Haicai, Verso e Prosa

Letras e Sentimentos

Meu Diário
01/08/2020 21h51
Histórias e fotos - capítulo XIII

Volta ao Maranhão

Antes das férias fui visitar D. Onadir Tedéu, que se tornara minha conselheira. Falei que ia ao Maranhão ver as possibilidades de trabalho. Pois meu marido voltara e queria que fôssemos todos para São Luís.

A Secretária de Educação deu-me as recomendações necessárias para quem pretendesse conseguir um trabalho no magistério. Ela sugeriu que eu pegasse declarações dos colégios onde lecionei, desde o MOBRAL, o SESC e fizesse um currículo. Argumentei que seria melhor fazer ao final do curso de Letras já com o diploma. Ela disse que não. Seria melhor levar logo. Providenciei toda a documentação, inclusive, todos os certificados de cursos de extensão universitária que comecei a fazer, antes da graduação, aos finais de semana. Eu não perdia um.

Escrevi para minha irmã que mora em São Luís, avisando que passaria duas semanas no Maranhão. Ela marcou com os familiares um encontro em Itapecuru Mirim. Seria um reencontro após nove anos. Na verdade, catorze anos longe da minha gente e do meu querido Rio Itapecuru.

No sábado saímos cedo. Era uma hora de viagem. Na entrada para nossa casa, antes da ponte de tábua, paramos para cumprimentar o primo, Zequinha Matias e a Esposa Maria José, que estavam à porta. O reencontro foi uma grande alegria. Estava tudo diferente. Tanto em São Luís quanto em Itapecuru.

Após os abraços, a choradeira e as notícias de quem não estava presente eu queria nadar no Rio Itapecuru. Era uma saudade tal se fosse uma pessoa. Mamãe quis ir junto. Fomos todos para o Rio. Eu queria atravessá-lo. Mamãe pediu que Francisca me acompanhasse. Consegui chegar do outro lado, mas, bem ofegante. Estava fora de forma.

Andamos uns 100 metros rio acima para voltar com mais tranquilidade. Chegamos bem perto de mamãe. Ela disse que eu me saí bem. Francisca, uma das minhas irmãs, confirmou que eu me cansara um pouquinho na ida, mas na volta estava tranquila.

O almoço feito no fogão a lenha, naquelas panelas de ferro grandes, o cheiro da lenha queimando misturado com o do tempero de mamãe, no frango ao molho pardo e da moqueca de Curimatá, foram se espalhando pela casa e despertando meus sentidos e sentimentos. Realmente as saudades eram grandes.

No domingo fui visitar os parentes da Trizidela. Tio João e Dona Francisca. Depois tia Donana (Ana), que me fez prometer, pelo menos tomar um lanche, com ela antes de viajar. Ao voltar para nossa casa minhas irmãs estavam assando castanhas de caju. Senti o cheiro de longe.

Ficamos lá o final de semana. Nem saímos da Trizidela. Meu cunhado tinha de trabalhar na segunda feira. Voltamos todos no fusquinha branco. Minha irmã com o marido, os três filhos eu e Iracema.

Eu ainda teria uma semana para visitar alguns colégios. Mas, resolvi começar pela Secretaria de Educação. A recepcionista perguntou o que eu estava procurando. Falei que era maranhense de Itapecuru Mirim, casada com o ex dono da Casa Xavier. Que estava terminando o Curso de Letras e pretendia voltar. Queria saber se tinha algum concurso para professores em previsão? Ela me encaminhou para a sala de coordenação. Quando entrei, a senhora me olhou e levantou-se rápido.

- Espera aí, você é a Benedita, irmã da Maria Copia?

- Você é Raimundinha Ferraz?

- Sou Raimunda Bulhões, me chamavam assim porque eu morei com a família Feraz uns tempos.

Então contei a minha história, mostrei os certificados todos. Ela examinou tudo, abraçou-me e disse que eu chegara na hora certa. Estavam fazendo as inscrições para o concurso de 1977. Eu poderia levar os documentos, só precisaria da declaração que eu estava cursando o 4º ano de Letras.

