Haicai, Verso e Prosa

Letras e Sentimentos

Meu Diário
08/07/2020 22h56
Histórias e fotos - capítulo II

.Capítulo II – Carteira de identidade (recuperada)

.Em 1962, completava dois anos que eu morava em São Luís e um trabalhando no comércio. Com a jornada dupla não me sobrava muito tempo para diversões. Descobrira com as colegas de trabalho um vesperal dançante no Sindicato dos Comerciários, perto da Igreja da Sé, aonde ia vez ou outra. Gostava de dançar roque e aprendi com amigos o samba-canção. Os músicos começavam às catorze horas e terminavam às dezenove.

.Naquele ano eu pretendia participar da Festa de São Benedito, segundo mamãe, meu protetor. Mas, quem me protegeu foi Santo Antônio. Viajei na sexta ao final do trabalho. Desembarquei do ônibus frente à casa de Zequinha Matos, na cabeceira da ponte, do lado da Trizidela. Cheguei de surpresa bem na hora do jantar. Mamãe sempre muito observadora se manifestou: Já vi que veio correndo, nem trouxe a mala! Foi aquela alegria! Expliquei que voltaria na segunda-feira no primeiro ônibus, pois tinha de trabalhar.

Meu pai disse que eu estava bonita. Mamãe queria saber notícias dos parentes de São Luís e se eu tinha levado roupa para ir à missa. Se não, meu pai compraria na Dona Rafiza e ela faria um bem bonito no sábado. Era hábito na cidade fazer roupas novas para começar o ano na missa de São Benedito.

.Acordei com a alvorada na Voz Paroquial. Aquelas músicas sacras no alto falante, no ápice da torre da igreja, acordava a população. Encheu meu coração de emoção. A missa parecia um desfile de modas. O que mais me impressionou foram os olhares perscrutadores de novidades. Fazia mais de ano que eu não voltava à cidade. Senti que estava sendo observada.

.Ao final da missa, minha colega de Grupo Escolar e também de Ginásio, em São Luís, veio ao meu encontro. Chiquita Bezerra, minha amiga de infância e adolescência: “Mulher tu tá arrasando”! Viu só os olhares dos rapazes!

.Voltei com a família para a Trisidela. Mamãe tinha feito peixe pescado por meu pai. Moqueca de Curimatá com arroz e farinha d’água. Matei as saudades da comidinha feita com tanto carinho. Ao final da tarde, o pessoal foi à procissão. Preferi descansar para ir ao baile à noite. Eu completaria 18 anos em maio e aquele seria meu primeiro baile. Já fora a outros antes e aprendera a dançar com meu cunhado. Chegando ao clube, Ataíde procurou uma mesa. Logo seu Hemetério, pai de minhas colegas de grupo escolar, Maria Amorim e Maria Luisa, me convidou para dançar. Perguntou se eu ainda estava estudando em São Luís... A seguir outro conterrâneo me solicitou a dança, mas, começou a me apertar de um jeito anormal. Eu estava constrangida sem saber o que fazer... Então, chega meu salvador. Bate no ombro do cavalheiro e... O amigo me permite?

.- Que alívio? Dançamos o baile inteiro. Ele me contou que estava admirado com a minha transformação e a diferença de quando me viu nas aulas do exame de admissão que o pai dele ministrava e na formatura do quinto ano. Que já me observara na missa e que estava à janela e não gostara de me ver sem graça dançando com o engraçadinho. Ele também tinha olhos azuis!

Com o vestido da Festa de São Benedito fiz a foto para a primeira carteira de identidade.

.Praia do Anil, Magé-RJ

07 de julho de 2020

Benedita Azevedo

www.beneditaazevedo.com


Publicado por Benedita Azevedo em 08/07/2020 às 22h56
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08/07/2020 22h53
Histórias e fotos - capítulo I

Histórias e fotos

Capítulo I – 1ª carteira de estudante (recuperada)

Na década de 40, ou anos 40, em plena Segunda Guerra Mundial, no município de Itapecuru Mirim, na localidade Mata, o casal que se casara em 1934, alheio ao que acontecia no mundo, recebia seu sexto filho, no dia 10 de maio de 1944, às dezesseis horas. Em 1949, ao final da década já ganhara mais dois filhos e a mulher estava grávida do nono. Rosenda e Euzébio começaram a planejar a mudança para a cidade, a fim de que os filhos em idade escolar estudassem em uma escola regular.Conseguiram uma casa na Trizidela e mudaram em janeiro de 1950.

