Haicai, Verso e Prosa

Letras e Sentimentos

Meu Diário
26/07/2020 18h25
Histórias e fotos – capítulo XI

Fui parar no hospital

Durante todo o ano de 1974, viajei para São Paulo, uma vez ao mês para comprar roupas e revender em Itajaí. Com isso mantive as prestações da casa em dia e construí um quarto de 4x4 para área de serviços, uma lavanderia e troquei a cerca de madeira da frente por um muro de tijolos. Fizemos um gramado em toda frente e plantamos roseiras. A Casinha ficou linda.

1975 foi um ano pesado. Meu marido vendo a minha correria misturou suas angústias. A de me ver trabalhando tanto, as sequelas da meningite que tivera aos 18 anos, as do AVC e começou a ficar agressivo, reclamando de tudo...

Caiu numa depressão brava. Precisou ser internado, onde passou sessenta dias. Fazia parte do tratamento, a família visitá-lo duas vezes por semana, um esforço dantesco, para minha rotina de trabalho e estudo. A clínica era em Florianópolis. Íamos uma quarta, outra não e todos os sábados, de ônibus, eu e as crianças. Passávamos uma hora com ele e voltávamos. O domingo ficava apertado para preparar as aulas da semana.

No inicio do ano, consegui transferência para a Escola João Duarte, que ficava ao lado do conjunto. Assim, não pegaria condução. Pude escolher lecionar nas quartas séries. Em reunião com a diretora e a professora da outra 4ª série, sugeri dividir as matérias. Eu daria as aulas de Português e Estudos sociais nas duas turmas e Irene daria as outras matérias. Assim, diminuiríamos a diversidade de assunto na hora de preparar as aulas. A diretora e Irene acharam a ideia boa, mas teriam de pedir autorização na Secretaria de Educação.

D. Onadir Tedeu, achou a ideia boa e deu a autorização. Ao final do Ano, cada uma assinava sua turma. O importante seria o aproveitamento dos alunos. A experiência foi tão boa que passou a ser norma nas escolas que tivessem mais de uma turma de quarta série.

Ao sair do hospital, meu marido resolveu tentar um trabalho em São Paulo, onde tinha três irmãos. Passou lá quatro meses. Naquele período, um dia passei mal na escola. Ao medir a temperatura estava com 40º de febre.

A única professora que tinha carro trabalhava no turno da tarde. A zeladora me pegou pelo braço e saímos andando até o hospital, que ficava a três quilômetros. Eu teria de ficar internada. Pedi que a zeladora avisasse as crianças para dormirem em casa da vizinha. Passado algum tempo a assistente social foi até meu quarto com eles. Os dois se atiraram para mim, desesperados. Falei que estava bem, só precisava fazer alguns exames.

A Assistente social perguntou se tinha algum parente para avisar. Os dois se anteciparam. Não precisamos, nós vamos para a casa da D. Aurenir. Expliquei que era minha amiga que morava ali perto. Os dois despediram-se e saíram. Em pouco tempo, minha amiga chegou...

- Oh, mulher! Como é que você não me avisa?

– Não deu tempo. Vim direto da escola com muita febre. Pensei que tu estavas na escola.

- O médico disse que tens de operar logo. Estás com um cisto enorme no ovário. Mas, segundo ele é uma cirurgia rápida. Será amanhã cedo. Passo aqui quando sair da escola. Agora vou com teus filhos pegar roupas e o material da escola. Queres que avise teu cunhado?

- Não, vamos ver como fico após a cirurgia.

Após 48 h, já operada voltei para casa. Precisava ficar em repouso por 30 dias.

Receberia somente os proventos do primário. Em quinze dias voltei ao médico para fazer uma avaliação e ver se poderia voltar a trabalhar. Fui liberada para trabalhar um só turno. Voltei às quintas séries e mais duas semanas, para o primário.

Diante de tantos problemas comecei a pensar que seria melhor voltar para o Maranhão. Mas, só após terminar a faculdade. Assim voltaria com uma profissão e poderia trabalhar em qualquer lugar. Mas, a vida tinha de continuar.

Amílcar, não aguentou muito tempo em São Paulo. Voltou todo desajustado. Mais uma vez foi internado. Então, em um hospital próximo de casa. Podíamos visitá-lo todos os dias. Foi um período muito difícil. Mesmo assim, Aurenir, minha amiga pernambucana e o marido, donos de uma vidraçaria resolveram fazer um período de experiência de 3 meses e assinaram a carteira dele, quando saiu do hospital. Não deu certo, mas, aquele pequeno período serviu para retomar o INPS que estava sem contribuição desde o fechamento da loja, havia três anos.

