Haicai, Verso e Prosa

Letras e Sentimentos

Meu Diário
19/08/2020 00h02
Histórias e fotos- capítulo XV

Histórias e fotos – capítulo XV – Voltando para casa

Após receber o dinheiro da casa, paguei todas as pendências. Cuidei das transferências dos filhos. Peguei meu histórico escolar da faculdade. Procurei a transportadora. Consegui levar a mudança como complemento de carga, pagando bem menos que a mudança individual. Comprei as passagens. Fechei as contas no banco. Marquei a viagem para 17 de janeiro de 1977. Ficaríamos hospedados em casa da minha irmã Raimunda, enquanto encontrasse uma casa para comprar. Poderia ter pedido que ela olhasse uma para alugar. Mas, eu queria comprar uma casa simples, para tomar pé da situação sem desperdícios. Depois faria o que fiz em Itajaí. Venderia e compraria perto de onde fosse trabalhar. Foi uma experiência positiva que poderia ser repetida.

A última semana em Itajaí, morando à Rua José Joaquim dos Santos, 428-centro, foi muito tensa. Todas as responsabilidades de uma empreitada daquela sobre meus ombros. A doença do marido, os filhos adolescentes, a organização da mudança, o trabalho para organizar uma vida partindo do zero, outra vez. Agora, pelo menos levava um pequeno capital, fruto do meu trabalho, que daria para comprar uma casinha simples, provisoriamente.

Ao chegar a São Luís, providenciei cópias do currículo, com a ajudo do meu cunhado e levei ao Batista, Marista e ao ITA (Instituto Tecnológico da Aprendizagem). Confirmei a inscrição para o concurso do Estado. Precisava apresentar a documentação. Apresentei todos os cursos de extensão universitária que fiz durante a graduação, oferecidos pelo diretório acadêmico da FEPEVI.

Dia dez de fevereiro fui convocada pelo Batista para um teste. Fui aprovada. Entretanto, na hora de assinar a carteira de trabalho, não concordei com os métodos de controle do professor pelos alunos. O grupo de alunos a quem eu ministraria aulas de recuperação até março, avaliaria minhas aulas em reunião com o diretor, aos sábados. Não concordei. Aqueles alunos que não conseguiram ser aprovados com as aulas do ano inteiro não teriam condições de avaliar minhas aulas. Preferi aguardar outro trabalho.

Saí do Batista e fui ao Marista saber o resultado da avaliação do currículo. Esperei Irmão Jorge, o diretor à época, na Secretaria. Que já chegou me chamando de catarinense. Contei o acontecido no Batista. Ele perguntou quais os professores que assistiram a minha aula de avaliação? Falei o nome. Ele disse que aqueles professores lecionavam também no Marista.

Pediu à secretária o horário de 1977. Disse-me que iria me dar uma oportunidade. Eu daria aulas de português em três quintas séries a tarde e de redação nas cinco oitavas pela manhã. Mas, se eu me saísse bem, poderiam surgir outras vagas. Entreguei a documentação que preparara para o Batista. Estava aliviada. Já era um bom começo, 20 aulas por semana.

Dali fui ao ITA (Instituto Tecnológico de Aprendizagem) de Terezinha Rego. Encontrei na coordenação, Maria José Natal, que fora colega de trabalho, na Casa Xavier, quando eu era balconista. Foi aquela alegria. Ela me apresentou à Professora Terezinha Rego. Consegui aulas de português em duas turmas de secundo grau. Oito aulas por semana pela manhã.

O Irmão da Maria José era dono de uma escola. Ela me deu o endereço e telefonou para ele. Fui lá. Fiquei com duas turmas de português pela manhã, mais oito aulas por semana. Fechado o horário da manhã. Naquele dia, ao sair do Batista, peguei um ônibus no João Paulo, saltei na Praça Deodoro e fui ao Marista. Saí do Marista e fui ao ITA, em frente ao ginásio de Esporte Costa Rodrigues e depois, ao Colégio Ronald de Carvalho na Rua dos Afogados. Agora era só aguardar o resultado do Concurso do Estado.

Comecei a procurar casas. Perto da casa da minha irmã. A sogra dela e os cunhados todos moravam naqueles conjuntos. O dela já era o IV. Demorei um pouco a encontrar. Com o dinheiro que levei de Itajaí, quarenta mil, comprei uma no I conjunto, não germinada. Ela estava soltinha. A última de uma fileira de casas geminadas. Paguei trinta mil a vista. Com o dinheiro que sobrou fiz uma reforma e construí uma sala de jantar de 16m², um quarto de 12m² e uma cozinha.

