Haicai, Verso e Prosa

Letras e Sentimentos

Meu Diário
26/07/2020 17h27
Histórias e fotos – capítulo VI

O vestibular e o sonho

1971-1972 dois anos de muita pressão psicológica, um super esforço intelectual, idas e vinda com o marido para o hospital, mudanças de planos, reconstrução de objetivos e a manutenção da família, me levaram a engordar 10 quilos. Tirando as roupas perdidas, não me preocupei com isso. Estava saudável fisicamente.

Ao concluir o Clássico em julho de 1972, foi um peso que me saiu dos ombros. Sem ele eu não conseguiria dar um passo à frente. Após fazer as últimas provas dia 7 de julho, comecei a estudar os conteúdos que poderiam entrar no vestibular.

Não queria me preocupar com matemática, física e química, pois não teria tempo de assimilar os conteúdos. Seria necessário reforçar as matérias da área humanística com peso maior na contagem de pontos. Mesmo assim assisti às aulas do cursinho.

Nesse espaço de tempo aconteceram coisas boas que me surpreenderam. Recebi convites de alguns cursos preparatórios do madureza, para contar aos alunos como eu tinha conseguido fazer os dois ciclos em um ano, fazendo todas as provas dos dois? Eu levava os certificados, os professore conferiam as datas das provas... A única explicação era a dedicação aos estudos e determinação de vence ou vencer. Eu não tinha outra opção.

Tendo feito um curso de Parapsicologia, na última semana de setembro de 1971, divulgado por um dos professores que nos ministraram aulas no salão paroquial, até acreditava que seria uma missão. Mas, a missão mais concreta que eu tinha pela frente era cuidar dos filhos e lhes dar bons exemplos.

Ao final daquele curso fizemos um teste vocacional. Meu resultado, “Literatura e artes em geral” me fez quebrar aquela cisma de fazer Direito. Coloquei-o em segunda opção e Letras em primeira, na inscrição do vestibular.

Continuei as aulas, agora com a matéria da Educação Integrada. Aquele grupo até parecia comigo. Iniciamos em agosto. Os alunos pretendiam terminar em fevereiro, pois se eu passasse no vestibular, eles não queriam outra professora.

Minha responsabilidade ficava maior. Combinamos tentar fazer as matérias do primeiro semestre até a primeira quinzena de novembro. Se conseguíssemos, faríamos o resto até fevereiro. Só não valia eles torcerem para eu não ser aprovada no vestibular!

Meus filhos fariam a primeira comunhão em outubro. Eu precisava providenciar as roupas. O dinheiro estava curto. Eu tinha dois novelos de linha cleia branca em casa. Resolvi fazer o vestido da Jane em crochê. Arte aprendida com minha professora do 3º e 5º anos do primário, no Grupo Escolar Gomes de Sousa, em Itapecuru Mirim, Dona Francisca Rodrigues.

Quando chegava das aulas de Educação integrada, às 21:30 sentava-me para ver televisão e fazia o crochê. Fiz o vestido e as meias. Ficaram lindos. Em um final de semana fiz a roupa do Rogério. Eu não contava com ninguém. Longe da terra natal, da família, lutando para sobreviver dignamente, sem depender de ninguém.

Não permitia que nada negativo se sobrepusesse à minhas atividades. Lição aprendida no livro “O caminho da felicidade” de Humberto Rohden, lido na década de reclusão pós casamento.

Enfim, chegou a semana do vestibular.

Os filhos fizeram a primeira comunhão e já estavam de férias. Saí só com duas canetas, um lápis e uma borracha. A primeira prova era a de português e Literatura, as matérias que mais me dedicara, até por conta das aulas da Educação Integrada, que eu ficava pesquisando nas gramáticas, a maneira mais fácil de passar aos alunos.

Achei que me saí bem. As provas das matérias que eu estudara para o Clássico eu fiz bem. Matemática até consegui fazer alguma coisa. Mesmo as de Química e Física respondi algumas questões básicas, resultado das aulas que assisti como ouvinte no primeiro ano científico, no Colégio São José e nas aulas do cursinho, oferecido pelo Diretório acadêmico.