Falei que eu voltaria para Santa Catarina dali a uma semana. Ao concluir o curso em mudaria de vez. Ela disse que eu precisaria estar em São Luís até o final de janeiro.

Aproveitei para pedir informação sobre os colégios particulares. Ela disse que os que pagavam melhor eram: O Marista, o Batista, Dom Bosco e Santa Tereza. Mas, que também tinham muitos colégios onde um professor de português lecionar. Inclusive o Colégio La Roque, de Benedita Lopes, nossa conterrânea e colega de Grupo Escolar Gomes de Sousa, onde ela dava acessória pedagógica.

Saí dali com o coração leve. Era como eu imaginara. Com uma graduação eu sobreviveria com meus filhos de maneira digna, em qualquer lugar.

Eu estava pertinho, fui ao Marista. O porteiro me levou até a secretaria. A senhora que me atendeu, ficou me olhando. - Você me desculpa, mas não é a Benedita Matos da Silva que estudou no Colégio São Luís? - Sou e você, quem é? – Sou a Marinete. Nós estudamos juntas no 5º ano, depois você transferiu-se para a noite.

Mas, você não tinha ido embora para o Sul? – Sim, mas estou de volta e quero trabalhar aqui. - Para fazer o quê? - Dar aulas de Português. - Você fez Letras? - Estou fazendo. Termino este ano e quero voltar. - Você tem de vir depois das férias. Os irmãos estão todos viajando. – Voltarei em Janeiro.

Saí dali com a certeza de que tudo iria dar certo. Não precisaria ir mais a nenhum colégio. Até porque todos estavam de férias. Desci a Avenida Rio Branco. O Colégio São Luís estava fechado. Muito diferente! Em lugar da entrada espaçosa onde os alunos conversavam em grupos, ergueram um prédio estranho.

Fui até a igreja dos Remédios onde tantas vezes rezei e confessei. Saí e andei pela Praça Gonçalves Dias. Olhei a Estação Ferroviária e o mar. Sentei ao pé da estátua do grande poeta e relembrei as aulas de Português do professor Araujo.

Voltei para a casa da minha irmã na COHAB. Agora poderia usar o resto do tempo para visitar os amigos e parentes.

Fiz uma visita aos amigos Santos e Tilma, na Rua de Santana, aos compadres Walter e Vilma Abreu, padrinhos de Rogério, na Rua do Egito e ao Sr. Resende e Dona Micas, na Av. Maglhães de Almeida, padrinhos de Jane. Que se colocaram à disposição caso precisasse de alguma coisa, quando voltasse!

Conheci também a nova residência de Dona Santinha (Anozilda do Santo Fonseca) Minha primeira professora no Grupo Escolar Gomes de Sousa, sogra da minha irmã, Raimunda. Que moravam no mesmo bairro.

Voltamos para Itajaí, ao final daquela semana. Eu e Iracema, uma colega da Escola Municipal João Duarte, que me acompanhou na viagem e todas as visitas, à Secretaria de Educação e ao Marista.

Repeti a mesma foto, apenas mudei um pouquinho a cor.


Publicado por Benedita Azevedo em 01/08/2020 às 21h51
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01/08/2020 21h46
Histórias e fotos – capítulo XII

Mudança de casa (eram tantas prestações)!

Aquela casa de madeira, com um quarto para cada filho, o que eu já queria separar a algum tempo, a menina estava crescendo e precisava de privacidade. Aquela sala, aquele piso e ainda a possibilidade de sair da prestação muito prolongada! Ao entrar em casa fui direto fazer as contas.

Resolvi que não ia ficar atrelada ao pagamento de uma prestação por 25 anos. Fui até a imobiliária e coloquei nossa casinha a venda. No dia seguinte apareceu um casal interessado. Em dois dias deu a resposta. Ia ficar com a casa. O negócio foi fechado. Pedi 30 dias para mudar. Fechei o negócio com a casa de madeira, eu disse que precisava levá-la em 15 dias. A dona disse que eu poderia retirar imediatamente.

