Haicai, Verso e Prosa

Letras e Sentimentos

Meu Diário
26/07/2020 18h05
Histórias e fotos – capítulo VIII

Um emprego de verdade

Agora, aprovada em Direito e Letras precisava de um emprego para garantir a mensalidade da faculdade. A prefeitura cancelou as bolsas que oferecia.

Fui falar com a secretária de educação. Contei das aprovações e perguntei qual das duas seria melhor para se arranjar um emprego? Ela disse que se eu fizesse Direito só arranjaria estágio no 4º ano. Mas, se fizesse Letras poderia fazer o concurso que teria para o primário no segundo semestre. Se fosse aprovada já seria nomeada no início de 1974. Poderia também lecionar português nas 5ª séries que seriam criadas no ano seguinte, em todas as escolas municipais. Saí da prefeitura e fui fazer a matrícula.

Ao final da semana fui visitar Aurenir, uma amiga nordestina de Bodocó-PE. Falei a ela que precisava arranjar um emprego para garantir o pagamento da faculdade. Ela perguntou se eu queria pegar algumas aulas de recuperação na 8ª série, aos sábados?

Ela era professora de português. Na escola onde trabalhava formaram uma turma com alunos que não conseguiram o aproveitamento necessário para fazerem o 2º grau.

Perguntei se eu poderia me habilitar só com o vestibular? Ela disse que sim. Desde que fosse acadêmica de letras. Fizemos as contas e não daria para pagar a mensalidade. Ela me pegou pelo braço e saímos pela porta da cozinha, para a outra rua. Fomos falar com Carmem a coordenadora do SESC-Itajaí.

Fui apresentada e falei que precisava de um emprego e se ela não estava precisando de alguém no Centro de Atividades? Ela disse que precisava de uma funcionária para trabalhar no Grupo Recreativo, mas, precisava entender de teatro, pois o rapaz formara o “Grupo Teatral Arte-Drama” e precisou se afastar. Além disso, teria que divulgar as atividades da entidade no comércio.

Rápido eu perguntei se ela deixaria eu fazer uma experiência. Ela arregalou os olhos e disse: Estou gostando do seu jeito. Vamos tentar. Passa lá na segunda feira para conversamos.

Voltamos à casa da minha amiga. Ela entrou no quarto e saiu com uma bolsa cheia de livros: - Aqui estão todos meus livros do curso de Letras. Eu terminei no ano passado. São seus. Aqui tem 3 cadernos de 10 matérias. Com isso já dá para começar. Fiquei emocionada. Voltei para casa com dois trabalhos. Era só organizar o horário. Sem esforço e estudo nada disso aconteceria. Se eu tivesse ficado só reclamando e não fizesse nada, teria pedido ajuda para voltar para o Maranhão derrotada.

Na segunda, fui ao SESC. O horário era móvel. Seis horas de trabalho, sendo: 2ª, 4ª e 6ª das 13 às 19h e 3ª e 5ª das 15 às 21h. Todos os sábados das 8 às 14h. No mês seguinte alternava. Os dias que se trabalhava até às 19, passaria para 21h e o das 21 para 19h.

Como os horários seriam alternados, daria para assistir 50% das aulas, o mínimo para não reprovar por falta. Naquele ano as aulas de inglês seriam aos sábados. Fui conversar com a secretária se poderia deixar de fazer o inglês. Ela disse que na matrícula teria de ser horário cheio, mas, eu poderia faltar, ser reprovada por falta e faria depois.

Esta foto foi para a carteira de identidade que eu perdera, em 1973. Fiz duas e guardei uma. Estava vestida com o guarda pó do primário. À época, pediram que eu tirasse os brincos e o colar.

-

NATUREZA

Cenários da minha infância.

Sol da manhã a brilhar...

O mato molhado de orvalho

Refrescam frutos maduros..

O Sol por traz das palmeiras

das paisagens maranhenses

Às margens do Itapecuru...

Pela manhã, ao sair para a escola

A beleza extasiante de ver

O Sol e a neblina subirem.

Os marrecos a sobrevoarem o rio

Deixavam-me encantada a observá-los

Até sumirem na curva rio acima...

E a euforia ao vê-los retornarem

Em busca de alimento mergulhar aqui e ali.

Os caminhos na floresta...

Onde muitas vezes andei

Em busca de frutas e pássaros,

Ou simplesmente passava

Para acompanhar minha mãe

Em visitas às comadres

Mães dos filhos que

ajudava a trazer ao mundo.