Foi um alívio quando mudamos. Minha irmã, coitada com a casa toda entulhada com nossas coisas por três meses. A Jane que a princípio não gostara da casa, ficou contente com o resultado da reforma. Escolheu o quarto da frente onde era a cozinha. Rogério ficou com o outro da frente. Foi tirada uma parede e a salinha dobrou de tamanho com o quarto de trás. Como tinha terreno nos fundos fiz meu quarto, a sala de jantar e a cozinha.

Rogério, aos 14 anos fez toda a instalação de luz. A casinha ficou simpática!

Aqui postei o diploma da faculdade, o certificado de segundo grau e diploma do Primário, no Grupo Escolar Gomes de Sousa, assinado por D. Santinha, Anozilda dos Santos Fonseca, que foi minha primeira professora.

..................

 

 

 

 

 

 

 


Publicado por Benedita Azevedo em 19/08/2020 às 00h02
Copyright © 2020. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
 
18/08/2020 21h22
Histórias e fotos- capítulo XIV

Julho de 1976. Ao retornar do Maranhão encontrei o marido e os filhos felizes e com uma surpresa. Amilcar mandara fazer o muro da frente e a calçada ao redor da casa. Ele saiu com os filhos para fazer compras e realizou todos os desejos deles. A Maria José fez bolo e tudo na minha volta.

Contei as novidades sobre a viagem e todos ficaram animados. Prenúncio de um semestre cheio de trabalhos, mas, com objetivos certos. Visitei Dona Onadir Tedéu que também vibrou, principalmente, pela possibilidade do concurso para professores. Lamentou me perder como profissional da educação.

Visitei minha amiga pernambucana e contei que voltaria para o Maranhão ao final da faculdade e que venderia a casa para entregar as chaves quando viajasse. Ela prometeu divulgar nas escolas. Aproveitei o resto das férias para concluir a área de serviço nos fundos da casa que ficou pronta e bonita.

Início do segundo semestre. Volta às aulas do primário e do ginásio. As aulas para o estágio. Organização da formatura. Aprovação da beca e algumas substituições de professores.

Enfim, a reta final da graduação em Letras. Às vezes nem eu acreditava que conseguira. Foram tantas barreiras ultrapassadas. Tantas responsabilidades! Mas sempre com um objetivo a seguir. Tantas noites insones fazendo trabalhos extras para complementar o orçamento. Uma vida de luta cheia de altos e baixos, mas, estava a um passo do ponto pré-estabelecido há seis anos.

O problema da erisipela na perna do Amilcar se agravou. Levei-o para o hospital. O médico disse que era uma doença difícil de debelar. Passou dois dias até a febre passar. Os remédios para essa doença eram antibióticos muito caros. Ele não poderia ficar sozinho. Precisei tirar uma licença de 30 dias para cuidar dele. Não receberia o salário do ginásio.

Telefonei para Ramiro, irmão do Amilcar comunicando que ele estava de volta e muito doente. Ele perguntou se eu estava precisando de alguma coisa. Falei que se ele pudesse ajudar com os remédios do irmão eu agradeceria. Só enquanto eu estivesse de licença sem remuneração no ginásio. Ele disse que telefonaria para os irmãos e me enviaria o salário que não recebi.

Em outubro, a turma de 3º ano de Letras, como era tradição, ofereceu um jantar de despedida aos formandos.

Afinal tudo pronto. A colação de grau aconteceu dia 10 de dezembro. No dia 11 o baile de formatura. Como pretendia estar em São Luís antes do dia 30 de janeiro, tive de correr para conseguir a documentação, o registro do diploma e a carteirinha do MEC.

Dia 04 de janeiro estava tudo pronto. O que algumas pessoas consideravam quase impossível. Deu muito trabalho. Estive em Florianópolis quatro vezes, em duas semanas. Consegui tudo sozinha, sem pistolões.

O meu argumento era que eu precisaria está no Maranhão, em janeiro, com toda documentação para fazer o concurso do Estado e começar a lecionar português nas escolas particulares.