A casa de madeira custou dois terços do valor de venda da casa. Pedi ajuda à imobiliária para encontrar um terreno que fosse perto da igreja. Encontramos um loteamento novo. Dei uma entrada e assinei vinte promissórias de 500,00. Mas, precisava de aterro. Procurei alguém que o fizesse. Somente a prefeitura poderia fazê-lo. Não sabia qual a razão. Procurei a D. Onadir, Secretária de Educação e contei a história. Ela foi comigo falar com o prefeito. A Secretaria de Educação funcionava no mesmo prédio da prefeitura, dois andares abaixo.

- Com licença, bom dia! O Senhor lembra-se da professora que fez a recuperação do seu filho quando estudava no Colégio São José?

- Lembro, graças a Deus ele engrenou. Já vai para o ginásio.

- Que bom! Pois ela agora está precisando de um serviço que lhe disseram, somente a prefeitura pode fazer.

- O quê?

Então expliquei a situação. Ele disse que aquele loteamento era da família dele e que o meu tinha sido o primeiro a ser vendido, antes do aterro. Mas, que seria feito, imediatamente. De posse do local aterrado eu ainda teria três semanas para entregar a casa.

Procurei a firma que fazia a mudança. O funcionário prometeu entregá-la em duas semanas, pronta para morar. O transporte poderia ser qualquer dia, durante a madrugada, para não atrapalhar o trânsito.

Eu e as crianças fomos assistir aquela atividade que para nós era um espetáculo à parte: macacos hidráulicos levantaram a casa e colocaram sobre uma prancha com rodas puxada por um trator. Sobre a prancha iam homens que levantavam os fios atravessados na rua, com uma vara em forma de T. Fomos até a Igreja matriz e voltamos para o conjunto.

Início de 1976 com a mudança para a nova casa, recém pintada com tinta óleo azul claro, eu ficava preocupada em deixar os filhos sozinhos enquanto ia para a faculdade. O loteamento era rodeado de casas, mas, o nosso terreno era na segunda rua projetada e era a primeira. Felizmente aquele seria o último ano do Curso de Letras.

Na faculdade, uma colega de turma, sabendo que eu estava morando em uma casa com três quarto, perguntou se eu alugaria um, para sua amiga que chegara da Bahia. Ela foi conversar comigo. Era funcionária pública que ia ficar pouco tempo. De seis meses a um ano. Ela aceitou pagar um salário mínimo pela moradia com alimentação. Assim as crianças não ficariam sozinhas à noite, enquanto eu estivesse na faculdade.

A vida me colocou constantemente à prova de maneira muito dura. Mas, forjada na temperança de saber que só eu seria a responsável pelo meu sucesso ou fracasso, com dois filhos para educar, não perdia tempo com lamentações. Eu resolvia o que tinha para resolver.

Agora, a casa com poucas prestações do terreno para pagar, último ano da faculdade, estava na hora de pensar em voltar. Eu precisaria ir a São Luís verificar se havia possibilidades de trabalho. Se poderia conseguir melhores rendimentos com a graduação em Letras ou se ficaria em Itajaí e faria especialização em uma das áreas: Português, Literatura Brasileira, Literatura Portuguesa ou Linguística. Precisaria economizar o dinheiro das passagens. Iria durante as férias de julho.

Começamos a receber cartas do marido pedindo para voltar. Eu preferia que ele aguardasse lá. Em julho resolveríamos o que fazer. Mas, recebemos uma carta de um conterrâneo dele relatando que estava muito doente. Andando na rua metera o pé em um buraco e machucou a perna, e que, o machucado se transformara em erisipela.

Os portugueses amigos do tempo do comércio conseguiram internação no Hospital Português. Mas que ele chorava muito com saudade dos filhos. Era maio de 1976.