Itajaí, SC, 27.08.72

Benedita Azevedo


Publicado por Benedita Azevedo em 26/07/2020 às 18h05
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26/07/2020 17h40
Histórias e fotos – capítulo VII

 

Resultado do Vestibular

Desde meados de 1970, quando meu marido teve o AVC, comecei a ir com ele para a loja. Consequentemente, com o espírito que tenho não ia ficar só de coadjuvante. Percebendo que ele não era mais aquela pessoa atenta aos mínimos detalhes, fui discretamente assumindo a direção das coisas. Não que eu tivesse planejado, mas foram acontecendo. Desde então, com a necessidade de tempo para cuidar da loja, da família e da minha formação, já prevendo o final insustentável da loja, dormia sempre após a meia noite, uma, às vezes duas da manhã, para está de pé às seis e trinta. Esse hábito adquirido naquela época me acompanha até hoje. Cinco seis horas de sono são suficientes.

Só pude fazer tudo isso pela situação geográfica da minha casa, que, em relação aos locais de trabalho, estudo e colégio dos filhos ficava a dois quarteirões, em direções diferentes.

Chegou o tão esperado dia do resultado do vestibular. Só não estava mais ansiosa, por não ter tempo de pensar no assunto. As responsabilidades eram grandes. Seria no ginásio de esportes, já não me lembro o nome, mas como disse Bashô, isso não é importante e sim o que aconteceu naquele dia.

Saí de casa cedo para receber os resultados. Nunca soubera do trote dado aos calouros pelos veteranos. Os resultados de Direito foram lidos primeiro. À medida que eram anunciados, os aprovados se dirigiam ao centro da quadra. Ali as mulheres tinham as unhas cortadas e os homens a cabeleira tosquiada. Eram 150 vagas, fui classificada em 48º lugar, mas, como minha primeira opção era Letras, poderia descer após a leitura dos classificados em meu curso.

Festejei muito. Mesmo que não fosse classificada em Letras, iria fazer Direito. Pareceu-me muito lenta a leitura após minha classificação. Finalmente os classificados em Letras foram nominados. A leitura era do último para o primeiro. Quando chegou ao trigésimo fiquei apreensiva. Acreditava que seria classificado entre os últimos, o que para mim estava muito bom. Chegou ao vigésimo, e nada. O coração acelerou um pouquinho, já me via fazendo a matrícula em Direito. Décimo lugar... Benedita Silva de Azevedo.

Naquele momento, respirei fundo e desci para receber o trote que seria duplo. Tive as unhas cortadas e tomei um banho de tinta. A alma estava leve e o coração descompassado, mas, cheio de alegria, como nunca estivera antes.

Cheguei a casa e todos ficaram assustados. Tive que explicar que conseguira classificação em dois cursos e era o costume das faculdades dar trotes nos novatos. Além disso, eu teria de andar com o boné azul dos calouros durante todo o ano. Se não o fizesse pagaria multa.

Esta foto é da carteirinha do primeiro ano de letras, da FEPEVI – Fundação de Ensino do polo Geoeducacional do Vale do Itajaí - 1973. Hoje Universidade do Vale do Itajaí – UNIVALI.

Poesia da I Fase

Saudades I

Quantas saudades eu tenho!

Do tempo que longe vai

Da casa cheia de sonhos

Da vivência com meu pai.

Às vezes fico pensando

Quantos sonhos lá ficaram

Daqueles bosques tão lindos

Meus pensamentos voaram.

Andaram longas estradas

Vagaram por este país

Coloquei o sonho em prática

Fui dependente e feliz.

Hoje perdida no tempo

que no passado ficou

só trago muita saudade

da lembrança que restou.

Das lindas flores que havia

Naquelas plantas selvagens,

Brancas, lilás, amarelas,

Em meio a verdes folhagens.

.

Longe a perder de vista

Vislumbrava o coqueiral

Aquela planta nativa

Nascia desde o quintal.

O sabiá logo à tardinha

No seu dobrado saudoso

Enchia-me de alegria

Ai, que tempo venturoso!

Entre a mata e o mar do Anil

Não vejo mais as palmeiras

Moro agora em outro extremo

Destas terras brasileiras.

São Luís, MA, 05.10.65

Editado em 01/05/06

Praia do Anil, 15 de julho de 2020

Benedita Azevedo.