A casa que já estava apalavrada com um comprador não deu certo. Tinha sido avaliada em 100.000,00 e ele ofereceu 45, argumentando que eu não teria tempo de vendê-la por mais.

Não aceitei. Fui à Secretaria de Educação oferecer para o pessoal. Ninguém estava precisando. Fui até o colégio São José. Falei com a Irmã Adelina, a diretora. Contei tudo. Que tinha um concurso a fazer em janeiro. Ela saiu e voltou com a professora Lenir, da quarta série. Tinha sido professora do Rogério.

- Conta para Ela o que acabou de me falar!

- Dona Benedita, é incrível! Eu tinha acabado de dizer à irmã que estou procurando uma casa para deixar de pagar aluguel. Eu posso ver sua casa? – Claro!

- Irmã vamos lá? Eu lhe trago de volta. Só queria a sua opinião. Disse a professora.

Mostrei a casa. As duas nem acreditavam que a casa fosse tão boa! A professora tinha exatamente o valor da avaliação. Mas, teria de fazer a documentação. Como eu ainda devia 10 parcelas do terreno negociamos. Ela me pagaria 95.000,00 e assinaria 10 promissórias do terreno, diretamente ao escritório do loteamento.

Agora sim, poderíamos quitar todas as nossas pendências, contratar a mudança, comprar as passagens e partir de volta à terra natal.

Estas fotos são da missa e colação de grau do curso de Letras, em 10 e 11 /12/1976. Éramos 30 alunos, somente três homens!


Publicado por Benedita Azevedo em 18/08/2020 às 21h22
Copyright © 2020. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
 
01/08/2020 21h51
Histórias e fotos - capítulo XIII

Volta ao Maranhão

Antes das férias fui visitar D. Onadir Tedéu, que se tornara minha conselheira. Falei que ia ao Maranhão ver as possibilidades de trabalho. Pois meu marido voltara e queria que fôssemos todos para São Luís.

A Secretária de Educação deu-me as recomendações necessárias para quem pretendesse conseguir um trabalho no magistério. Ela sugeriu que eu pegasse declarações dos colégios onde lecionei, desde o MOBRAL, o SESC e fizesse um currículo. Argumentei que seria melhor fazer ao final do curso de Letras já com o diploma. Ela disse que não. Seria melhor levar logo. Providenciei toda a documentação, inclusive, todos os certificados de cursos de extensão universitária que comecei a fazer, antes da graduação, aos finais de semana. Eu não perdia um.

Escrevi para minha irmã que mora em São Luís, avisando que passaria duas semanas no Maranhão. Ela marcou com os familiares um encontro em Itapecuru Mirim. Seria um reencontro após nove anos. Na verdade, catorze anos longe da minha gente e do meu querido Rio Itapecuru.

No sábado saímos cedo. Era uma hora de viagem. Na entrada para nossa casa, antes da ponte de tábua, paramos para cumprimentar o primo, Zequinha Matias e a Esposa Maria José, que estavam à porta. O reencontro foi uma grande alegria. Estava tudo diferente. Tanto em São Luís quanto em Itapecuru.

Após os abraços, a choradeira e as notícias de quem não estava presente eu queria nadar no Rio Itapecuru. Era uma saudade tal se fosse uma pessoa. Mamãe quis ir junto. Fomos todos para o Rio. Eu queria atravessá-lo. Mamãe pediu que Francisca me acompanhasse. Consegui chegar do outro lado, mas, bem ofegante. Estava fora de forma.

Andamos uns 100 metros rio acima para voltar com mais tranquilidade. Chegamos bem perto de mamãe. Ela disse que eu me saí bem. Francisca, uma das minhas irmãs, confirmou que eu me cansara um pouquinho na ida, mas na volta estava tranquila.

O almoço feito no fogão a lenha, naquelas panelas de ferro grandes, o cheiro da lenha queimando misturado com o do tempero de mamãe, no frango ao molho pardo e da moqueca de Curimatá, foram se espalhando pela casa e despertando meus sentidos e sentimentos. Realmente as saudades eram grandes.

No domingo fui visitar os parentes da Trizidela. Tio João e Dona Francisca. Depois tia Donana (Ana), que me fez prometer, pelo menos tomar um lanche, com ela antes de viajar. Ao voltar para nossa casa minhas irmãs estavam assando castanhas de caju. Senti o cheiro de longe.