Resolvemos que nesse caso ele deveria voltar logo. Quando chegou teve de ser apoiado por duas pessoas para sair do táxi. Doía tudo. Foi levado para a cama. Abraçou-me e chorou muito. Pediu perdão por nos ter levado de São Luís para uma vida incerta e agora não podia mais recuperar nada.

Consolei-o dizendo que já tínhamos aquela casa espaçosa, que eu já terminaria a faculdade ao final daquele ano e conseguiria um trabalho melhor remunerado. E que eu iria a São Luís em julho, sondar o campo de trabalho. As crianças chegaram da escola e foi aquela alegria. Principalmente da menina. Era uma sexta feira, então teríamos o final de semana para conversar.

Ele contou que se hospedara em um hotel de um conhecido. Que um amigo que acolhemos quando chegou de Portugal intimou-o a levar suas roupas para serem lavadas em casa dele e que passara dois meses internado no Hospital Português.

Perguntei como tinha sobrevivido com meio salário mínimo? Ele contou que ainda tinha dois terrenos no Olho D’água que nem lembrava. O corretor o encontrou na rua e disse para ele passar na imobiliária para legalizar as escrituras. Ele vendeu um terreno. Queria começar um pequeno negócio, mas, adoeceu. Teve de gastar parte do dinheiro, mas, ainda tinha o suficiente para eu ir em julho a São Luís.

Ele queria nos levar de volta para o Maranhão. Lá ele tinha muitos amigos. Eu já estava pensando nisso. Agora estava decidido. Mas, sem depender de ninguém.

Maria José, nossa hóspede, se entendeu bem com meus filhos. Ela era alegre e brincalhona. Em conversa sobre minha viagem ela sugeriu que eu fosse sozinha. Com a chegada do pai, decidimos que seria melhor as crianças ficassem com ele. Eu passaria duas semanas.

Foto recuperada do título de eleitor.


Publicado por Benedita Azevedo em 01/08/2020 às 21h46
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26/07/2020 18h25
Histórias e fotos – capítulo XI

Fui parar no hospital

Durante todo o ano de 1974, viajei para São Paulo, uma vez ao mês para comprar roupas e revender em Itajaí. Com isso mantive as prestações da casa em dia e construí um quarto de 4x4 para área de serviços, uma lavanderia e troquei a cerca de madeira da frente por um muro de tijolos. Fizemos um gramado em toda frente e plantamos roseiras. A Casinha ficou linda.

1975 foi um ano pesado. Meu marido vendo a minha correria misturou suas angústias. A de me ver trabalhando tanto, as sequelas da meningite que tivera aos 18 anos, as do AVC e começou a ficar agressivo, reclamando de tudo...

Caiu numa depressão brava. Precisou ser internado, onde passou sessenta dias. Fazia parte do tratamento, a família visitá-lo duas vezes por semana, um esforço dantesco, para minha rotina de trabalho e estudo. A clínica era em Florianópolis. Íamos uma quarta, outra não e todos os sábados, de ônibus, eu e as crianças. Passávamos uma hora com ele e voltávamos. O domingo ficava apertado para preparar as aulas da semana.

No inicio do ano, consegui transferência para a Escola João Duarte, que ficava ao lado do conjunto. Assim, não pegaria condução. Pude escolher lecionar nas quartas séries. Em reunião com a diretora e a professora da outra 4ª série, sugeri dividir as matérias. Eu daria as aulas de Português e Estudos sociais nas duas turmas e Irene daria as outras matérias. Assim, diminuiríamos a diversidade de assunto na hora de preparar as aulas. A diretora e Irene acharam a ideia boa, mas teriam de pedir autorização na Secretaria de Educação.

D. Onadir Tedeu, achou a ideia boa e deu a autorização. Ao final do Ano, cada uma assinava sua turma. O importante seria o aproveitamento dos alunos. A experiência foi tão boa que passou a ser norma nas escolas que tivessem mais de uma turma de quarta série.