O psiquiatra e o neurologista deram um atestado dizendo que ele não tinha condições de trabalhar. Com isso foi encostado pelo INPS, recebendo meio salário mínimo. Mais uma vez resolveu que queria voltar para São Paulo. Lá convenceu os irmãos de que se voltasse para São Luís conseguiria retomar seus negócios. Os irmãos lhe compraram a passagem e ele foi. Mas antes, passou em Itajaí para comunicar que estava voltando para onde nunca deveria ter saído.

Naquele momento, não tive argumentos para detê-lo. Mas, também, não me arriscaria pelo mundo com meus filhos, outra vez, sem nenhuma perspectiva. Uma aventura sem precedentes. Até já pensara nisso, mas teria de terminar o curso de Letras antes.

Continuei o mesmo ritmo de trabalho. Mas, aquela história de pagar uma prestação da casa durante 25 anos me incomodava. Um dia, voltando da Escola municipal João Duarte, ao lado do conjunto vi uma placa de venda, em uma casa de madeira de 14x6, com três quartos, sala de visita, sala de jantar, a cozinha e o banheiro eram de alvenaria. O piso de tábua corrida dava para se espelhar. Olhei tudo e perguntei o preço. Era 14.000,00 para retirar do local, pois a proprietária ia construir outra casa em alvenaria.

Perguntei se tinha que desmanchar a casa e levar o material. Ela disse que não, que havia uma firma especializada para levá-la e deixava pronta para entrar e morar. Fazia a base de alvenaria, a cozinha e o banheiro. Eu teria de comprar um terreno.

Esta foto é igual a da carteira de estudante do ano anterior. Eu tinha uma guardada.


Publicado por Benedita Azevedo em 26/07/2020 às 18h25
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26/07/2020 18h17
Histórias e fotos – capítulo X

 A compra da casa

Na liquidação da loja ao final de 1972, não sobrou nada. O carro, a casa que compramos em 36 parcelas e faltava um ano para terminar o pagamento. Foi tudo pelo ralo. A doença do marido nos tirou tudo. Só não levou a minha determinação de não depender de ninguém e ser sujeito da minha própria história. Perto do apartamento que alugamos após nos desfazermos da casa, iam construir um conjunto residencial para os trabalhadores sindicalizados. Trabalhando no SESC, eu poderia me inscrever.

Após a inscrição aprovada, pagava-se a entrada em 24 meses, durante a construção. Depois haveria o sorteio de localização do imóvel e ajuste das mensalidades. As moradias variavam de tamanho: um quarto, dois quartos pequenos dois quartos maiores e três quartos. Com a minha renda, consegui me inscrever na de dois quartos maiores.

No início de 1974, as coisas não ficaram mais fáceis, mas, consegui um pouco de equilíbrio. Com horários normais de trabalho, as aulas da faculdade eram todas assistidas. Mas, os rendimentos eram poucos. Os mesmos do ano anterior. A matrícula do primário substituiu a do SESC e as aulas das quintas séries o da Educação Integrada. No MOBRAL recebíamos meio salário mínimo. Na Educação Integrada, que comecei a dois de agosto, um salário.

Eu precisava fazer malabarismo para suprir as necessidades primordiais: moradia, alimentação e remédios. Felizmente naquela época, o INPS funcionava. Todo o tratamento do meu marido foi feito no Hospital Santa Isabel, em Blumenau, com os melhores especialistas.

Finalmente, os imóveis estavam quase prontos e a construtora mandou uma carta marcando o dia do sorteio. Assim, se alguém quisesse fazer alguma modificação, aproveitaria a fase de acabamentos. A que nos coube ficava numa pequena elevação e tinha um enorme pé de abacate. Sanados todos os problemas. Recebemos a casa e mudamos. Era bem menor do que a da Rua Almirante Barroso, mas, havia possibilidades de futuros aumentos.

Levei um susto quando recebi o carnê de pagamentos. As prestações mensais quase dobraram o valor das parcelas da entrada. Eu precisava dar um jeito de ganhar mais um pouco. Só que já estava com todos os horários, dos três turnos completos. Perdi algumas noites de sono e resolvi que iria a São Paulo comprar roupas para revender. Comuniquei nas escolas que iria a São Paulo na sexta e voltaria no domingo. Todos os professores queriam novidades. Recebi uma lista de encomendas.