Na década de 50 a mulher já conquistara muitas coisas mas, ainda acumulava as funções de dona-de-casa, esposa e mãe.

Em nossa querida Itapecuru, não era diferente do resto do mundo. Sem escolas além do primário as mães preparavam as filhas para serem donas de casa. Os pais que tinham condições financeiras suficientes mandavam os filhos estudarem na capital e até em outro Estado ou país.

Após concluir o primário em 1959 e fazer o preparatório para o exame de admissão, com o professor João Rodrigues, tendo meu pai como aliado, fui para São Luís morar com uma tia para fazer o ginásio. Mas, não queria sobrecarregá-los com as despesas que isso ia gerar. Sem eles saberem arranjei um emprego no comércio e passei a estudar a noite. Quando os dois descobriram queriam-me de volta à casa paterna. Consegui convencê-los de que precisava continuar estudando.

Esta foto foi feita para minha carteira de estudante, em março de 1960, faltando dois meses para os dezesseis anos. Concluído o ano letivo, meu primo, José de Arimateia, filho da minha tia Maria Matos de Sousa, irmã da minha mãe, pediu-me a carteirinha de lembrança. Deixei com ele.

Passado algum tempo, minha tia mudou-se para Recife. Passei anos sem saber notícias deles e esqueci a tal carteira. Casei-me, fui com a família para São Paulo, depois para Santa Catarina. Lá fiz o curso de Letras e após dez anos voltei para São Luís.

Numa viagem de estudos com a equipe pedagógica do Colégio Marista, em Recife, visitei os parentes que já não via há quase 20 anos. Na ocasião fiquei sabendo que meu primo falecera em um acidente. Minha tia me entregou um envelope: Isso é teu e de Maria. É a tua carteira de estudante e uma foto da tua irmã.

Abri o envelope, lá estava minha velha carteirinha de estudante da primeira série do ginásio, no Colégio São Luís, com uma foto 2x2. A única que me restara até aquela idade, após uma enchente que invadiu a nossa casa.

A foto era pequenina e estava muito danificada, mesmo assim guardei. Em 2001, quando escrevi meu livro “Trajetória” queria uma foto da época em que conhecera Amilcar, meu primeiro marido, só tinha aquela. Mandei ampliar numa casa de fotos e coloquei ao lado da foto dele quando chegou ao Brasil. Apesar do esforço do editor para melhorá-la, continuava com as marcas do tempo.

Há dez anos, minha neta caçula recuperou a foto que está no perfil.

-

Praia do Anil, 30 de junho de 2020.

Benedita Silva de Azevedo.

www.beneditaazevedo.com

 

 

 

 


Publicado por Benedita Azevedo em 08/07/2020 às 22h53
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21/06/2020 16h33
Meus Haicais enviados para o ICBJ- RJ - Instituto Cultural Brasil Japão

 

Meus haicais enviados para o ICBJ- RJ (Instituto cultural Brasil Japão).

Dia do Nikkei

 

1- Perseverança –

-

Após tanto tempo

à espera da lua cheia...

Ei-la entre as nuvens.

 

Muita paciência

em tempos de corona vírus...

Fique em casa!

-

2 - Integridade

-

A luta da vida

não admite talvez—

Foco e coerência.

-

Mendigo devolve

bolsa com dez mil reais...

caída na rua.

-

Se os netos   mentirem,

adeus credibilidade –

Avó exigente.

-

Cadela e os filhotes

Sob o mesmo cobertor

junto com  mendigo.

-

3- Coletividade

-

As aulas gratuitas

de haicai feitas nos grêmios...

satisfação “ no dô.

-

Colheita do trigo,

do cacho ao consumidor.

pão para todos.

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Cooperativa –

Cada um com seu trabalho

para o bem de todos.

-

Tal as formigas

Que trabalham em pelotão...

sociedade produtiva.

-

ATENÇÃO!