Publicado por Benedita Azevedo em 26/07/2020 às 17h40
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26/07/2020 17h27
Histórias e fotos – capítulo VI

O vestibular e o sonho

1971-1972 dois anos de muita pressão psicológica, um super esforço intelectual, idas e vinda com o marido para o hospital, mudanças de planos, reconstrução de objetivos e a manutenção da família, me levaram a engordar 10 quilos. Tirando as roupas perdidas, não me preocupei com isso. Estava saudável fisicamente.

Ao concluir o Clássico em julho de 1972, foi um peso que me saiu dos ombros. Sem ele eu não conseguiria dar um passo à frente. Após fazer as últimas provas dia 7 de julho, comecei a estudar os conteúdos que poderiam entrar no vestibular.

Não queria me preocupar com matemática, física e química, pois não teria tempo de assimilar os conteúdos. Seria necessário reforçar as matérias da área humanística com peso maior na contagem de pontos. Mesmo assim assisti às aulas do cursinho.

Nesse espaço de tempo aconteceram coisas boas que me surpreenderam. Recebi convites de alguns cursos preparatórios do madureza, para contar aos alunos como eu tinha conseguido fazer os dois ciclos em um ano, fazendo todas as provas dos dois? Eu levava os certificados, os professore conferiam as datas das provas... A única explicação era a dedicação aos estudos e determinação de vence ou vencer. Eu não tinha outra opção.

Tendo feito um curso de Parapsicologia, na última semana de setembro de 1971, divulgado por um dos professores que nos ministraram aulas no salão paroquial, até acreditava que seria uma missão. Mas, a missão mais concreta que eu tinha pela frente era cuidar dos filhos e lhes dar bons exemplos.

Ao final daquele curso fizemos um teste vocacional. Meu resultado, “Literatura e artes em geral” me fez quebrar aquela cisma de fazer Direito. Coloquei-o em segunda opção e Letras em primeira, na inscrição do vestibular.

Continuei as aulas, agora com a matéria da Educação Integrada. Aquele grupo até parecia comigo. Iniciamos em agosto. Os alunos pretendiam terminar em fevereiro, pois se eu passasse no vestibular, eles não queriam outra professora.

Minha responsabilidade ficava maior. Combinamos tentar fazer as matérias do primeiro semestre até a primeira quinzena de novembro. Se conseguíssemos, faríamos o resto até fevereiro. Só não valia eles torcerem para eu não ser aprovada no vestibular!

Meus filhos fariam a primeira comunhão em outubro. Eu precisava providenciar as roupas. O dinheiro estava curto. Eu tinha dois novelos de linha cleia branca em casa. Resolvi fazer o vestido da Jane em crochê. Arte aprendida com minha professora do 3º e 5º anos do primário, no Grupo Escolar Gomes de Sousa, em Itapecuru Mirim, Dona Francisca Rodrigues.

Quando chegava das aulas de Educação integrada, às 21:30 sentava-me para ver televisão e fazia o crochê. Fiz o vestido e as meias. Ficaram lindos. Em um final de semana fiz a roupa do Rogério. Eu não contava com ninguém. Longe da terra natal, da família, lutando para sobreviver dignamente, sem depender de ninguém.

Não permitia que nada negativo se sobrepusesse à minhas atividades. Lição aprendida no livro “O caminho da felicidade” de Humberto Rohden, lido na década de reclusão pós casamento.

Enfim, chegou a semana do vestibular.

Os filhos fizeram a primeira comunhão e já estavam de férias. Saí só com duas canetas, um lápis e uma borracha. A primeira prova era a de português e Literatura, as matérias que mais me dedicara, até por conta das aulas da Educação Integrada, que eu ficava pesquisando nas gramáticas, a maneira mais fácil de passar aos alunos.

Achei que me saí bem. As provas das matérias que eu estudara para o Clássico eu fiz bem. Matemática até consegui fazer alguma coisa. Mesmo as de Química e Física respondi algumas questões básicas, resultado das aulas que assisti como ouvinte no primeiro ano científico, no Colégio São José e nas aulas do cursinho, oferecido pelo Diretório acadêmico.

Aguardemos os resultados!

Esta foto era do crachá da escola. Os professores da Educação Integrada que não eram da Unidade Escolar tinham de se identificar na portaria.


Publicado por Benedita Azevedo em 26/07/2020 às 17h27
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26/07/2020 17h08
Histórias e fotos – capítulo V

Início do magistério no MOBRAL.

