos à Rua Graça Aranha, precisei aceitar. A própria firma fez a mudança. A casa localizava-se a uns 200m da nossa que estava em reparos. Assim pude acompanhar a reforma. O Amilcar já não falava, mas, ainda andava e pelos sorrisos gostou da mudança. O visual era lindo. Da porta da casa que ficava mais ou menos 30m acima da avenida lá em baixo, vislumbrávamos o horizonte em plano inferior, aonde hoje é o Shopping da Ilha, em direção à Av. dos Franceses.

A reforma demorou mais que esperávamos. Quatro meses. A casa era bem espaçosa. Com sala de vizitas, sala de jantar, três quartos, área de serviço e garagem. Amplo quintal e jardim. O sol da manhã incidia direto na frente da casa. Com o calor da minha terra, precisamos plantar árvores com urgência. Foi-nos recomendado algodão bravo. Realmente nos deu boa sombra muito rápido, além das belas flores amarelas.

Enfim, estávamos bem instalados em nossa casa. Aos finais de semana podíamos ir à praia onde Amilcar costumava levar os filhos desde recém-nascidos. Jane fora à Praia do Araçagí com quinze dias de nascida. Saíamos às seis horas da manhã e voltávamos às dez. Quando completou três anos e Rogério quatro, fomos para Santa Catarina onde ficamos dez anos, com rápida passagem por São Paulo.

Agora estávamos de volta há mais de dois anos. Já na terceira mudança de casa. Mas, em nossa casa, com nosso carro para levar Amilcar para passear, ao médico e hospital. Enfim, eu tinha meu trabalho com carga horária completa, nos três turnos, na profissão que escolhi e realizei com meu próprio esforço. Sem dever nada a ninguém. A casa era financiada em 25 anos, mas, com meu trabalho daria para pagar e mantê-la com tranquila simplicidade!

Os filhos estudavam no Marista e iam comigo todos os dias. Em 1979, Rogério, então com dezesseis anos, a convite de sua professora de Análise Clínica começou um estágio remunerado, no próprio colégio. A Jane fez quinze anos e debutou no Lítero Recreativo Português junto com as jovens de sua idade. Era o sonho do Amilcar enquanto pode falar. Mesmo com a doença dele, fiz o possível para que nossos filhos tivessem uma vida normal, dentro das nossas possibilidades, mas, com o carinho e respeito que as condições do pai exigiam.

Minha mãe foi de Itapecuru a São Luís para uma revisão médica. Sempre muito preocupada com meu irmão, Euzébio Filho, sequelado da meningite que tivera aos três meses de idade. Nesses dias ela ensinou a neta a dançar a valsa. Ainda hoje trago em minha única retina a imagem dela, de vestido claro, ensinando os primeiros passos da valsa à neta. Depois rodopiando na sala de nossa casa no Maranhão Novo. Eu nem imaginava que ela soubesse dançar.

Ao se preparar para o baile, eu que conhecia o desejo do pai, de que a filha debutasse no Lítero, peguei-a pela mão e levei até o quarto. Precisavam ver a expressão de júbilo no rosto dele. Arregalou os olhos e abriu um lindo sorriso. Ela se aproximou, abraçou e beijou o pai. Depois ao ver as fotos riu e chorou. Quando eu as guardei, ele piscou várias vezes. Entendi que pretendia ver outra vez. Aos poucos repassei todas bem devagar. A cada foto era um sorriso. No dia seguinte, um domingo, após tomar o café da manhã ele começou a piscar. Queria ver as fotos. Mostrei todas. Às vezes, quando eu trocava de foto ele piscava, piscava, queria ver mais um pouco a anterior. Era um diálogo em gestos que só o amor nos ensina a entender.

Naquelas férias de final de ano, passamos bastante tempo juntos. Foi doloroso ter de sair para trabalhar, na volta às aulas. Maria, a cuidadora, me tranquilizava. Não se preocupe, eu cuido dele direitinho. Qualquer coisa, telefono para a senhora.

No Marista, algumas vezes precisei sair às pressas. Irmã Esmeralda era enfermeira, trabalhava no colégio para pequenos atendimentos às crianças. Duas vezes me acompanhou até à casa. Numa delas o levamos para o hospital. Ele chorou quando soube que teria de ficar internado. Chamei meu filho, para ficar com ele, enquanto eu voltava ao colégio. Revezávamos, eu e os filhos. A Irmã se ofereceu par ir duas manhãs que eles tinham prova. Voltou para casa após uma semana. Estava bem melhor. Quando o colocamos na cama em nosso quarto, ele abriu um sorriso.

Nossa vida com o Amilcar doente era sempre um sobressalto. Ao sair pela manhã para o colégio, nunca sabíamos o que poderia acontecer. Eu fazia de tudo para que os filhos não fossem sacrificados. A casa vivia cheia de amigos deles nos finais de semana. Já não íamos à praia aos domingos. As condições do pai não mais permitiam. Aproveitavam para estudar, eu preparava as aulas da semana, lia trabalhos... ao final do bimestre, eles me ajudavam a corrigir a parte objetiva das provas, com o gabarito. Eram momentos de sobressaltos, mas, equilibrados.