Estes 2 haicais da minha autoria foram glosados e,  aparece em live do dia do Nikkei com autoria de outa pessoa, assim:

Tal as formigas

que trabalham em pelotão...

para o bem de todos.

----------------------------------------------------

Colheita de arroz

em grandes mulherões –

Todos por todos!

-

4 - Respeito:

-

Já aposentado...

Professor reúne alunos

para o kendai.

-

Visita ao asilo...

Ler, ouvir as histórias

e sorrisos de idosos!

-

Dia de finados—

Flores, orações e lágrimas

na campa dos pais.

-

Silêncio da tarde –

Para saudação ao mestre

canto da cigarra

-

Arrastão no mar –

Dois homens devolvem à água

pequenos siris.

-

Culto das imagens –

O turista esqueceu-se

do seu veranear.

-

5 – Gratidão

 

Garoa insistente –

Abraçadinho na rua

Casal de idosos.

-

Ao romper da aurora

O sabiá dobra seu canto –

Só isso me basta.

-

Domingo de Ramos –

A procissão acompanha

O padre e a Santa.

 

6 - Gentileza

Noitinha invernal—

A neta faz chá de hortelã

para o avô.

-

Semente de cravo

Chegando pelo correio

Presente da amiga.

-

Tarde primaveril –

O carteiro também trás

Um largo sorriso.

-

7- Educação

-

Início das aulas –

Com o sorriso dos mestres

os pais se despedem.

-

Livro e borboleta

abertos na escrivaninha –

Convite à leitura.

-

Responsabilidade

-

Varando a noite

estuda pro vestibular...

A neta caçula.

-

Praia de Mau-a, Magé – RJ

08 de junho de 2020.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Publicado por Benedita Azevedo em 21/06/2020 às 16h33
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17/09/2019 02h43
EDITAL DE PUBLICAÇÃO -

 

ACLAM - Academia de Ciências, Letras e Artes e Magé

Fundada em 24 de setembro de 2011.

Casa de Aluísio Azevedo e Ney de Lima.

CELEBRANDO A CULTURA DE MAGÉ

.

CAROS CONFRADES E CONFREIRAS DA ACLAM!

 

Vamos celebrar a “Cultura Mageense” em prosa, verso e arte. Uma antologia, onde você poderá escrever sobre sua cidade, sua história, sua gente, seus artistas, seus escritores...

-

1. Faremos 100 livros: 16x23 papel pólen, capa 4 cores, 100 páginas. Com ISBN e código de barras.

2. Quem pode participar? Autores da ACLAM.

3. Cada página custará 30,00. O mínimo são 2 páginas para cada autor. Uma para foto e biografia e outra para o texto. O autor receberá 2 livros por página.

4. Texto em prosa: 32 linhas por página: conto, crônica, histórico e/ou letra de música.

5. Poesias: qualquer forma de poesia, também com, no máximo, 32 linhas.

6. Por este preço, o livro poderá ter foto de trabalhos somente em preto e branco.

7. Tema livre. Vetado (política e pornográfico)

8. São 50 páginas disponíveis para os autores. Nas 50 restantes  publicaremoa o histórico dos 8 anos de fundação da ACAM (por Benedita Azevedo).

9.  Data para envio do material, até 15 de outubro 2019  pelo e-mail: benedita_azevedo@yahoo.com.br

10. Lançamento dia 21 de dezembro - NO ALMOÇO DE CONFRATERNIZAÇÃO

LOCAL: Rua Carlos Franco, 179, Praia de Mauá, Magé-Rj, às 12horas

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Conta / depósito para a antologia.

BRADESCO

Agência 1546-6

C/c 10332-2

(Benedita Silva de Azevedo)

Envie o comprovante pelo Messenger ou  WHATSAPP

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Praia do Anil, 21/07/2019

Benedita Azevedo

(Presidente do Conselho de recuperação da ACLAM)

 


Publicado por Benedita Azevedo em 17/09/2019 às 02h43
 
21/05/2019 19h50
3º Renga - homenagem aos 12 anos do Grêmio Haicai Sabiá.

Praia do Anil, Magé - RJ, 26 de junho de 2018, às 09:22

Bom dia caríssimos haijins!