Fui à rodoviária tomar informações das passagens. Tinha um ônibus que saía de Itajaí As dezenove horas e chegava a São Paulo às sete da manhã. Se eu comprasse a passagem de ida e volta teria um desconto. Comprei a volta para as dezenove horas de sábado. Era uma experiência.

Se eu usasse o dinheiro do primário para fazer as compras, poderia repô-lo em uma semana. Ao entregar a encomenda receberia 50% e o resto, no pagamento seguinte, quando eu viajasse outra vez. Viajei dormi a noite toda no ônibus. Ao chegar à rodoviária, fui ao banheiro, escoveis os dentes, arrumei o cabelo e a maquiagem. Tomei café dentro da rodoviária e me informei se havia guarda-bagagem. Fui até lá falei com a funcionária, peguei chave e deixei a mala vazia.

Anotei o itinerário na agenda e saí. Para chegar à 25 de Março, andava-se um pouco pela Rua Santa Ifigênia e chegava. Andei de ponta a ponta, olhando as lojas e preços. Na volta comprei o que pude e voltei à rodoviária. Deixei as compras guardadas e fui almoçar, dentro da rodoviária. Sentei em uma mesa mais reservada e conferi minha relação. Ainda faltava metade das encomendas.

Voltei e comprei quase tudo que faltava e levei para a rodoviária. Agora faltava pouco. Sentei no restaurante, tomei um café e voltei às compras. Às dezessete horas estava tudo pronto. Arrumei na mala e fiquei aguardando o ônibus, às dezenove horas. Cheguei a Itajaí de volta às sete da manhã. Peguei um táxi. Às sete e quinze estava em casa. Ainda encontrei o pessoal dormindo.

O marido, de cara amarrada, achava uma temeridade arriscar o dinheiro do mês! Não dei muita importância, pois isso não mudaria em nada a minha decisão. Tomamos um café gostoso com o pão quentinho comprado na padaria da rodoviária.

Os três estavam curiosos para ver as compras. Todos ganharam presentes. Ao examinar a mercadoria, ele aprovou e disse que eu tivera bom gosto na escolha. Sendo a maioria encomendas, eu estava confiante.

O almoço vinha pronto do restaurante. Foi uma atitude que tomei para que a alimentação não faltasse à hora certa. Pois, às vezes eu me atrasava na hora do almoço. Havia um restaurante perto do conjunto. Um dia, resolvi perguntar se poderiam me vender comida em marmita, para quatro pessoas, incluindo a sobremesa? Ele me olhou sério! Expliquei que não tinha tempo para cozinhar e nem como pagar uma empregada. Depois de saber o que fazia do meu tempo, ele disse que iria tentar me atender.

Pediu que eu comprasse um jogo de marmitas grandes com seis vasilhas. Só depois ele poderia calcular o valor. Fui ao supermercado, fiz a compra e deixei no restaurante. Eles entregaram ao meio dia. Nossa! Comida boa e farta. Uma marmita era para a sobremesa.

Aprovada por todos, passei no restaurante para combinar. Eu resolvi pagar o mês adiantado para garantir que nunca faltasse, à hora certa. O dono sugeriu que eu pagasse 15 dias, para experimentar. Assim fizemos. Foi um sucesso! Comida e sobremesa variadas e saborosas. Para evitar qualquer mal entendido na hora da entrega, se não tivesse ninguém em casa, comprei outro jogo de marmitas. Combinamos um lugar para o entregador deixar a comida e levar a outra marmita vazia. Então, fiz questão de pagar o mês inteiro adiantado.

Voltando às encomendar compradas em São Paulo, após o almoço, separei em sacos plásticos, comprados com tal finalidade e coloquei em uma bolsa. Pronta para a entrega do primário e outra com as encomendas do ginásio. Na hora do recreio, entreguei e recebi o dinheiro. A maioria preferiu dar um cheque com o restante do pagamento. Outros pagaram à vista. Ao final da tarde, voltei para casa com o dinheiro do primário recuperado e cheques que me garantiam viajar ao final do mês, já sem mexer em nada. A partir do mês seguinte, com o lucro das vendas eu pagava a prestação da casa.

Esta foto é da carteira de estudante do terceiro ano do curso de Letras.