Ficamos lá o final de semana. Nem saímos da Trizidela. Meu cunhado tinha de trabalhar na segunda feira. Voltamos todos no fusquinha branco. Minha irmã com o marido, os três filhos eu e Iracema.

Eu ainda teria uma semana para visitar alguns colégios. Mas, resolvi começar pela Secretaria de Educação. A recepcionista perguntou o que eu estava procurando. Falei que era maranhense de Itapecuru Mirim, casada com o ex dono da Casa Xavier. Que estava terminando o Curso de Letras e pretendia voltar. Queria saber se tinha algum concurso para professores em previsão? Ela me encaminhou para a sala de coordenação. Quando entrei, a senhora me olhou e levantou-se rápido.

- Espera aí, você é a Benedita, irmã da Maria Copia?

- Você é Raimundinha Ferraz?

- Sou Raimunda Bulhões, me chamavam assim porque eu morei com a família Feraz uns tempos.

Então contei a minha história, mostrei os certificados todos. Ela examinou tudo, abraçou-me e disse que eu chegara na hora certa. Estavam fazendo as inscrições para o concurso de 1977. Eu poderia levar os documentos, só precisaria da declaração que eu estava cursando o 4º ano de Letras.

Falei que eu voltaria para Santa Catarina dali a uma semana. Ao concluir o curso em mudaria de vez. Ela disse que eu precisaria estar em São Luís até o final de janeiro.

Aproveitei para pedir informação sobre os colégios particulares. Ela disse que os que pagavam melhor eram: O Marista, o Batista, Dom Bosco e Santa Tereza. Mas, que também tinham muitos colégios onde um professor de português lecionar. Inclusive o Colégio La Roque, de Benedita Lopes, nossa conterrânea e colega de Grupo Escolar Gomes de Sousa, onde ela dava acessória pedagógica.

Saí dali com o coração leve. Era como eu imaginara. Com uma graduação eu sobreviveria com meus filhos de maneira digna, em qualquer lugar.

Eu estava pertinho, fui ao Marista. O porteiro me levou até a secretaria. A senhora que me atendeu, ficou me olhando. - Você me desculpa, mas não é a Benedita Matos da Silva que estudou no Colégio São Luís? - Sou e você, quem é? – Sou a Marinete. Nós estudamos juntas no 5º ano, depois você transferiu-se para a noite.

Mas, você não tinha ido embora para o Sul? – Sim, mas estou de volta e quero trabalhar aqui. - Para fazer o quê? - Dar aulas de Português. - Você fez Letras? - Estou fazendo. Termino este ano e quero voltar. - Você tem de vir depois das férias. Os irmãos estão todos viajando. – Voltarei em Janeiro.

Saí dali com a certeza de que tudo iria dar certo. Não precisaria ir mais a nenhum colégio. Até porque todos estavam de férias. Desci a Avenida Rio Branco. O Colégio São Luís estava fechado. Muito diferente! Em lugar da entrada espaçosa onde os alunos conversavam em grupos, ergueram um prédio estranho.

Fui até a igreja dos Remédios onde tantas vezes rezei e confessei. Saí e andei pela Praça Gonçalves Dias. Olhei a Estação Ferroviária e o mar. Sentei ao pé da estátua do grande poeta e relembrei as aulas de Português do professor Araujo.

Voltei para a casa da minha irmã na COHAB. Agora poderia usar o resto do tempo para visitar os amigos e parentes.

Fiz uma visita aos amigos Santos e Tilma, na Rua de Santana, aos compadres Walter e Vilma Abreu, padrinhos de Rogério, na Rua do Egito e ao Sr. Resende e Dona Micas, na Av. Maglhães de Almeida, padrinhos de Jane. Que se colocaram à disposição caso precisasse de alguma coisa, quando voltasse!

Conheci também a nova residência de Dona Santinha (Anozilda do Santo Fonseca) Minha primeira professora no Grupo Escolar Gomes de Sousa, sogra da minha irmã, Raimunda. Que moravam no mesmo bairro.

Voltamos para Itajaí, ao final daquela semana. Eu e Iracema, uma colega da Escola Municipal João Duarte, que me acompanhou na viagem e todas as visitas, à Secretaria de Educação e ao Marista.

Repeti a mesma foto, apenas mudei um pouquinho a cor.


Publicado por Benedita Azevedo em 01/08/2020 às 21h51
Copyright © 2020. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
 
01/08/2020 21h46
Histórias e fotos – capítulo XII

Mudança de casa (eram tantas prestações)!