Vamos começar o renga em homenagem aos 12 anos de existência do Grêmio Haicai Sabiá, daqueles que o inciaram e de todos que dele participam!

VIVA O HAICAI BRASILEIRO!

O Grêmio Haicai Sabiá, o primeiro do Estado do Rio de Janeiro, foi fundado em 17 e 18 de junho de 2006, na Praia do Anil, Magé - Rj. Compareceram ao cerimonial de fundação, haicaístas e coordenadores do Grêmio Haicai Ipê de São Paulo, e autoridades locais.

Dia 18 de junho de 2018, completamos 12 anos. Os atuais membros prestaram homenagem com a composição de um renga. Iniciado dia 26 de junho, às 09:22 e concluído dia 29, às 17:40.

Gratidão a todos os participantes!

Emi (恵美) Benedita Azevedo

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I - PRIMEIRO RENGA DO GRÊMIO HAICAI SABIÁ.

Homenagem ao 12º Aniversário

Título - Primeira Estrela - Condução: Regina Alonso

Inverno.

01

Início do inverno –

nas oficinas do Grêmio o

calor da amizade.

................Benedita Azevedo

02

A brancura das camélias

na manhã ensolarada.

.................Carlos Martins

03

Finzinho de tarde –

Feita pelo sol de inverno

a sombra do abraço.

.............Marco Aurélio Goulart

04

Na escuridão da trilha

viajante solitário.

................Regina Alonso

05

O pio da coruja

dentro da madrugada -

Névoa de inverno

.................Rose Mendes

06

Ao longe cobre a montanha

o brilho dos cristais de gelo

...............Clarinha Sznifer

07

Sob velhas cobertas –

Criancinha pede colo

para se aquecer.

................Sandra Hiraga

08

Não se ouve pio de pássaro

no arvoredo vizinho

............... Severino José

09

Que dia curto –

Me esqueço de recolher

a roupa do varal

.................Álvaro Posselt

10

Na silhueta da serra

surge a primeira estrela

.............Gustavo Terra

Primavera.

11-

Primavera chega

mas o que vejo ainda?

manacás floridos

............Elisa Campos

12

Pela porta entreaberta

o bolo recém-assado

............

Natalia Yamane

13

Barulho de moto

e o vento abrindo a cortina –

Primavera fria

............Benedita Azevedo.

14

Sons de violino espalham

velhas canções na névoa

.............Clarinha Sznifer

15

Pintam a calçada

flores de jacarandá –

florzinha na sombra

...............Guilherme Henrique Sanches Fisher

16

Caminhando pela via

um senhor com seu cão guia

................Maria Lima

17

Lá vão os pardais

revoando pela praça

ao cair da tarde

...............Rose Mendes

18

Quase fim de primavera

e a dama-da-noite reina...

...............Maria Lima

19

Flores do canteiro

no cabelo da menina --

Ipê amarelo.

.............Marco Aurélio Goulart

20

Um último beija-flor

coleta néctar na tarde

..............Carlos Martins

Verão

21

A noite se estende –

Eis que a Lua de verão

ocupa o cenário

..........Fiore Carlos

22

Debruçado na janela

casal em troca de afagos

............Marco Aurélio Goulart

23

Brilha o sol de estio –

gaivotas aboletadas

na praia deserta

..............Nilza Azzi

24

Miro faceiro além,

pós-horizonte sem-fim.

.............Fernando Azevedo Brito

25

Fogos de Ano Novo

explodem cores e apagam –

estrelas perduram

...............Guilherme Henrique Sanches Fisher

26

Como uma bênção me sobe

cheiro da terra molhada

..............Severino José

27

Porteira da casa.

Flores de cássia imperial

colorem a grama.

................Benedita Azevedo

28

Do retorno da viagem

compota de abacaxi

................Natalia Yamane

Outono

29

Na rua deserta,

folhas rolam pelo chão —

Começo de Outono.

..................Nilza Azzi

30

Um aroma de café

chama para uma pausa.