Aguardemos os resultados!

Esta foto era do crachá da escola. Os professores da Educação Integrada que não eram da Unidade Escolar tinham de se identificar na portaria.


Publicado por Benedita Azevedo em 26/07/2020 às 17h27
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26/07/2020 17h08
Histórias e fotos – capítulo V

Início do magistério no MOBRAL.

Com a reforma do ensino e implantação da Lei 5.692, de 1971, com o objetivo de profissionalizar o Ensino médio dando um caráter de finalização. de tal modo que os alunos começassem a trabalhar, se não quisessem fazer um curso superior. Sendo assim, mudou a nomenclatura. Agora tínhamos o Primeiro grau, abrangendo o estudo da primeira a oitava série e Segundo Grau, as três séries do ensino médio, substituindo o Científico e o Clássico.

Agora, além de Espanhol e Filosofia, eu teria de fazer provas de matemática, química, Biologia e OSPB. A próxima oportunidade de realização de provas seria em fevereiro de 1972. Eu fiquei sabendo da mudança 13 dias antes. Mesmo assim, fiz as provas no Conjunto Educacional Governador Celso Ramos, em Joinville-SC.

Entretanto, alunos que tinham começado o Clássico, como eu, e só faltavam até duas matérias entraram na justiça pelo direito de fazerem só essas matérias. Enquanto o resultado não saia continuei estudando Filosofia e Espanhol e fiz as provas em julho em Blumenau. Mas, os resultados só poderiam ser publicados após a decisão da justiça.

Em setembro saiu o resultado. Recebi o certificado e as notas do Clássico. Filosofia e Espanhol constavam como feitas no Colégio Normal Pedro II em Blumenau e OSPB no Conjunto Educacional Governador Celso Ramos. Então, na verdade, em Joinville só passei em OSPB. Bendita a ideia que tive de fazer Filosofia e Espanhol em Blumenau.

Completei todas as matérias com 55% de aproveitamento em espanhol, 65% em filosofia e 84% em OSPB. Fui aprovada nas primeiras provas do 1º ciclo em julho de 1971 e Fechava as do 2º ciclo em julho de 1972. (5 anos em 1). Parei de estudar na 2ª série do ginásio. Agora estava apta a prestar o vestibular.

Morávamos a duas quadras da faculdade (FEPEVI – Fundação de Ensino do Polo Geoeducacional do Vale do Itajaí, hoje, UNIVALE -Universidade do Vale do Itajaí) que funcionava no C.E. Nilton Kucker , à Rua Silva. Fui pedir informações sobre o vestibular de 1973. A secretária informou que estavam organizando um cursinho pré-vestibular a partir de setembro. Perguntei se tinham os programas do vestibular para Letras e Direito? Informaram que a partir daquele ano de acordo com a 5.692, o vestibular seria unificado. Peguei uma cópia para começar a estudar e fiz logo minha inscrição para o preparatório que começaria em outubro. Eram 50 vagas para Letras e 150 para Direito.

Conseguimos acertar tudo para começar as aulas do MOBRAL dia 02 de abril, com 22 alunos bem interessados. Quando começou o frio no mês de maio alguns foram desistindo. Fiz visitas, conversei, mas alguns não voltaram. Chegavam cansados do trabalho e com o frio não queriam sair de casa. O grupo que permaneceu queria mais. No final de junho estavam alfabetizados. Fez uma carta pedindo que eu continuasse as aulas. Queria fazer a Educação Integrada. Queria concluir o primário e começar o ginásio, o mais breve possível. Souberam que só poderiam começar em 1973. Até mostraram os livros da Educação Integrada e leram alguns textos.

Olhem só, um grupo de alunos parecidos comigo. Senti que meu dever naquela hora era facilitar a resolução desse problema. Propus fazer uma avaliação com eles. Se as notas tivessem 70% de aproveitamento eu iria conversar com a Secretária de Educação.