Publicado por Benedita Azevedo em 26/07/2020 às 18h17
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26/07/2020 18h14
Histórias e fotos – capítulo IX

Concurso de professores

No segundo semestre de 1972, os alunos do MOBRAL já liam, dezesseis deles iniciaram a Educação Integrada, em agosto. Recebi esses dois certificados. Passei no concurso para professores municipais e no vestibular. A loja que se arrastou de agosto de 1970 até final de 1972, foi liquidada. Eu ficava parte da manhã para ajudar a negociar as dívidas. Morávamos perto. Sempre que aparecia um credor, meu marido marcava para a manhã seguinte, quando eu estivesse na loja. Não dava mais para manter aquela situação. Durante um tempo, vivíamos dos meus proventos e a venda domiciliar de mercadorias que sobraram. Depois negociei com um comerciante, toda a mercadoria que restava por um preço bem baixo. Mas Liquidei aquilo de vez.

Em 1973, doze dos alunos da Educação Integrada receberam o certificado do primário. Oito já estavam matriculados na quinta série do Ensino Fundamental à noite. Meu novo trabalho e a faculdade não me permitiram continuar a dar esperanças de realização do sonho de estudar e progredir.

Assumi meu trabalho no SESC e gostei muito de ensaiar o Grupo Teatral “ARTE-DRAMA” - O coordenador anterior já havia escolhido o texto e estava com o roteiro pronto. Uma adaptação de “O Morro dos Ventos Uivantes”. Moacir, o ator principal, sabia tudo de teatro. Coloquei-o como diretor da peça, pois além do teatro eu tinha de divulgar as atividades do SESC para os comerciários. Isso implicava em ir às lojas, marcar um dia para reuni-los e inscrevê-los nas atividades do Centro de atividades.

Eu preferia ir ao comércio nos dias em que trabalhava das 13 às 19h. Nos outros ensaiava o teatro com Moacir e administrava toda a parte de figurino e locais para as apresentações. As primeiras foram no Centro de Atividades, em Itajaí, onde tínhamos um salão para 50 pessoas. A clientela era formada pelos comerciários e seus familiares. No segundo semestre fizemos apresentações em Florianópolis e outras unidades do SESC-SC.

As aulas de recuperação na oitava série também foram satisfatórias. No primeiro semestre trabalhei a unidade de fonética e classes de palavras. No segundo a programação de oitava série: ninguém consegue aprender orações subordinadas sem conhecer as classes de palavras. Todos foram aprovados. Com avaliações contínuas, eu fazia exercícios de reforço para os que tinham mais dificuldades. No último sábado do mês eu dispensava os que obtivessem notas azuis e trabalhava com as dificuldades dos demais. Todos foram aprovados. Usei com eles a mesma metodologia que usara na Educação Integrada. A interpretação do que liam era fundamental.

Fiz minha inscrição para o “Projeto Rondon”, no diretório acadêmico, na faculdade. Consegui a indicação para prestá-lo durante três meses, no INPS, recebendo meio salário mínimo. Trabalhei como assistente no consultório médico da pediatria.

Em outubro fiz o concurso da prefeitura e fui aprovada. Segundo as informações, os aprovados nas várias áreas, seriam nomeados no início do ano letivo. Era a minha esperança. Gostava muito do trabalho de orientação social. Entretanto, aquele horário estava me prejudicando muito.

As aulas da faculdade começavam às dezenove horas. Três dias da semana eu saia na mesma hora do trabalho. Chegava quase na metade da primeira aula de duas horas. Quando saía às vinte e uma horas, chegava quase ao final da última aula. Pegava o caderno de uma colega para copiar a matéria e deixar em casa dela na passagem para o trabalho, no dia seguinte. As aulas do sábado foram deixadas para trás.

Fiquei reprovada por falta. Eu não poderia continuar no SESC em 1974. As aulas de português, pré requisito de todo o curso, seria no sábado. O que me tranquilizava era a crença de que seria nomeada e conseguiria as aulas das quintas séries, no município.

Em dezembro recebi um memorando solicitando minha presença na prefeitura. Eu tinha de apresentar os documentos para a nomeação.

Eu pegaria uma turma de primeiro ano, pela manhã e quatro turmas de 5ª série a tarde, somando 20 aulas de português.

Receberia um salário mínimo da nomeação do primário. As quintas séries seriam através de contrato de 10 meses, o que me daria o correspondente a mais um salário. As faltas seriam descontadas.

Era bom ter um salário certo, mas, agora eu estaria fora de casa os três turnos. Os filhos com 9 e 10 anos, ficariam com o pai que, após o AVC, em agosto de 1970 recebera meio salário mínimo do INPS por 90 dias e permanecia sem renda.