...............Sandra Hiraga

31

Surpresa na sala

em voo rasante ela!

borboleta de outono

............Clarinha Sznifer

32

num retrato na estante

vem pousar a saudade

...............Severino José

33

Perto... tão perto

acima do casarão

a Lua de outono

.............. Rose Mendes

34

Vem com a brisa de outono

o cheiro do mato verde

..............Maria Lima

35

Tão longe se espalha

o canto dos camponeses –

colheita de algodão

..............Regina Alonso

36

Se distanciam na trilha,

caminhantes e risadas

............Carlos Martins

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Inverno de 2018

Praia do Anil, 29 de junho, às 17: 40

Emi (恵美) Benedita Azevedo

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Créditos:

Condução: Regina Alonso.

Colaboração: Carlos Martins.

Coordenação: Benedita Azevedo.

FOTO:

Valdir Peyceré

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Participantes:

Alvaro Posselt, Benedita Azevedo, Carlos Martins, Clara Szanifer, Elisa Campos, Fernando Azevedo de Brito, Fiore Carlos, Guilherme Henrique Sanches Fisher, Gustavo Terra, Marco Aurélio Goulart, Maria Lima, Natalia Yamane, Nilza Azzi, Regina Alonso, Rose Mendes, Sandra Hiraga e Severino José.

Gratidão a todos os participantes!

EMI Benedita Azevedo

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Renga em Homenagem ao 12º Aniversário do 'Sabiá'

Comentários - Regina Alonso e Carlos Martins

Título - Primeira Estrela

 

Inverno

01-Início do inverno –

nas oficinas do Grêmio o

calor da amizade. Benedita Azevedo

 

O renga se inicia com muita sensibilidade e de forma apropriada ao tempo de inverno, chamando os haicaístas para aquecer os dias com o calor da amizade, que se consolida a cada encadeamento das estrofes. Os haijins olham os versos que o precedem, e no agora irão aproximar/ afastar, como as ondas que se renovam a cada movimento e não voltam.

 

02-A brancura das camélias

na manhã ensolarada. Carlos Martins

 

A cor das camélias traz o branco que nos remete à paz que há de reinar entre os poetas, nesta manhã de luz plena, claridade da natureza, que sutilmente, reforça o 'calor da amizade' da estrofe anterior e dá andamento ao renga, sem voltar ao que foi dito.

03-

Finzinho de tarde –

Feita pelo sol de inverno

a sombra do abraço. Marco Aurélio Goulart

O renga avança com o sol de inverno ao fim da tarde e 'a sombra do abraço' é verso belo e sutil que aprimora o encadeamento: a 'sombra' aponta para o escuro (medo? tristeza?) que virá, enquanto o 'abraço' traz a acolhida, afeto (oposições ricas na tessitura do poema)

04-

Na escuridão da trilha

viajante solitário. Regina Alonso

O abraço faz-se em despedida e lá se vai o viajante só pela trilha, pois o caminho se faz caminhando, ainda que na escuridão já prevista na estrofe 03, mas sem voltar, levando o renga e o caminhante.

05-

O pio da coruja

dentro da madrugada -

Névoa de inverno Rose Mendes

O encadeamento se faz com sensibilidade: é madrugada, escuro intenso, desce a névoa e o pio da coruja corta o espaço por onde trilha o viajante. Aproximação sem colar no dístico anterior, intensificando (pio da coruja e névoa) a solidão do homem – tudo (apenas) é natureza, afinal.

06-

Ao longe cobre a montanha

o brilho dos cristais de gelo Clarinha Sznifer

Hora de distanciar mais – o haijin traz o gelo em cristais brilhantes –O brilho é luz que se contrapõe ao escuro da estrofe 05, mas o frio, o gélido também é belo (brilho) e leva o renga adiante.

Carlos Martins acrescenta: Impressionante!

Se quiséssemos regrar o renga com o andamento clássico, não faríamos tão perfeito. Mestre Goga divide o renga haikai em 4 seções de 6 / 12 / 12 /6 estrofes (Jane Reichhold junta as intermediárias em uma seção de 24) e diz que a primeira deve ser suave, com motivos de alegria.

Foi exatamente o que fizemos nas 6 primeiras. O “rio do renga” fluiu da manhã, passando pela tarde, alcançando a noite e entrando madrugada adentro, no alto dela e, no romper da aurora.

Maravilha!!!

Posso estar enganado pelo noviciado no renga, mas os encadeamentos estão totalmente adequados!