Os 16 que permaneciam no curso estavam alfabetizados. A maioria teve aproveitamento acima de 70%. O problema era que a Educação Integrada só começaria em março. Se ficassem parados poderiam perder o estímulo. Levei a carta e as provas para a Secretaria de Educação. A coordenadora mostrou tudo à Secretária de Educação. Elas me pediram um tempinho para analisar a situação. Nossa! Então teria uma possibilidade!

Em julho teríamos as férias escolares. Mas, antes soubemos o resultado. Havia uma vaga para a Educação Integrada. Uma professora desistira por falta de alunos. Só não poderia mudar o nome dela àquela altura. Os alunos queriam que eu desse as aulas. Se eu concordasse ela já havia aceitado a proposta da coordenação. Concordei . As aulas passariam a ser em uma escola municipal, onde funcionava a turma que fora fechada.

Eu estava vivendo com eles a mesma realidade. Queríamos recuperar o tempo perdido. Recomeçamos as aulas em agosto. Criei o meu próprio método. Os alunos eram todos adultos. Mostraram que tinham facilidade de aprender. E o mais importante: Queriam aprender! Seguimos a programação. Mas, em português, trabalhei com eles uma unidade de fonética. Se soubessem ler e interpretar, aprenderiam as demais matérias com facilidade.

Eles precisavam conhecer as (letras: vogais e consoantes). Precisavam saber que (quando se escreve, temos letras. Quando ouvimos, temos fonemas). (Que para escrever as palavras, usamos sílabas que são formadas pelas letras). (Letra, fonema, sílaba, palavra, frase, oração)-(Encontros vocálicos: ditongo-tritongo-hiato)-(Classes de palavras – bilhetes, carta- descrição).

No segundo semestre recebi vários pedidos para preparação de alunos para o Madureza. Aceitei alguns. Os cursinhos preparatórios solicitaram visitas para contar como consegui fazer em um ano todas as matérias do 1ª e do 2º ciclos. O segundo semestre de 1972 foi bem movimentado.

Esta foto foi feita no dia da primeira comunhão dos filhos, Rogério com 9 e Jane com 8 anos. Estavam no terceiro ano primário, em 1972 coincidindo com o término das minhas provas do segundo ciclo.

Benedita Azevedo

 

 

 

 


Publicado por Benedita Azevedo em 26/07/2020 às 17h08
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26/07/2020 02h04
Histórias e Fotos - Capítulo IV

 Assumindo a família, sem lenço e sem documento.

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Após concluir o primário em 1959 e fazer o preparatório para o exame de admissão, decidira continuar os estudo  e contei com o apoio de meu pai para convencimento de minha mãe, que em casa da tia eu estaria segura.  Trabalhei mesmo contra a vontade deles, no comércio e estudei a noite, nos anos de 1960 a meados de 62 quando me casei. O período que trabalhei no comércio entre março de 71 e junho de 62 foi o tempo que tive para sair com amigos, ir ao cinema e dançar no vesperal do Sindicato dos comerciários. Em 1962 participei da Festa de São Benedito e dancei meu primeiro e único baile daquela década. Após o casamento, aquele meu espírito de independência simplesmente fora jogado para baixo do tapete. O marido com 35 e eu com 18 anos, aos 19 e 20 me tornara mãe de duas crianças lindas e precisei abdicar de tudo. Continuar os estudos nem pensar. Passei a exercer apenas as funções de esposa, mãe e dona de casa.

Felizmente, em compensação, o marido sabendo do meu hábito da leitura encheu-me de livros. Comprou o Tesouro da Juventude, edição 1963, uma coleção de romances históricos da Editora Cultrix, com 10 volumes, a coleção filosófica de Humberto Rohden com 11 volumes dentre eles, O Sermão da montanha, Sabedoria das palavras, Mahatma Gandhi, De alma para alma, O caminho da felicidade e outros. Assinou a revista, Seleções, O boletim mensal de Portugal e O Cruzeiro, onde Raquel de Queiroz escrevia a última página. Eu lia tudo e amava as piadas do Amigo da onça.