Esta foto era da carteirinha de estudante, do segundo ano de Letras. 


Publicado por Benedita Azevedo em 26/07/2020 às 18h14
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26/07/2020 18h05
Histórias e fotos – capítulo VIII

Um emprego de verdade

Agora, aprovada em Direito e Letras precisava de um emprego para garantir a mensalidade da faculdade. A prefeitura cancelou as bolsas que oferecia.

Fui falar com a secretária de educação. Contei das aprovações e perguntei qual das duas seria melhor para se arranjar um emprego? Ela disse que se eu fizesse Direito só arranjaria estágio no 4º ano. Mas, se fizesse Letras poderia fazer o concurso que teria para o primário no segundo semestre. Se fosse aprovada já seria nomeada no início de 1974. Poderia também lecionar português nas 5ª séries que seriam criadas no ano seguinte, em todas as escolas municipais. Saí da prefeitura e fui fazer a matrícula.

Ao final da semana fui visitar Aurenir, uma amiga nordestina de Bodocó-PE. Falei a ela que precisava arranjar um emprego para garantir o pagamento da faculdade. Ela perguntou se eu queria pegar algumas aulas de recuperação na 8ª série, aos sábados?

Ela era professora de português. Na escola onde trabalhava formaram uma turma com alunos que não conseguiram o aproveitamento necessário para fazerem o 2º grau.

Perguntei se eu poderia me habilitar só com o vestibular? Ela disse que sim. Desde que fosse acadêmica de letras. Fizemos as contas e não daria para pagar a mensalidade. Ela me pegou pelo braço e saímos pela porta da cozinha, para a outra rua. Fomos falar com Carmem a coordenadora do SESC-Itajaí.

Fui apresentada e falei que precisava de um emprego e se ela não estava precisando de alguém no Centro de Atividades? Ela disse que precisava de uma funcionária para trabalhar no Grupo Recreativo, mas, precisava entender de teatro, pois o rapaz formara o “Grupo Teatral Arte-Drama” e precisou se afastar. Além disso, teria que divulgar as atividades da entidade no comércio.

Rápido eu perguntei se ela deixaria eu fazer uma experiência. Ela arregalou os olhos e disse: Estou gostando do seu jeito. Vamos tentar. Passa lá na segunda feira para conversamos.

Voltamos à casa da minha amiga. Ela entrou no quarto e saiu com uma bolsa cheia de livros: - Aqui estão todos meus livros do curso de Letras. Eu terminei no ano passado. São seus. Aqui tem 3 cadernos de 10 matérias. Com isso já dá para começar. Fiquei emocionada. Voltei para casa com dois trabalhos. Era só organizar o horário. Sem esforço e estudo nada disso aconteceria. Se eu tivesse ficado só reclamando e não fizesse nada, teria pedido ajuda para voltar para o Maranhão derrotada.

Na segunda, fui ao SESC. O horário era móvel. Seis horas de trabalho, sendo: 2ª, 4ª e 6ª das 13 às 19h e 3ª e 5ª das 15 às 21h. Todos os sábados das 8 às 14h. No mês seguinte alternava. Os dias que se trabalhava até às 19, passaria para 21h e o das 21 para 19h.

Como os horários seriam alternados, daria para assistir 50% das aulas, o mínimo para não reprovar por falta. Naquele ano as aulas de inglês seriam aos sábados. Fui conversar com a secretária se poderia deixar de fazer o inglês. Ela disse que na matrícula teria de ser horário cheio, mas, eu poderia faltar, ser reprovada por falta e faria depois.

Esta foto foi para a carteira de identidade que eu perdera, em 1973. Fiz duas e guardei uma. Estava vestida com o guarda pó do primário. À época, pediram que eu tirasse os brincos e o colar.

-

NATUREZA

Cenários da minha infância.

Sol da manhã a brilhar...

O mato molhado de orvalho

Refrescam frutos maduros..

O Sol por traz das palmeiras

das paisagens maranhenses

Às margens do Itapecuru...

Pela manhã, ao sair para a escola

A beleza extasiante de ver

O Sol e a neblina subirem.

Os marrecos a sobrevoarem o rio

Deixavam-me encantada a observá-los

Até sumirem na curva rio acima...

E a euforia ao vê-los retornarem

Em busca de alimento mergulhar aqui e ali.

Os caminhos na floresta...

Onde muitas vezes andei

Em busca de frutas e pássaros,

Ou simplesmente passava

Para acompanhar minha mãe

Em visitas às comadres

Mães dos filhos que

ajudava a trazer ao mundo.