07-

Sob velhas cobertas –

Criancinha pede colo

para se aquecer. Sandra Hiraga

A liga entre as estrofes acontece pela relação da criança com o outro, ao sentir frio no inverno rigoroso e propor o calor do corpo (humano), que as cobertas não trazem.

Aqui sentimos compaixão e penso em Bashô, que em sua viagem acolheu a todos (prostitutas, pulgas...)

08-

Não se ouve pio de pássaro

no arvoredo vizinho Severino José

Momento de extrema solidão e silêncio, mudança do ritmo anterior. Tudo agora 'congela', mas não para: podemos imaginar que não ouvimos o pio do pássaro, porque ele fugiu e se escondeu no arvoredo em busca de proteção.

09-

Que dia curto –

Me esqueço de recolher

a roupa do varal Álvaro Posselt

A estrofe 'quebra' a imagem anterior, pois o dia é curto, invernal, mas o homem está em casa, acolhido, aquecido e... até se esquece de recolher a roupa do varal, pois correu para dentro de casa para fugir do desconforto. Essa 'fuga' de fora para dentro dá andamento ao renga.

Essa imagem da fuga do fora para dentro está condizente com a circunspecção do inverno, acrescenta Carlos Martins.

10 -

Na silhueta da serra

surge a primeira estrela Gustavo Terra

A "Primeira Estrela"(que dá nome ao renga) surge como anunciação da esperança, do término da frieza do inverno para a alegria da Primavera. A estrela com seu brilho leva o renga... Belíssimo a estrela (primeira) surgir na silhueta da serra: a serra ainda não está nítida, é só um contorno, mas a luz já se faz para mostrar o 'novo' caminho.

Carlos Martins nos enriquece com sua observação: Este encadeamento achei uma aula, de tão didático. No dia curto a noite chega antes e esse fato faz com que a primeira estrela seja notada, o fato não passa despercebido.

Primavera

11-

Primavera chega

mas o que vejo ainda?

manacás floridos Elisa Campos

O inesperado, a surpresa que as estações nos fazem – é Primavera, mas ainda vemos 'manacás', que a rigor é kigo de outono – no entanto, nada é tão fixo, rigoroso e alguns manacás (e espécies de outras estações) ainda estão floridos. Aqui percebemos o limiar da passagem de uma para outra estação, quando o que foi ainda deixa vestígios. E assim caminhamos, na impermanência do tempo, das estações...

Análise perfeita, na opinião de Carlos Martins, que acrescenta: A relatividade das estações entre nós expõe a impermanência da impermanência, ou seja, das próprias estações. E mais, que o haicai entre nós deve ser mais suave, talvez menos rigoroso no regramento, para que o haijin capte as nuanças da transição das estações, que não são acentuadas como no Japão.

12-

Pela porta entreaberta

o bolo recém assado Natalia Yamane

Tudo é recente, fim de uma estação e começo de outra. O bolo recém assado supõe celebração, espera de alguém que virá, de longe, talvez pisando flores de manacá e saudando a primavera, alegria de fora comemorada dentro de casa para acolher quem chega. Tudo é partir, chegar, partir... tudo é caminhar e o renga vai.

13-

Barulho de moto

e o vento abrindo a cortina –

Primavera fria Benedita Azevedo

Estações mudam. Mudam dentro de si mesmas e, com sensibilidade , o haijin traz o barulho de moto e o vento frio de Primavera na sutileza da cortina que esvoaça - alguém que chega? alguém que parte? alguém que passa? E continuamos a caminhada, sempre em frente, sem voltar ou parar.

14-

Sons de violino espalham

velhas canções na névoa Clarinha Sznifer

Os versos nos levam (e ao renga) para fora, na transparência e mistério que a névoa de primavera traz e que se intensifica ao som do violino: velhas canções sugerem saudade, menos agitação e movimento do que o trazido pela estrofe anterior (vento, moto). A música espalha canções na névoa e o andamento se faz com suavidade – quebra sutil entre as duas estrofes, sem paralisar.