Ao sair do hospital, meu marido resolveu tentar um trabalho em São Paulo, onde tinha três irmãos. Passou lá quatro meses. Naquele período, um dia passei mal na escola. Ao medir a temperatura estava com 40º de febre.

A única professora que tinha carro trabalhava no turno da tarde. A zeladora me pegou pelo braço e saímos andando até o hospital, que ficava a três quilômetros. Eu teria de ficar internada. Pedi que a zeladora avisasse as crianças para dormirem em casa da vizinha. Passado algum tempo a assistente social foi até meu quarto com eles. Os dois se atiraram para mim, desesperados. Falei que estava bem, só precisava fazer alguns exames.

A Assistente social perguntou se tinha algum parente para avisar. Os dois se anteciparam. Não precisamos, nós vamos para a casa da D. Aurenir. Expliquei que era minha amiga que morava ali perto. Os dois despediram-se e saíram. Em pouco tempo, minha amiga chegou...

- Oh, mulher! Como é que você não me avisa?

– Não deu tempo. Vim direto da escola com muita febre. Pensei que tu estavas na escola.

- O médico disse que tens de operar logo. Estás com um cisto enorme no ovário. Mas, segundo ele é uma cirurgia rápida. Será amanhã cedo. Passo aqui quando sair da escola. Agora vou com teus filhos pegar roupas e o material da escola. Queres que avise teu cunhado?

- Não, vamos ver como fico após a cirurgia.

Após 48 h, já operada voltei para casa. Precisava ficar em repouso por 30 dias.

Receberia somente os proventos do primário. Em quinze dias voltei ao médico para fazer uma avaliação e ver se poderia voltar a trabalhar. Fui liberada para trabalhar um só turno. Voltei às quintas séries e mais duas semanas, para o primário.

Diante de tantos problemas comecei a pensar que seria melhor voltar para o Maranhão. Mas, só após terminar a faculdade. Assim voltaria com uma profissão e poderia trabalhar em qualquer lugar. Mas, a vida tinha de continuar.

Amílcar, não aguentou muito tempo em São Paulo. Voltou todo desajustado. Mais uma vez foi internado. Então, em um hospital próximo de casa. Podíamos visitá-lo todos os dias. Foi um período muito difícil. Mesmo assim, Aurenir, minha amiga pernambucana e o marido, donos de uma vidraçaria resolveram fazer um período de experiência de 3 meses e assinaram a carteira dele, quando saiu do hospital. Não deu certo, mas, aquele pequeno período serviu para retomar o INPS que estava sem contribuição desde o fechamento da loja, havia três anos.

O psiquiatra e o neurologista deram um atestado dizendo que ele não tinha condições de trabalhar. Com isso foi encostado pelo INPS, recebendo meio salário mínimo. Mais uma vez resolveu que queria voltar para São Paulo. Lá convenceu os irmãos de que se voltasse para São Luís conseguiria retomar seus negócios. Os irmãos lhe compraram a passagem e ele foi. Mas antes, passou em Itajaí para comunicar que estava voltando para onde nunca deveria ter saído.

Naquele momento, não tive argumentos para detê-lo. Mas, também, não me arriscaria pelo mundo com meus filhos, outra vez, sem nenhuma perspectiva. Uma aventura sem precedentes. Até já pensara nisso, mas teria de terminar o curso de Letras antes.

Continuei o mesmo ritmo de trabalho. Mas, aquela história de pagar uma prestação da casa durante 25 anos me incomodava. Um dia, voltando da Escola municipal João Duarte, ao lado do conjunto vi uma placa de venda, em uma casa de madeira de 14x6, com três quartos, sala de visita, sala de jantar, a cozinha e o banheiro eram de alvenaria. O piso de tábua corrida dava para se espelhar. Olhei tudo e perguntei o preço. Era 14.000,00 para retirar do local, pois a proprietária ia construir outra casa em alvenaria.

Perguntei se tinha que desmanchar a casa e levar o material. Ela disse que não, que havia uma firma especializada para levá-la e deixava pronta para entrar e morar. Fazia a base de alvenaria, a cozinha e o banheiro. Eu teria de comprar um terreno.