Com a reforma do ensino e implantação da Lei 5.692, de 1971, com o objetivo de profissionalizar o Ensino médio dando um caráter de finalização. de tal modo que os alunos começassem a trabalhar, se não quisessem fazer um curso superior. Sendo assim, mudou a nomenclatura. Agora tínhamos o Primeiro grau, abrangendo o estudo da primeira a oitava série e Segundo Grau, as três séries do ensino médio, substituindo o Científico e o Clássico.

Agora, além de Espanhol e Filosofia, eu teria de fazer provas de matemática, química, Biologia e OSPB. A próxima oportunidade de realização de provas seria em fevereiro de 1972. Eu fiquei sabendo da mudança 13 dias antes. Mesmo assim, fiz as provas no Conjunto Educacional Governador Celso Ramos, em Joinville-SC.

Entretanto, alunos que tinham começado o Clássico, como eu, e só faltavam até duas matérias entraram na justiça pelo direito de fazerem só essas matérias. Enquanto o resultado não saia continuei estudando Filosofia e Espanhol e fiz as provas em julho em Blumenau. Mas, os resultados só poderiam ser publicados após a decisão da justiça.

Em setembro saiu o resultado. Recebi o certificado e as notas do Clássico. Filosofia e Espanhol constavam como feitas no Colégio Normal Pedro II em Blumenau e OSPB no Conjunto Educacional Governador Celso Ramos. Então, na verdade, em Joinville só passei em OSPB. Bendita a ideia que tive de fazer Filosofia e Espanhol em Blumenau.

Completei todas as matérias com 55% de aproveitamento em espanhol, 65% em filosofia e 84% em OSPB. Fui aprovada nas primeiras provas do 1º ciclo em julho de 1971 e Fechava as do 2º ciclo em julho de 1972. (5 anos em 1). Parei de estudar na 2ª série do ginásio. Agora estava apta a prestar o vestibular.

Morávamos a duas quadras da faculdade (FEPEVI – Fundação de Ensino do Polo Geoeducacional do Vale do Itajaí, hoje, UNIVALE -Universidade do Vale do Itajaí) que funcionava no C.E. Nilton Kucker , à Rua Silva. Fui pedir informações sobre o vestibular de 1973. A secretária informou que estavam organizando um cursinho pré-vestibular a partir de setembro. Perguntei se tinham os programas do vestibular para Letras e Direito? Informaram que a partir daquele ano de acordo com a 5.692, o vestibular seria unificado. Peguei uma cópia para começar a estudar e fiz logo minha inscrição para o preparatório que começaria em outubro. Eram 50 vagas para Letras e 150 para Direito.

Conseguimos acertar tudo para começar as aulas do MOBRAL dia 02 de abril, com 22 alunos bem interessados. Quando começou o frio no mês de maio alguns foram desistindo. Fiz visitas, conversei, mas alguns não voltaram. Chegavam cansados do trabalho e com o frio não queriam sair de casa. O grupo que permaneceu queria mais. No final de junho estavam alfabetizados. Fez uma carta pedindo que eu continuasse as aulas. Queria fazer a Educação Integrada. Queria concluir o primário e começar o ginásio, o mais breve possível. Souberam que só poderiam começar em 1973. Até mostraram os livros da Educação Integrada e leram alguns textos.

Olhem só, um grupo de alunos parecidos comigo. Senti que meu dever naquela hora era facilitar a resolução desse problema. Propus fazer uma avaliação com eles. Se as notas tivessem 70% de aproveitamento eu iria conversar com a Secretária de Educação.

Os 16 que permaneciam no curso estavam alfabetizados. A maioria teve aproveitamento acima de 70%. O problema era que a Educação Integrada só começaria em março. Se ficassem parados poderiam perder o estímulo. Levei a carta e as provas para a Secretaria de Educação. A coordenadora mostrou tudo à Secretária de Educação. Elas me pediram um tempinho para analisar a situação. Nossa! Então teria uma possibilidade!

Em julho teríamos as férias escolares. Mas, antes soubemos o resultado. Havia uma vaga para a Educação Integrada. Uma professora desistira por falta de alunos. Só não poderia mudar o nome dela àquela altura. Os alunos queriam que eu desse as aulas. Se eu concordasse ela já havia aceitado a proposta da coordenação. Concordei . As aulas passariam a ser em uma escola municipal, onde funcionava a turma que fora fechada.

Eu estava vivendo com eles a mesma realidade. Queríamos recuperar o tempo perdido. Recomeçamos as aulas em agosto. Criei o meu próprio método. Os alunos eram todos adultos. Mostraram que tinham facilidade de aprender. E o mais importante: Queriam aprender! Seguimos a programação. Mas, em português, trabalhei com eles uma unidade de fonética. Se soubessem ler e interpretar, aprenderiam as demais matérias com facilidade.