15-

Pintam a calçada

flores de jacarandá –

florzinha na sombra Guilherme Henrique Sanches Fisher

Lá fora, a força e beleza das flores que colorem a calçada. Visualizamos a copa alta, imensa em sua floração. Intensidade rompida pela florzinha delicada na sombra, só uma, minúscula e delicada. Talvez num canto do chão, ou quem sabe, florzinha que restou num galho e ainda não foi ao chão. Ao vigor contrapõe-se a suavidade que carrega adiante o renga.

16-

Caminhando pela via

um senhor com seu cão guia Maria Lima

Suavidade pressupõe ternura e pela via o cão é companheiro do homem. Animal e ser humano juntos, natureza em harmonia – o animal é a visão do senhor, que vê o caminho pelos olhos do cão. E segue.

17-

Lá vão os pardais

revoando pela praça

ao cair da tarde Rose Mendes

Nesta estrofe, observamos intensificação do movimento, que na anterior é mais brando , pelo caminhar do homem dependente do cão guia. Entendemos que os pardais estão na tarde de primavera, em revoada, trinando alegremente, denunciando acasalamentos. Pardais que estão onde o homem está, fazendo ninhos nas casas. Assim, a alegria da primavera simbolizada pelos pardais leva o renga adiante com júbilo.

18-

Quase fim de primavera

e a dama da noite reina... Maria Lima

O verão já se insinua no perfume da dama da noite que se faz sentir. A primavera está quase no fim, momento em que se cruzam kigos dessa estação com os da estação que a sucede. As estações (o tempo, a vida) não começam e terminam exatamente nas datas anunciadas (estas são apenas critérios para registrar o início ou fim das características que marcam aquele ciclo de 3 meses cada). O imprevisível faz parte do caminho.

19-

Flores do canteiro

no cabelo da menina --

Ipê amarelo. Marco Aurélio Goulart

Passagem linda da estrofe 18 para a 19, trazendo a flor do ipê caída no canteiro para enfeitar o cabelo da menina. A flor no chão indica fim, queda, morte, mas no cabelo da menina traz beleza e simplicidade à morte, como parte natural do círculo inexorável do tempo viver-morrer.

20-

Um último beija-flor

coleta néctar na tarde Carlos Martins

Tudo é vida. Tudo é morte. O beija-flor (o último da primavera que finda) ainda colhe o néctar, o gozo, o deleite no último momento da estação que se vai e leva junto o renga.

Verão

21-

A noite se estende –

Eis que a Lua de verão

ocupa o cenário Fiore Carlos

A lua se ilumina e traz sensação de frescor, chamando todos para fora, para o desfrute desse prazer, desse viço, que preenche toda paisagem. Faz-se longa a noite...

22-

Debruçado na janela

casal em troca de afagos Marco Aurélio Goulart

A noite é longa fora e dentro: o casal se debruça à janela e na frescura da noite, troca carinhos. O tempo escoa e leva o renga.

23-

Brilha o sol de estio –

gaivotas aboletadas

na praia deserta Nilza Azzi

Já é dia. O sol de verão é muito quente – só as gaivotas ficam imóveis na praia. Silêncio, solidão, rompe a imagem anterior (estrofe 22) – o casal passou a noite em claro? o casal dorme até mais tarde? – e a estrofe 23 encadeia sem grudar, devagar...

24 -

Miro faceiro além,

pós-horizonte sem-fim. Fernando Azevedo Brito

Alguém de longe (de alguma casa, da calçada, do carro?) olha além do horizonte, que no calor infernal (da praia deserta) parece não ter fim. O olhar é alegre, antevendo o que virá (será algo ligado ao contentamento, à esperança?) liga as estrofes e avança.

25-

Fogos de Ano Novo

explodem cores e apagam –

estrelas perduram Guilherme Henrique Sanches Fisher

A alegria se concretiza no romper do Ano Novo, trazendo esperança e dando andamento ao renga pela contraposição do efêmero (fogos em cores se apagam) ao eterno (estrelas perduram).

26-

Como uma bênção me sobe

cheiro da terra molhada Severino José

A chuva traz no cheiro da terra molhada, a bênção para o homem. Parece-me que acontece um novo batismo feito naturalmente, celebrando a unidade homem e terra (natureza). A graça conduz o renga (e o homem) no caminho natural (viver-morrer e vice-versa).