Aquela casa de madeira, com um quarto para cada filho, o que eu já queria separar a algum tempo, a menina estava crescendo e precisava de privacidade. Aquela sala, aquele piso e ainda a possibilidade de sair da prestação muito prolongada! Ao entrar em casa fui direto fazer as contas.

Resolvi que não ia ficar atrelada ao pagamento de uma prestação por 25 anos. Fui até a imobiliária e coloquei nossa casinha a venda. No dia seguinte apareceu um casal interessado. Em dois dias deu a resposta. Ia ficar com a casa. O negócio foi fechado. Pedi 30 dias para mudar. Fechei o negócio com a casa de madeira, eu disse que precisava levá-la em 15 dias. A dona disse que eu poderia retirar imediatamente.

A casa de madeira custou dois terços do valor de venda da casa. Pedi ajuda à imobiliária para encontrar um terreno que fosse perto da igreja. Encontramos um loteamento novo. Dei uma entrada e assinei vinte promissórias de 500,00. Mas, precisava de aterro. Procurei alguém que o fizesse. Somente a prefeitura poderia fazê-lo. Não sabia qual a razão. Procurei a D. Onadir, Secretária de Educação e contei a história. Ela foi comigo falar com o prefeito. A Secretaria de Educação funcionava no mesmo prédio da prefeitura, dois andares abaixo.

- Com licença, bom dia! O Senhor lembra-se da professora que fez a recuperação do seu filho quando estudava no Colégio São José?

- Lembro, graças a Deus ele engrenou. Já vai para o ginásio.

- Que bom! Pois ela agora está precisando de um serviço que lhe disseram, somente a prefeitura pode fazer.

- O quê?

Então expliquei a situação. Ele disse que aquele loteamento era da família dele e que o meu tinha sido o primeiro a ser vendido, antes do aterro. Mas, que seria feito, imediatamente. De posse do local aterrado eu ainda teria três semanas para entregar a casa.

Procurei a firma que fazia a mudança. O funcionário prometeu entregá-la em duas semanas, pronta para morar. O transporte poderia ser qualquer dia, durante a madrugada, para não atrapalhar o trânsito.

Eu e as crianças fomos assistir aquela atividade que para nós era um espetáculo à parte: macacos hidráulicos levantaram a casa e colocaram sobre uma prancha com rodas puxada por um trator. Sobre a prancha iam homens que levantavam os fios atravessados na rua, com uma vara em forma de T. Fomos até a Igreja matriz e voltamos para o conjunto.

Início de 1976 com a mudança para a nova casa, recém pintada com tinta óleo azul claro, eu ficava preocupada em deixar os filhos sozinhos enquanto ia para a faculdade. O loteamento era rodeado de casas, mas, o nosso terreno era na segunda rua projetada e era a primeira. Felizmente aquele seria o último ano do Curso de Letras.

Na faculdade, uma colega de turma, sabendo que eu estava morando em uma casa com três quarto, perguntou se eu alugaria um, para sua amiga que chegara da Bahia. Ela foi conversar comigo. Era funcionária pública que ia ficar pouco tempo. De seis meses a um ano. Ela aceitou pagar um salário mínimo pela moradia com alimentação. Assim as crianças não ficariam sozinhas à noite, enquanto eu estivesse na faculdade.

A vida me colocou constantemente à prova de maneira muito dura. Mas, forjada na temperança de saber que só eu seria a responsável pelo meu sucesso ou fracasso, com dois filhos para educar, não perdia tempo com lamentações. Eu resolvia o que tinha para resolver.

Agora, a casa com poucas prestações do terreno para pagar, último ano da faculdade, estava na hora de pensar em voltar. Eu precisaria ir a São Luís verificar se havia possibilidades de trabalho. Se poderia conseguir melhores rendimentos com a graduação em Letras ou se ficaria em Itajaí e faria especialização em uma das áreas: Português, Literatura Brasileira, Literatura Portuguesa ou Linguística. Precisaria economizar o dinheiro das passagens. Iria durante as férias de julho.

Começamos a receber cartas do marido pedindo para voltar. Eu preferia que ele aguardasse lá. Em julho resolveríamos o que fazer. Mas, recebemos uma carta de um conterrâneo dele relatando que estava muito doente. Andando na rua metera o pé em um buraco e machucou a perna, e que, o machucado se transformara em erisipela.