Uma década de autoaprendizagem através da leitura. Quando em janeiro de 1971, ele fez a cirurgia para retirar o rim, a loja começou a dar problemas. Talvez tivéssemos de fechá-la. Sem outra renda eu não queria voltar a ser balconista para trabalhar 44 horas e ganhar um salário mínimo, deixando o marido doente e os filhos sozinhos o dia inteiro. O menino com 8 anos e a menina com 7.

Então resolvi que era hora de voltar a estudar, mesmo que isso desagradasse o marido. Não tínhamos outra opção. Naquela época quem escolhesse a área de humanas, faria o Clássico. Quem preferisse a área de exatas faria o Científico. Como meu sonho era fazer direito, não precisava estudar matemática, Física, Química e Biologia que eram da área científica. No Clássico eu teria de estudar Português, História, Geografia, Sociologia, Filosofia, Educação Moral e Cívica e Espanhol, a língua escolhida, exatamente porque lia o boletim português em espanhol..

 Em abril de 1971 fui a Blumenau colher informações sobre o projeto  Madureza. Folheei as apostilas e achei que conseguiria fazer os exames do  1º Ciclo em julho. Comprei todo o material, para pagar em 30 dias.  Quando pedi  inscrição em todas as matérias, a coordenadora que tinha sido minha visinha na Ponta Aguda, em Blumenau, em 1969, mandou eu conversar com a Supervisora Pedagógica. Ela explicou que as provas eram difíceis e que havia alunos que ficavam anos para eliminar aquelas matérias. Sugeriu que para eu não perder o dinheiro da inscrição, seria melhor eu fazer  metade em julho e o resto em dezembro.  Eu disse a ela que pretendia fazer o vestibular para direito em 1972.

 Ela riu e disse que a obrigação dela era me alertar. Fiz a inscrição de todas as matérias. Virava a noite estudando. Os filhos iam para a escola pela manhã. Eu adiantava os afazeres domésticos e aproveitava qualquer  tempo para estudar .. Muita coisa eu já conhecia das minhas leituras no Tesouro da Juventude.  Eliminei quatro  matérias. Ficaram faltando duas. A banca examinadora  do Colégio Normal Pedro II em Blumenau - SC, considerando o grande número de alunos, foi até Itajaí aplicar as provas. Completei todas as matérias do  1º ciclo.

Realmente as provas eram  difíceis. O mínimo para ser aprovado era 50% de aproveitamento. Fiquei  com 50% em uma, 55% em outra e as demais entre 60 e 85%. Ali resolvi  mudar de estratégia. Faria o vestibular  em 1973. Enquanto isso eu arranjaria um emprego.

Juntei a matéria que precisava estudar para o 2º ciclo. Analisei o programa e priorizei as matérias que acabara de eliminar no  1º ciclo: Português, História,  Geografia  e Educação Moral e Cívica. Fiz a inscrição para dezembro do mesmo ano e consegui eliminar todas.  Agora só faltavam  duas  matérias: Espanhol e Filosofia. Fiz a inscrição para julho de 1972.

Mas  tudo isso tinha um custo e estávamos  com problemas na loja.  Soube através da vizinha que se eu conseguisse 30 alunos e levasse a relação na prefeitura conseguiria aulas no MOBRAL, mas tinha de ter também o local. As aulas começariam em março de 1972.

Perguntei se teria algum  problema eu não ter os estudos regulares e sim o Madureza? Ela disse que seria melhor eu ir à Secretaria de Educação pedir informação. Antes, porém, voltei a Blumenau e pedi uma declaração com as notas das matérias eliminadas do 2º ciclo, no Colégio Normal Pedro II.