Eles precisavam conhecer as (letras: vogais e consoantes). Precisavam saber que (quando se escreve, temos letras. Quando ouvimos, temos fonemas). (Que para escrever as palavras, usamos sílabas que são formadas pelas letras). (Letra, fonema, sílaba, palavra, frase, oração)-(Encontros vocálicos: ditongo-tritongo-hiato)-(Classes de palavras – bilhetes, carta- descrição).

No segundo semestre recebi vários pedidos para preparação de alunos para o Madureza. Aceitei alguns. Os cursinhos preparatórios solicitaram visitas para contar como consegui fazer em um ano todas as matérias do 1ª e do 2º ciclos. O segundo semestre de 1972 foi bem movimentado.

Esta foto foi feita no dia da primeira comunhão dos filhos, Rogério com 9 e Jane com 8 anos. Estavam no terceiro ano primário, em 1972 coincidindo com o término das minhas provas do segundo ciclo.

Benedita Azevedo

 

 

 

 


Publicado por Benedita Azevedo em 26/07/2020 às 17h08
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26/07/2020 02h04
Histórias e Fotos - Capítulo IV

 Assumindo a família, sem lenço e sem documento.

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Após concluir o primário em 1959 e fazer o preparatório para o exame de admissão, decidira continuar os estudo  e contei com o apoio de meu pai para convencimento de minha mãe, que em casa da tia eu estaria segura.  Trabalhei mesmo contra a vontade deles, no comércio e estudei a noite, nos anos de 1960 a meados de 62 quando me casei. O período que trabalhei no comércio entre março de 71 e junho de 62 foi o tempo que tive para sair com amigos, ir ao cinema e dançar no vesperal do Sindicato dos comerciários. Em 1962 participei da Festa de São Benedito e dancei meu primeiro e único baile daquela década. Após o casamento, aquele meu espírito de independência simplesmente fora jogado para baixo do tapete. O marido com 35 e eu com 18 anos, aos 19 e 20 me tornara mãe de duas crianças lindas e precisei abdicar de tudo. Continuar os estudos nem pensar. Passei a exercer apenas as funções de esposa, mãe e dona de casa.

Felizmente, em compensação, o marido sabendo do meu hábito da leitura encheu-me de livros. Comprou o Tesouro da Juventude, edição 1963, uma coleção de romances históricos da Editora Cultrix, com 10 volumes, a coleção filosófica de Humberto Rohden com 11 volumes dentre eles, O Sermão da montanha, Sabedoria das palavras, Mahatma Gandhi, De alma para alma, O caminho da felicidade e outros. Assinou a revista, Seleções, O boletim mensal de Portugal e O Cruzeiro, onde Raquel de Queiroz escrevia a última página. Eu lia tudo e amava as piadas do Amigo da onça.

Uma década de autoaprendizagem através da leitura. Quando em janeiro de 1971, ele fez a cirurgia para retirar o rim, a loja começou a dar problemas. Talvez tivéssemos de fechá-la. Sem outra renda eu não queria voltar a ser balconista para trabalhar 44 horas e ganhar um salário mínimo, deixando o marido doente e os filhos sozinhos o dia inteiro. O menino com 8 anos e a menina com 7.

Então resolvi que era hora de voltar a estudar, mesmo que isso desagradasse o marido. Não tínhamos outra opção. Naquela época quem escolhesse a área de humanas, faria o Clássico. Quem preferisse a área de exatas faria o Científico. Como meu sonho era fazer direito, não precisava estudar matemática, Física, Química e Biologia que eram da área científica. No Clássico eu teria de estudar Português, História, Geografia, Sociologia, Filosofia, Educação Moral e Cívica e Espanhol, a língua escolhida, exatamente porque lia o boletim português em espanhol..

 Em abril de 1971 fui a Blumenau colher informações sobre o projeto  Madureza. Folheei as apostilas e achei que conseguiria fazer os exames do  1º Ciclo em julho. Comprei todo o material, para pagar em 30 dias.  Quando pedi  inscrição em todas as matérias, a coordenadora que tinha sido minha visinha na Ponta Aguda, em Blumenau, em 1969, mandou eu conversar com a Supervisora Pedagógica. Ela explicou que as provas eram difíceis e que havia alunos que ficavam anos para eliminar aquelas matérias. Sugeriu que para eu não perder o dinheiro da inscrição, seria melhor eu fazer  metade em julho e o resto em dezembro.  Eu disse a ela que pretendia fazer o vestibular para direito em 1972.