Os portugueses amigos do tempo do comércio conseguiram internação no Hospital Português. Mas que ele chorava muito com saudade dos filhos. Era maio de 1976.

Resolvemos que nesse caso ele deveria voltar logo. Quando chegou teve de ser apoiado por duas pessoas para sair do táxi. Doía tudo. Foi levado para a cama. Abraçou-me e chorou muito. Pediu perdão por nos ter levado de São Luís para uma vida incerta e agora não podia mais recuperar nada.

Consolei-o dizendo que já tínhamos aquela casa espaçosa, que eu já terminaria a faculdade ao final daquele ano e conseguiria um trabalho melhor remunerado. E que eu iria a São Luís em julho, sondar o campo de trabalho. As crianças chegaram da escola e foi aquela alegria. Principalmente da menina. Era uma sexta feira, então teríamos o final de semana para conversar.

Ele contou que se hospedara em um hotel de um conhecido. Que um amigo que acolhemos quando chegou de Portugal intimou-o a levar suas roupas para serem lavadas em casa dele e que passara dois meses internado no Hospital Português.

Perguntei como tinha sobrevivido com meio salário mínimo? Ele contou que ainda tinha dois terrenos no Olho D’água que nem lembrava. O corretor o encontrou na rua e disse para ele passar na imobiliária para legalizar as escrituras. Ele vendeu um terreno. Queria começar um pequeno negócio, mas, adoeceu. Teve de gastar parte do dinheiro, mas, ainda tinha o suficiente para eu ir em julho a São Luís.

Ele queria nos levar de volta para o Maranhão. Lá ele tinha muitos amigos. Eu já estava pensando nisso. Agora estava decidido. Mas, sem depender de ninguém.

Maria José, nossa hóspede, se entendeu bem com meus filhos. Ela era alegre e brincalhona. Em conversa sobre minha viagem ela sugeriu que eu fosse sozinha. Com a chegada do pai, decidimos que seria melhor as crianças ficassem com ele. Eu passaria duas semanas.

Foto recuperada do título de eleitor.


Publicado por Benedita Azevedo em 01/08/2020 às 21h46
Copyright © 2020. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
 
26/07/2020 18h25
Histórias e fotos – capítulo XI

Fui parar no hospital

Durante todo o ano de 1974, viajei para São Paulo, uma vez ao mês para comprar roupas e revender em Itajaí. Com isso mantive as prestações da casa em dia e construí um quarto de 4x4 para área de serviços, uma lavanderia e troquei a cerca de madeira da frente por um muro de tijolos. Fizemos um gramado em toda frente e plantamos roseiras. A Casinha ficou linda.

1975 foi um ano pesado. Meu marido vendo a minha correria misturou suas angústias. A de me ver trabalhando tanto, as sequelas da meningite que tivera aos 18 anos, as do AVC e começou a ficar agressivo, reclamando de tudo...

Caiu numa depressão brava. Precisou ser internado, onde passou sessenta dias. Fazia parte do tratamento, a família visitá-lo duas vezes por semana, um esforço dantesco, para minha rotina de trabalho e estudo. A clínica era em Florianópolis. Íamos uma quarta, outra não e todos os sábados, de ônibus, eu e as crianças. Passávamos uma hora com ele e voltávamos. O domingo ficava apertado para preparar as aulas da semana.

No inicio do ano, consegui transferência para a Escola João Duarte, que ficava ao lado do conjunto. Assim, não pegaria condução. Pude escolher lecionar nas quartas séries. Em reunião com a diretora e a professora da outra 4ª série, sugeri dividir as matérias. Eu daria as aulas de Português e Estudos sociais nas duas turmas e Irene daria as outras matérias. Assim, diminuiríamos a diversidade de assunto na hora de preparar as aulas. A diretora e Irene acharam a ideia boa, mas teriam de pedir autorização na Secretaria de Educação.

D. Onadir Tedeu, achou a ideia boa e deu a autorização. Ao final do Ano, cada uma assinava sua turma. O importante seria o aproveitamento dos alunos. A experiência foi tão boa que passou a ser norma nas escolas que tivessem mais de uma turma de quarta série.

Ao sair do hospital, meu marido resolveu tentar um trabalho em São Paulo, onde tinha três irmãos. Passou lá quatro meses. Naquele período, um dia passei mal na escola. Ao medir a temperatura estava com 40º de febre.