Itajaí, SC, 27.08.72

Benedita Azevedo


Publicado por Benedita Azevedo em 26/07/2020 às 18h05
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26/07/2020 17h40
Histórias e fotos – capítulo VII

 

Resultado do Vestibular

Desde meados de 1970, quando meu marido teve o AVC, comecei a ir com ele para a loja. Consequentemente, com o espírito que tenho não ia ficar só de coadjuvante. Percebendo que ele não era mais aquela pessoa atenta aos mínimos detalhes, fui discretamente assumindo a direção das coisas. Não que eu tivesse planejado, mas foram acontecendo. Desde então, com a necessidade de tempo para cuidar da loja, da família e da minha formação, já prevendo o final insustentável da loja, dormia sempre após a meia noite, uma, às vezes duas da manhã, para está de pé às seis e trinta. Esse hábito adquirido naquela época me acompanha até hoje. Cinco seis horas de sono são suficientes.

Só pude fazer tudo isso pela situação geográfica da minha casa, que, em relação aos locais de trabalho, estudo e colégio dos filhos ficava a dois quarteirões, em direções diferentes.

Chegou o tão esperado dia do resultado do vestibular. Só não estava mais ansiosa, por não ter tempo de pensar no assunto. As responsabilidades eram grandes. Seria no ginásio de esportes, já não me lembro o nome, mas como disse Bashô, isso não é importante e sim o que aconteceu naquele dia.

Saí de casa cedo para receber os resultados. Nunca soubera do trote dado aos calouros pelos veteranos. Os resultados de Direito foram lidos primeiro. À medida que eram anunciados, os aprovados se dirigiam ao centro da quadra. Ali as mulheres tinham as unhas cortadas e os homens a cabeleira tosquiada. Eram 150 vagas, fui classificada em 48º lugar, mas, como minha primeira opção era Letras, poderia descer após a leitura dos classificados em meu curso.

Festejei muito. Mesmo que não fosse classificada em Letras, iria fazer Direito. Pareceu-me muito lenta a leitura após minha classificação. Finalmente os classificados em Letras foram nominados. A leitura era do último para o primeiro. Quando chegou ao trigésimo fiquei apreensiva. Acreditava que seria classificado entre os últimos, o que para mim estava muito bom. Chegou ao vigésimo, e nada. O coração acelerou um pouquinho, já me via fazendo a matrícula em Direito. Décimo lugar... Benedita Silva de Azevedo.

Naquele momento, respirei fundo e desci para receber o trote que seria duplo. Tive as unhas cortadas e tomei um banho de tinta. A alma estava leve e o coração descompassado, mas, cheio de alegria, como nunca estivera antes.

Cheguei a casa e todos ficaram assustados. Tive que explicar que conseguira classificação em dois cursos e era o costume das faculdades dar trotes nos novatos. Além disso, eu teria de andar com o boné azul dos calouros durante todo o ano. Se não o fizesse pagaria multa.

Esta foto é da carteirinha do primeiro ano de letras, da FEPEVI – Fundação de Ensino do polo Geoeducacional do Vale do Itajaí - 1973. Hoje Universidade do Vale do Itajaí – UNIVALI.

Poesia da I Fase

Saudades I

Quantas saudades eu tenho!

Do tempo que longe vai

Da casa cheia de sonhos

Da vivência com meu pai.

Às vezes fico pensando

Quantos sonhos lá ficaram

Daqueles bosques tão lindos

Meus pensamentos voaram.

Andaram longas estradas

Vagaram por este país

Coloquei o sonho em prática

Fui dependente e feliz.

Hoje perdida no tempo

que no passado ficou

só trago muita saudade

da lembrança que restou.

Das lindas flores que havia

Naquelas plantas selvagens,

Brancas, lilás, amarelas,

Em meio a verdes folhagens.

.

Longe a perder de vista

Vislumbrava o coqueiral

Aquela planta nativa

Nascia desde o quintal.

O sabiá logo à tardinha

No seu dobrado saudoso

Enchia-me de alegria

Ai, que tempo venturoso!

Entre a mata e o mar do Anil

Não vejo mais as palmeiras

Moro agora em outro extremo

Destas terras brasileiras.

São Luís, MA, 05.10.65

Editado em 01/05/06

Praia do Anil, 15 de julho de 2020

Benedita Azevedo.


Publicado por Benedita Azevedo em 26/07/2020 às 17h40
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