Esta foto é igual a da carteira de estudante do ano anterior. Eu tinha uma guardada.


Publicado por Benedita Azevedo em 26/07/2020 às 18h25
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26/07/2020 18h17
Histórias e fotos – capítulo X

 A compra da casa

Na liquidação da loja ao final de 1972, não sobrou nada. O carro, a casa que compramos em 36 parcelas e faltava um ano para terminar o pagamento. Foi tudo pelo ralo. A doença do marido nos tirou tudo. Só não levou a minha determinação de não depender de ninguém e ser sujeito da minha própria história. Perto do apartamento que alugamos após nos desfazermos da casa, iam construir um conjunto residencial para os trabalhadores sindicalizados. Trabalhando no SESC, eu poderia me inscrever.

Após a inscrição aprovada, pagava-se a entrada em 24 meses, durante a construção. Depois haveria o sorteio de localização do imóvel e ajuste das mensalidades. As moradias variavam de tamanho: um quarto, dois quartos pequenos dois quartos maiores e três quartos. Com a minha renda, consegui me inscrever na de dois quartos maiores.

No início de 1974, as coisas não ficaram mais fáceis, mas, consegui um pouco de equilíbrio. Com horários normais de trabalho, as aulas da faculdade eram todas assistidas. Mas, os rendimentos eram poucos. Os mesmos do ano anterior. A matrícula do primário substituiu a do SESC e as aulas das quintas séries o da Educação Integrada. No MOBRAL recebíamos meio salário mínimo. Na Educação Integrada, que comecei a dois de agosto, um salário.

Eu precisava fazer malabarismo para suprir as necessidades primordiais: moradia, alimentação e remédios. Felizmente naquela época, o INPS funcionava. Todo o tratamento do meu marido foi feito no Hospital Santa Isabel, em Blumenau, com os melhores especialistas.

Finalmente, os imóveis estavam quase prontos e a construtora mandou uma carta marcando o dia do sorteio. Assim, se alguém quisesse fazer alguma modificação, aproveitaria a fase de acabamentos. A que nos coube ficava numa pequena elevação e tinha um enorme pé de abacate. Sanados todos os problemas. Recebemos a casa e mudamos. Era bem menor do que a da Rua Almirante Barroso, mas, havia possibilidades de futuros aumentos.

Levei um susto quando recebi o carnê de pagamentos. As prestações mensais quase dobraram o valor das parcelas da entrada. Eu precisava dar um jeito de ganhar mais um pouco. Só que já estava com todos os horários, dos três turnos completos. Perdi algumas noites de sono e resolvi que iria a São Paulo comprar roupas para revender. Comuniquei nas escolas que iria a São Paulo na sexta e voltaria no domingo. Todos os professores queriam novidades. Recebi uma lista de encomendas.

Fui à rodoviária tomar informações das passagens. Tinha um ônibus que saía de Itajaí As dezenove horas e chegava a São Paulo às sete da manhã. Se eu comprasse a passagem de ida e volta teria um desconto. Comprei a volta para as dezenove horas de sábado. Era uma experiência.

Se eu usasse o dinheiro do primário para fazer as compras, poderia repô-lo em uma semana. Ao entregar a encomenda receberia 50% e o resto, no pagamento seguinte, quando eu viajasse outra vez. Viajei dormi a noite toda no ônibus. Ao chegar à rodoviária, fui ao banheiro, escoveis os dentes, arrumei o cabelo e a maquiagem. Tomei café dentro da rodoviária e me informei se havia guarda-bagagem. Fui até lá falei com a funcionária, peguei chave e deixei a mala vazia.

Anotei o itinerário na agenda e saí. Para chegar à 25 de Março, andava-se um pouco pela Rua Santa Ifigênia e chegava. Andei de ponta a ponta, olhando as lojas e preços. Na volta comprei o que pude e voltei à rodoviária. Deixei as compras guardadas e fui almoçar, dentro da rodoviária. Sentei em uma mesa mais reservada e conferi minha relação. Ainda faltava metade das encomendas.