Um dia, pela manhã, peguei caderno e  caneta e sai batendo de porta em porta, perguntando se havia alguém que não soubesse ler e quisesse aprender. Para minha surpresa, em dois dias tinha a lista pronta. Respirei fundo e fui ao Colégio São José conversar com diretora, Irmã Adelina, que já conhecia a nossa realidade. Mostrei a lista a ela e argumentei que todos moravam perto do Colégio e que era uma surpresa tantos analfabetos morando nas imediações.  Reiterei que sabia que as salas eram ociosas a noite.  Prometi que os alunos não teriam acesso às dependências do colégio. Que eu os acompanharia até o portão de saída. Eram só duas horas, das 19 às 21, quatro dias por semana.

A principio ela relutou, mas, disse que falaria uma reunião com as outras irmãs e me daria a resposta em uma semana. Eu tinha tanta confiança de que ela nos cederia a sala, que dali fui direto a prefeitura conversar com a Secretária de Educação, Dona Onadir Tedeu. Ela ouviu a minha história, olhou o certificado e a declaração do colégio de Blumenau, voltou a ler e perguntou: Você fez tudo isso este ano? Respondi que sim. Ela pediu a secretária que Chamasse  a Dona Hilária, coordenadora do Mobral e Educação Integrada. Mostrou o documento com visível admiração perguntou, o que achas de darmos uma oportunidade a ela? Olha a listagem com os alunos?  Ela poderá fazer o treinamento com os outros monitores e veremos como se sai. Pediu que eu tirasse uma cópia daquele documento para deixar com ela. Eu já as tinha levado.

Eu estava tão confiante que  iria conseguir que voltei para casa aos pulos. O que iria ganhar  era muito mais que o meio salário mínimo para trabalhar duas  horas à noite, quatro dias por semana. Era um recomeço. Com todos meus problemas, parecia voltar ao entusiasmo dos dezesseis anos, há uma década, ao iniciar o primeiro emprego.

Tivemos uma reunião com a Secretária de Educação, a coordenadora do MOBRAL e os sete alfabetizadores. Deu tudo certo. Recebemos as orientações da metodologia que se deveria aplicar e o material didático. Se houvesse desistências o material deveria ser devolvido. Começamos dia 02 de abril  de 1972.

.Esta é a foto da conclusão do curso preparatório dos alfabetizadores do MOBRAL , março de 1972

 

 


Publicado por Benedita Azevedo em 26/07/2020 às 02h04
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10/07/2020 23h39
Histórias e fotos - capítulo III

 

Capítulo   III – O penteado

Após a festa de São Benedito, em Itapecuru Mirim,  em 1962. Naquela noite em meu primeiro baile, cinco meses antes de completar dezoito anos, e ouvir declarações de apreço de um admirador, que me conhecia da época de Grupo Escolar Gomes de Sousa, tatuadas na memória até hoje... voltei para São Luís no primeiro ônibus da segunda feira.

Seguindo uma rotina de trabalho das sete as doze e de catorze as dezessete e trinta, resolvi fazer o curso de datilografia,  em frente à loja, das dezessete e trina às dezoito e trinta. A seguir  embarcava no bonde no Ferro de engomar, na  Praça João Lisboa e ia para o Colégio São Luís. As aulas terminavam às vinte e duas horas. Eu voltava de bonde para casa à Rua Raimundo Correia, no Monte Castelo, onde morava com minha tia Santana, prima de meu pai, seu esposo, Raimundo Vale e os filhos: Sônia Maria, Ana, José Raimundo e Vera.

Sempre preocupada com os afazeres da minha rotina diária, após as palavras de meu pai e de Antônio que eu estava bonita, passei a prestar mais atenção em mim. Percebia os olhares dos funcionários da loja e em especial do patrão. Cheio de cuidados comigo, resolveu que eu ficasse com uma cópia da chave da loja para não esperar na porta, quando chegasse antes dele. Isso me deixou meio desconfiada. Pois percebia olhares furtivos que me deixavam sem graça. Mas, sempre respeitosos.