Esta foto foi feita quando mudamos para nossa casa definitiva, no Maranhão Novo, em 1989. Eu com 35 anos, um filho de 16 e uma filha de 15 anos.


Publicado por Benedita Azevedo em 19/10/2020 às 00h28
 
14/10/2020 21h44
Histórias e fotos – capítulo XVIII

A casa inundada

A doença do marido era progressiva. Sequelas da meningite que tivera aos 18 anos e do AVC em 1970, aos 43. Ia perdendo os movimentos a cada dia, já andava com dificuldade. Algumas vezes precisou ser internado com a pressão muito alta. Tínhamos uma cuidadora que lhe ministrava os remédios e as refeições. Nos dias em que eu estava em casa, fazia questão de lhe fazer a higiene pessoal e alimentar. Ele já não falava, mas eu via em seus olhos a alegria de me ter por perto cuidando dele. Um dia, meu filho e Eu o colocamos na cadeira para um banho de chuveiro, ele passou mal. Verificamos depois que era uma espécie de hematoma. O levamos para o hospital onde passou uma semana. Soubemos que era uma escara. Chegou um momento em que já não pode ficar na cadeira de rodas. Perdera o equilíbrio do pescoço e passou a ficar na cama direto.

A vida impunha suas exigências, mas, às vezes me surpreendia com pequenas alegrias. Um dia, sem esperar, recebi no Marista, uma visita inusitada. Minha querida amiga de Itajaí, que foi tal mãe em terras distantes, Dona Onadir Tedeu. Ela chegou à porta da sala de coordenação e bateu palmas. Levantei os olhos e nem acreditei no que via! Com um abraço afetuoso e admiração estampados em seu rosto me dizia da alegria de saber que eu e minha família estávamos bem encaminhados. Contou que estava hospedada no Hotel Vila Rica com os companheiros de excussão. Uma longa viagem em ônibus de luxo lotado. Saíram de Itajaí-SC e iriam até Fortaleza. Disse-me que colocara São Luís no roteiro porque queria muito me ver. Como sabia meu local de trabalho através de correspondência, foi fácil me encontrar.

Quando soube que morávamos perto de onde estava hospedada, ela se propôs a nos fazer uma visita. No dia seguinte, desceu a ladeira da Graça Aranha com dez amigas. A casa era uma porta e duas janelas em estilo colonial, com sala, dois quartos, sala de jantar, cozinha, banheiro e uma pequena área interna.

Ela gostaria de conhecer as frutas da região. Numa noite quente, servimos sucos e sorvetes de sabores variados: bacuri, cupuaçu, graviola, cajá e manga. Na despedida, ela me abraçou e disse que estava feliz com o que eu fizera da minha vida e como cuidava da minha família. Amilcar ainda conseguia conversar e ficou emocionado com a visita. Ela disse que ainda gostaria de me ver outras vezes. Dois anos depois, em nova excussão, me fez uma visita no Marista. Nós já morávamos em outro bairro. Mesmo assim, fez questão de que eu a visitasse, naquela vez, no Hotel Central. Fez questão de lancharmos juntas, eu, ela e quatro amigas da excussão que partiria no dia seguinte cedo.

Ao vender a casinha, em 1978, comprei uma Brasília 76 e aprendi a dirigir Junto com os filhos. Procurei uma casa para comprar financiada. Visitei casas em vários conjuntos,: COHAMA, VINHAIS, COHAFUMA, IPASE e Maranhão Novo. Optei pelo último. O conjunto tinha sido retomado pela construtora que estava reformando as casas. Eu poderia acrescentar a garagem coberta e um quarto na área de serviço. Fechei o negócio, paguei a entrada e a diferença do acréscimo. Em noventa dias receberíamos a casa pronta. Se eu quisesse poderia mudar para uma casa do conjunto enquanto a nossa estivesse em reforma. Para evitar duas mudanças e não pagar multa no contrato de aluguel optei por esperar a nossa ficar pronta.

Um sábado, estávamos todos em casa. Chovia muito forte. Sem que esperássemos uma tromba d’água invadiu a casa. Entrava pelo quintal e saia pela porta da frente. Foi um desespero. A sorte é que o volume maior de água passou direto pelo corredor e saiu na porta da frente.

Entrei em contato com a imobiliária e comuniquei o ocorrido e avisei que diante da situação mudaria imediatamente. Ela concordou. Descobrimos depois que o hotel Vila Rica construído em plano superior ao da casa, encheu a área dos fundos e um funcionário resolveu furar o muro para escoar. Eita!

Esta foto foi recuperada de um crachá.


Publicado por Benedita Azevedo em 14/10/2020 às 21h44
Copyright © 2020. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.



Página 1 de 25 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 » [próxima»]

Tela de Claude Monet
Site do Escritor criado por Recanto das Letras