Voltei e comprei quase tudo que faltava e levei para a rodoviária. Agora faltava pouco. Sentei no restaurante, tomei um café e voltei às compras. Às dezessete horas estava tudo pronto. Arrumei na mala e fiquei aguardando o ônibus, às dezenove horas. Cheguei a Itajaí de volta às sete da manhã. Peguei um táxi. Às sete e quinze estava em casa. Ainda encontrei o pessoal dormindo.

O marido, de cara amarrada, achava uma temeridade arriscar o dinheiro do mês! Não dei muita importância, pois isso não mudaria em nada a minha decisão. Tomamos um café gostoso com o pão quentinho comprado na padaria da rodoviária.

Os três estavam curiosos para ver as compras. Todos ganharam presentes. Ao examinar a mercadoria, ele aprovou e disse que eu tivera bom gosto na escolha. Sendo a maioria encomendas, eu estava confiante.

O almoço vinha pronto do restaurante. Foi uma atitude que tomei para que a alimentação não faltasse à hora certa. Pois, às vezes eu me atrasava na hora do almoço. Havia um restaurante perto do conjunto. Um dia, resolvi perguntar se poderiam me vender comida em marmita, para quatro pessoas, incluindo a sobremesa? Ele me olhou sério! Expliquei que não tinha tempo para cozinhar e nem como pagar uma empregada. Depois de saber o que fazia do meu tempo, ele disse que iria tentar me atender.

Pediu que eu comprasse um jogo de marmitas grandes com seis vasilhas. Só depois ele poderia calcular o valor. Fui ao supermercado, fiz a compra e deixei no restaurante. Eles entregaram ao meio dia. Nossa! Comida boa e farta. Uma marmita era para a sobremesa.

Aprovada por todos, passei no restaurante para combinar. Eu resolvi pagar o mês adiantado para garantir que nunca faltasse, à hora certa. O dono sugeriu que eu pagasse 15 dias, para experimentar. Assim fizemos. Foi um sucesso! Comida e sobremesa variadas e saborosas. Para evitar qualquer mal entendido na hora da entrega, se não tivesse ninguém em casa, comprei outro jogo de marmitas. Combinamos um lugar para o entregador deixar a comida e levar a outra marmita vazia. Então, fiz questão de pagar o mês inteiro adiantado.

Voltando às encomendar compradas em São Paulo, após o almoço, separei em sacos plásticos, comprados com tal finalidade e coloquei em uma bolsa. Pronta para a entrega do primário e outra com as encomendas do ginásio. Na hora do recreio, entreguei e recebi o dinheiro. A maioria preferiu dar um cheque com o restante do pagamento. Outros pagaram à vista. Ao final da tarde, voltei para casa com o dinheiro do primário recuperado e cheques que me garantiam viajar ao final do mês, já sem mexer em nada. A partir do mês seguinte, com o lucro das vendas eu pagava a prestação da casa.

Esta foto é da carteira de estudante do terceiro ano do curso de Letras.


Publicado por Benedita Azevedo em 26/07/2020 às 18h17
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26/07/2020 18h14
Histórias e fotos – capítulo IX

Concurso de professores

No segundo semestre de 1972, os alunos do MOBRAL já liam, dezesseis deles iniciaram a Educação Integrada, em agosto. Recebi esses dois certificados. Passei no concurso para professores municipais e no vestibular. A loja que se arrastou de agosto de 1970 até final de 1972, foi liquidada. Eu ficava parte da manhã para ajudar a negociar as dívidas. Morávamos perto. Sempre que aparecia um credor, meu marido marcava para a manhã seguinte, quando eu estivesse na loja. Não dava mais para manter aquela situação. Durante um tempo, vivíamos dos meus proventos e a venda domiciliar de mercadorias que sobraram. Depois negociei com um comerciante, toda a mercadoria que restava por um preço bem baixo. Mas Liquidei aquilo de vez.