Em março faria um ano que eu trabalhava na Casa Xavier, à Rua de Santana, ao lado da agência de embarque do ônibus para Itapecuru. A inquietação inerente à minha personalidade desde a infância, nadando, pescando, subindo nas árvores para comer frutas no pé, me levou a exercer, neste ano de trabalho, várias funções: balconista, no caixa e por último no escritório. Segundo o gerente, ninguém conferia os talões dos caixas das três lojas, mais rápido que eu. Nunca reclamei de nada, só queria ao final do mês, ter o suficiente para minha manutenção sem dar despesas a meus pais. Era de bem com a vida. E talvez por isso, aprendia tudo com rapidez.

Em um dia de Março, de supetão, o patrão disse que estava apaixonado e que queria casar comigo. Levei um susto. Depois de muitas explicações, minha saída e volta para a loja,  ele conseguiu me convencer de que seus sentimentos eram reais. Resolvi continuar na loja, com a condição de chegar um pouco mais tarde, após todos os outros funcionários.

Após a festa de São Benedito não voltei a Itapecuru. Estava com saudades da família. Queria aproveitar a Semana Santa para descansar um pouco, nadar e matar as saudades da relação de amor com meu rio,  desde os seis anos.

Queria viajar na quinta feira após a loja fechar ao meio dia. Mas, o patrão me dispensou e fui de ônibus, na quarta, dia 18 de abril, de 1962, ao final do trabalho. Contei a meus pais a proposta de casamento que recebera. Eles acharam esquisito e queriam que eu voltasse para casa. Foi um drama...

Todos os problemas contornados, casamos dia 04 de agosto de 1962. Tivemos um filho e uma filha.  Ele tinha dezessete anos mais que eu. Muito ciumento o que nos criou muitos problemas. Mas, o amor era imenso. Em 1967, cinco anos após o casamento ele desenvolveu uma tuberculose renal e descobrimos que  seu rim direito estava parado e precisava ser retirado, mas, antes teria de tratar a tuberculose que já atingira a bexiga.

Ele era português, sem família no Maranhão e quis mudar para São Paulo onde ficaria mais perto dos irmãos: três em São Paulo, um em Santa Catarina e outro no Paraná. Mudamos para São Paulo em novembro de 1967. Após cinco meses, em abril de 1968, convidado por um irmão, ele optou por ir para Blumenau, uma cidade menor, onde permanecemos até o final de 1969.  Ao final, mudamos para Itajaí, onde ele pensava fosse melhor para seu comércio de armarinho e confecções. Eu só o seguia.  Ele conseguiu montar a Casa Portuguesa. Mesmo em tratamento era um entusiasta. Fez a cirurgia, recebeu alta e parecia bem. No inicio de 1971 teve um AVC que o deixou inválido. A loja dando os primeiros passos não teve como se continuar. Foi liquidada.

Em 1971, aos 27 anos, assumi minha família, sozinha. Voltei a estudar. À época, o Madureza estava na moda. A lei 4.024, de 21 de dezembro de 1961, garantia aos alunos estudarem em casa e fazer as provas em uma instituição de ensino pública. Em julho de 1971, eliminei todas as matérias do 1º ciclo. Em dezembro de 1971 fiz as provas no Colégio Normal Pedro II em Blumenau e eliminei as matérias do 2º ciclo: Português, História Geografia, Educação Moral e Cívica e sociologia. Faltava uma língua e Filosofia. Em agosto, ao fazer a inscrição soube que fora acrescida OSPB. Consegui eliminar as três. Em um ano, estava pronta para realizar o sonho de fazer Direito.

Esta foto foi feita no  Centro de atividades do SESI,  que ficava à minha passagem, perto de casa, à Rua Silva em Itajaí. A coordenadora nos ofereceu a sala para algumas aulas de Filosofia, ministradas por um amigo de um dos alunos.

A L’oréal estava oferecendo um curso de pintura e penteados. A coordenadora nos convidou como voluntárias, para que as alunas nos pintassem e penteassem os cabelos. Era uma foto coletiva onde as modelos tinham de sorrir, pois seria publicada na revista. Eu recortei.