A única professora que tinha carro trabalhava no turno da tarde. A zeladora me pegou pelo braço e saímos andando até o hospital, que ficava a três quilômetros. Eu teria de ficar internada. Pedi que a zeladora avisasse as crianças para dormirem em casa da vizinha. Passado algum tempo a assistente social foi até meu quarto com eles. Os dois se atiraram para mim, desesperados. Falei que estava bem, só precisava fazer alguns exames.

A Assistente social perguntou se tinha algum parente para avisar. Os dois se anteciparam. Não precisamos, nós vamos para a casa da D. Aurenir. Expliquei que era minha amiga que morava ali perto. Os dois despediram-se e saíram. Em pouco tempo, minha amiga chegou...

- Oh, mulher! Como é que você não me avisa?

– Não deu tempo. Vim direto da escola com muita febre. Pensei que tu estavas na escola.

- O médico disse que tens de operar logo. Estás com um cisto enorme no ovário. Mas, segundo ele é uma cirurgia rápida. Será amanhã cedo. Passo aqui quando sair da escola. Agora vou com teus filhos pegar roupas e o material da escola. Queres que avise teu cunhado?

- Não, vamos ver como fico após a cirurgia.

Após 48 h, já operada voltei para casa. Precisava ficar em repouso por 30 dias.

Receberia somente os proventos do primário. Em quinze dias voltei ao médico para fazer uma avaliação e ver se poderia voltar a trabalhar. Fui liberada para trabalhar um só turno. Voltei às quintas séries e mais duas semanas, para o primário.

Diante de tantos problemas comecei a pensar que seria melhor voltar para o Maranhão. Mas, só após terminar a faculdade. Assim voltaria com uma profissão e poderia trabalhar em qualquer lugar. Mas, a vida tinha de continuar.

Amílcar, não aguentou muito tempo em São Paulo. Voltou todo desajustado. Mais uma vez foi internado. Então, em um hospital próximo de casa. Podíamos visitá-lo todos os dias. Foi um período muito difícil. Mesmo assim, Aurenir, minha amiga pernambucana e o marido, donos de uma vidraçaria resolveram fazer um período de experiência de 3 meses e assinaram a carteira dele, quando saiu do hospital. Não deu certo, mas, aquele pequeno período serviu para retomar o INPS que estava sem contribuição desde o fechamento da loja, havia três anos.

O psiquiatra e o neurologista deram um atestado dizendo que ele não tinha condições de trabalhar. Com isso foi encostado pelo INPS, recebendo meio salário mínimo. Mais uma vez resolveu que queria voltar para São Paulo. Lá convenceu os irmãos de que se voltasse para São Luís conseguiria retomar seus negócios. Os irmãos lhe compraram a passagem e ele foi. Mas antes, passou em Itajaí para comunicar que estava voltando para onde nunca deveria ter saído.

Naquele momento, não tive argumentos para detê-lo. Mas, também, não me arriscaria pelo mundo com meus filhos, outra vez, sem nenhuma perspectiva. Uma aventura sem precedentes. Até já pensara nisso, mas teria de terminar o curso de Letras antes.

Continuei o mesmo ritmo de trabalho. Mas, aquela história de pagar uma prestação da casa durante 25 anos me incomodava. Um dia, voltando da Escola municipal João Duarte, ao lado do conjunto vi uma placa de venda, em uma casa de madeira de 14x6, com três quartos, sala de visita, sala de jantar, a cozinha e o banheiro eram de alvenaria. O piso de tábua corrida dava para se espelhar. Olhei tudo e perguntei o preço. Era 14.000,00 para retirar do local, pois a proprietária ia construir outra casa em alvenaria.

Perguntei se tinha que desmanchar a casa e levar o material. Ela disse que não, que havia uma firma especializada para levá-la e deixava pronta para entrar e morar. Fazia a base de alvenaria, a cozinha e o banheiro. Eu teria de comprar um terreno.

Esta foto é igual a da carteira de estudante do ano anterior. Eu tinha uma guardada.


Publicado por Benedita Azevedo em 26/07/2020 às 18h25
Copyright © 2020. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.



Página 2 de 24 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 » [«anterior] [próxima»]

Tela de Claude Monet
Site do Escritor criado por Recanto das Letras