 Ela riu e disse que a obrigação dela era me alertar. Fiz a inscrição de todas as matérias. Virava a noite estudando. Os filhos iam para a escola pela manhã. Eu adiantava os afazeres domésticos e aproveitava qualquer  tempo para estudar .. Muita coisa eu já conhecia das minhas leituras no Tesouro da Juventude.  Eliminei quatro  matérias. Ficaram faltando duas. A banca examinadora  do Colégio Normal Pedro II em Blumenau - SC, considerando o grande número de alunos, foi até Itajaí aplicar as provas. Completei todas as matérias do  1º ciclo.

Realmente as provas eram  difíceis. O mínimo para ser aprovado era 50% de aproveitamento. Fiquei  com 50% em uma, 55% em outra e as demais entre 60 e 85%. Ali resolvi  mudar de estratégia. Faria o vestibular  em 1973. Enquanto isso eu arranjaria um emprego.

Juntei a matéria que precisava estudar para o 2º ciclo. Analisei o programa e priorizei as matérias que acabara de eliminar no  1º ciclo: Português, História,  Geografia  e Educação Moral e Cívica. Fiz a inscrição para dezembro do mesmo ano e consegui eliminar todas.  Agora só faltavam  duas  matérias: Espanhol e Filosofia. Fiz a inscrição para julho de 1972.

Mas  tudo isso tinha um custo e estávamos  com problemas na loja.  Soube através da vizinha que se eu conseguisse 30 alunos e levasse a relação na prefeitura conseguiria aulas no MOBRAL, mas tinha de ter também o local. As aulas começariam em março de 1972.

Perguntei se teria algum  problema eu não ter os estudos regulares e sim o Madureza? Ela disse que seria melhor eu ir à Secretaria de Educação pedir informação. Antes, porém, voltei a Blumenau e pedi uma declaração com as notas das matérias eliminadas do 2º ciclo, no Colégio Normal Pedro II.

Um dia, pela manhã, peguei caderno e  caneta e sai batendo de porta em porta, perguntando se havia alguém que não soubesse ler e quisesse aprender. Para minha surpresa, em dois dias tinha a lista pronta. Respirei fundo e fui ao Colégio São José conversar com diretora, Irmã Adelina, que já conhecia a nossa realidade. Mostrei a lista a ela e argumentei que todos moravam perto do Colégio e que era uma surpresa tantos analfabetos morando nas imediações.  Reiterei que sabia que as salas eram ociosas a noite.  Prometi que os alunos não teriam acesso às dependências do colégio. Que eu os acompanharia até o portão de saída. Eram só duas horas, das 19 às 21, quatro dias por semana.

A principio ela relutou, mas, disse que falaria uma reunião com as outras irmãs e me daria a resposta em uma semana. Eu tinha tanta confiança de que ela nos cederia a sala, que dali fui direto a prefeitura conversar com a Secretária de Educação, Dona Onadir Tedeu. Ela ouviu a minha história, olhou o certificado e a declaração do colégio de Blumenau, voltou a ler e perguntou: Você fez tudo isso este ano? Respondi que sim. Ela pediu a secretária que Chamasse  a Dona Hilária, coordenadora do Mobral e Educação Integrada. Mostrou o documento com visível admiração perguntou, o que achas de darmos uma oportunidade a ela? Olha a listagem com os alunos?  Ela poderá fazer o treinamento com os outros monitores e veremos como se sai. Pediu que eu tirasse uma cópia daquele documento para deixar com ela. Eu já as tinha levado.

Eu estava tão confiante que  iria conseguir que voltei para casa aos pulos. O que iria ganhar  era muito mais que o meio salário mínimo para trabalhar duas  horas à noite, quatro dias por semana. Era um recomeço. Com todos meus problemas, parecia voltar ao entusiasmo dos dezesseis anos, há uma década, ao iniciar o primeiro emprego.

Tivemos uma reunião com a Secretária de Educação, a coordenadora do MOBRAL e os sete alfabetizadores. Deu tudo certo. Recebemos as orientações da metodologia que se deveria aplicar e o material didático. Se houvesse desistências o material deveria ser devolvido. Começamos dia 02 de abril  de 1972.

.Esta é a foto da conclusão do curso preparatório dos alfabetizadores do MOBRAL , março de 1972

 

 


Publicado por Benedita Azevedo em 26/07/2020 às 02h04
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