Praia do Anil, 09 de junho de 2020

Benedita Azevedo.

WWW.beneditaazevedo.com

 

 


Publicado por Benedita Azevedo em 10/07/2020 às 23h39
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08/07/2020 22h56
Histórias e fotos - capítulo II

.Capítulo II – Carteira de identidade (recuperada)

.Em 1962, completava dois anos que eu morava em São Luís e um trabalhando no comércio. Com a jornada dupla não me sobrava muito tempo para diversões. Descobrira com as colegas de trabalho um vesperal dançante no Sindicato dos Comerciários, perto da Igreja da Sé, aonde ia vez ou outra. Gostava de dançar roque e aprendi com amigos o samba-canção. Os músicos começavam às catorze horas e terminavam às dezenove.

.Naquele ano eu pretendia participar da Festa de São Benedito, segundo mamãe, meu protetor. Mas, quem me protegeu foi Santo Antônio. Viajei na sexta ao final do trabalho. Desembarquei do ônibus frente à casa de Zequinha Matos, na cabeceira da ponte, do lado da Trizidela. Cheguei de surpresa bem na hora do jantar. Mamãe sempre muito observadora se manifestou: Já vi que veio correndo, nem trouxe a mala! Foi aquela alegria! Expliquei que voltaria na segunda-feira no primeiro ônibus, pois tinha de trabalhar.

Meu pai disse que eu estava bonita. Mamãe queria saber notícias dos parentes de São Luís e se eu tinha levado roupa para ir à missa. Se não, meu pai compraria na Dona Rafiza e ela faria um bem bonito no sábado. Era hábito na cidade fazer roupas novas para começar o ano na missa de São Benedito.

.Acordei com a alvorada na Voz Paroquial. Aquelas músicas sacras no alto falante, no ápice da torre da igreja, acordava a população. Encheu meu coração de emoção. A missa parecia um desfile de modas. O que mais me impressionou foram os olhares perscrutadores de novidades. Fazia mais de ano que eu não voltava à cidade. Senti que estava sendo observada.

.Ao final da missa, minha colega de Grupo Escolar e também de Ginásio, em São Luís, veio ao meu encontro. Chiquita Bezerra, minha amiga de infância e adolescência: “Mulher tu tá arrasando”! Viu só os olhares dos rapazes!

.Voltei com a família para a Trisidela. Mamãe tinha feito peixe pescado por meu pai. Moqueca de Curimatá com arroz e farinha d’água. Matei as saudades da comidinha feita com tanto carinho. Ao final da tarde, o pessoal foi à procissão. Preferi descansar para ir ao baile à noite. Eu completaria 18 anos em maio e aquele seria meu primeiro baile. Já fora a outros antes e aprendera a dançar com meu cunhado. Chegando ao clube, Ataíde procurou uma mesa. Logo seu Hemetério, pai de minhas colegas de grupo escolar, Maria Amorim e Maria Luisa, me convidou para dançar. Perguntou se eu ainda estava estudando em São Luís... A seguir outro conterrâneo me solicitou a dança, mas, começou a me apertar de um jeito anormal. Eu estava constrangida sem saber o que fazer... Então, chega meu salvador. Bate no ombro do cavalheiro e... O amigo me permite?

.- Que alívio? Dançamos o baile inteiro. Ele me contou que estava admirado com a minha transformação e a diferença de quando me viu nas aulas do exame de admissão que o pai dele ministrava e na formatura do quinto ano. Que já me observara na missa e que estava à janela e não gostara de me ver sem graça dançando com o engraçadinho. Ele também tinha olhos azuis!

Com o vestido da Festa de São Benedito fiz a foto para a primeira carteira de identidade.

.Praia do Anil, Magé-RJ

07 de julho de 2020

Benedita Azevedo

www.beneditaazevedo.com


Publicado por Benedita Azevedo em 08/07/2020 às 22h56
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