Em 1973, doze dos alunos da Educação Integrada receberam o certificado do primário. Oito já estavam matriculados na quinta série do Ensino Fundamental à noite. Meu novo trabalho e a faculdade não me permitiram continuar a dar esperanças de realização do sonho de estudar e progredir.

Assumi meu trabalho no SESC e gostei muito de ensaiar o Grupo Teatral “ARTE-DRAMA” - O coordenador anterior já havia escolhido o texto e estava com o roteiro pronto. Uma adaptação de “O Morro dos Ventos Uivantes”. Moacir, o ator principal, sabia tudo de teatro. Coloquei-o como diretor da peça, pois além do teatro eu tinha de divulgar as atividades do SESC para os comerciários. Isso implicava em ir às lojas, marcar um dia para reuni-los e inscrevê-los nas atividades do Centro de atividades.

Eu preferia ir ao comércio nos dias em que trabalhava das 13 às 19h. Nos outros ensaiava o teatro com Moacir e administrava toda a parte de figurino e locais para as apresentações. As primeiras foram no Centro de Atividades, em Itajaí, onde tínhamos um salão para 50 pessoas. A clientela era formada pelos comerciários e seus familiares. No segundo semestre fizemos apresentações em Florianópolis e outras unidades do SESC-SC.

As aulas de recuperação na oitava série também foram satisfatórias. No primeiro semestre trabalhei a unidade de fonética e classes de palavras. No segundo a programação de oitava série: ninguém consegue aprender orações subordinadas sem conhecer as classes de palavras. Todos foram aprovados. Com avaliações contínuas, eu fazia exercícios de reforço para os que tinham mais dificuldades. No último sábado do mês eu dispensava os que obtivessem notas azuis e trabalhava com as dificuldades dos demais. Todos foram aprovados. Usei com eles a mesma metodologia que usara na Educação Integrada. A interpretação do que liam era fundamental.

Fiz minha inscrição para o “Projeto Rondon”, no diretório acadêmico, na faculdade. Consegui a indicação para prestá-lo durante três meses, no INPS, recebendo meio salário mínimo. Trabalhei como assistente no consultório médico da pediatria.

Em outubro fiz o concurso da prefeitura e fui aprovada. Segundo as informações, os aprovados nas várias áreas, seriam nomeados no início do ano letivo. Era a minha esperança. Gostava muito do trabalho de orientação social. Entretanto, aquele horário estava me prejudicando muito.

As aulas da faculdade começavam às dezenove horas. Três dias da semana eu saia na mesma hora do trabalho. Chegava quase na metade da primeira aula de duas horas. Quando saía às vinte e uma horas, chegava quase ao final da última aula. Pegava o caderno de uma colega para copiar a matéria e deixar em casa dela na passagem para o trabalho, no dia seguinte. As aulas do sábado foram deixadas para trás.

Fiquei reprovada por falta. Eu não poderia continuar no SESC em 1974. As aulas de português, pré requisito de todo o curso, seria no sábado. O que me tranquilizava era a crença de que seria nomeada e conseguiria as aulas das quintas séries, no município.

Em dezembro recebi um memorando solicitando minha presença na prefeitura. Eu tinha de apresentar os documentos para a nomeação.

Eu pegaria uma turma de primeiro ano, pela manhã e quatro turmas de 5ª série a tarde, somando 20 aulas de português.

Receberia um salário mínimo da nomeação do primário. As quintas séries seriam através de contrato de 10 meses, o que me daria o correspondente a mais um salário. As faltas seriam descontadas.

Era bom ter um salário certo, mas, agora eu estaria fora de casa os três turnos. Os filhos com 9 e 10 anos, ficariam com o pai que, após o AVC, em agosto de 1970 recebera meio salário mínimo do INPS por 90 dias e permanecia sem renda.

Esta foto era da carteirinha de estudante, do segundo ano de Letras. 


Publicado por Benedita Azevedo em 26/07/2020 às 18h14
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