27-

Porteira da casa.

Flores de cássia imperial

colorem a grama. Benedita Silva de Azevedo

A natureza celebra o batismo de água na terra e explode em flores. O homem pisa a grama bordada de flores amarelas, chega em casa, ao aconchego e à beleza da alegria primaveril e do convívio.

28-

Do retorno da viagem

compota de abacaxi Natalia Yamane

A viagem de verão chega ao fim. Da colheita farta preparamos o excesso para que perdure, do mesmo jeito que conduzimos nossa vida. Previdentes, dos abacaxis, fazemos compota. Alimento que nos fortalece e adoça para a caminhada.

Outono

29-

Na rua deserta,

folhas rolam pelo chão —

Começo de Outono. Nilza Azzi

Parece-nos ouvir o barulho das folhas secas a anunciar, com melancolia, a nova estação. Sentimento de decadência acompanha os caminhantes.

30-

Um aroma de café

chama para uma pausa. Sandra Hiraga Yoshimura

O café quentinho é acolhida. O renga nos remete para dentro, para que no calor da casa, nos aquietemos. Afinal, temos sentimento de que esfriamos junto com a natureza, então buscamos o calor.

31-

Surpresa na sala

em voo rasante ela!

borboleta de outono Clarinha Sznifer

Quanta compaixão a borboleta de outono nos traz! Ela nos impele para a frente com seu exemplo: apesar da fragilidade, não deixa de voar. E o renga vai.

32-

num retrato na estante

vem pousar a saudade Severino José

Há forte amarração com a estrofe 31. Talvez estejamos na sala, mas já mudamos nosso ponto de observação, Na contemplação caminhamos dentro de nós mesmos e do outro. Retrato é imagem que aviva nossa memória na lembrança de quem está longe ou, partiu para sempre... quem sabe?

33-

Perto... tão perto

acima do casarão

a Lua de outono Rose Mendes

Encadeamento primoroso. A Lua de outono, que está tão longe, faz-se perto, tão perto, quando está acima do casarão, casa-abrigo-morada do (im)possível – e podemos 'tocar' a Lua.

34-

Vem com a brisa de outono

o cheiro do mato verde Maria Lima

O mato verde (o que está fora) cheira. A brisa de outono carrega a fragrância, que se espalha fora e dentro. E nos leva –"O caminho se faz caminhando"... "sem esquentar duas vezes a mesma esteira". Somos o caminho? (Somos o renga?)

35-

Tão longe se espalha

o canto dos camponeses –

colheita de algodão Regina Alonso

E de longe da terra (onde o mato verde cheira /estrofe 34), vem o canto dos camponeses a celebrar a colheita. Brancura do algodão, que traz a pureza do homem do campo, no rude (e amoroso) trabalho de preparar a terra, semeá-la e esperar com paciência e fé, o tempo da alegria, quando acontece a colheita. A canção é sopro que leva o renga.

Esse canto que se espalha não será, também, o próprio “kasen” que se materializa na colheita de estrofes feita pelos haijins? Adorável esta questão colocada por Carlos Martins, pois a canção é ritmo, leva... daí, é o próprio 'kasen'...

E se é o homem quem canta, o 'kasen' será o próprio homem?

36-

Se distanciam na trilha,

caminhantes e risadas Carlos Martins

A referência desta estrofe final à estrofe inicial é forte e sutil - na abertura, a chamada para o fazer poético solidário e no fechamento, percebemos que os caminhantes são os haijins, que vão rindo, felizes, porque terminaram a trilha, o renga e... cumpriram-se

Carlos Martins fecha o 'kasen' e nos privilegia ao compartilhar: Em um ouroborus* poético, encerra-se o “kasen”, com completude: início, meio e fim.

O renga-haikai, assemelha-se à “jornada do herói” mítica: os haijins iniciam-na com um grau de conhecimento e sensibilidade que vão aprimorando à medida que o encadeamento das estrofes se sucede, até que, na 36ª retornam ao ponto de partida. Entretanto, não retornam como partiram, mas, sim, renovados, com o haicai mais aprofundado e, principalmente, seguros para repassar o que aprenderam.

* Ouroboros ou Oroboro - criatura mitológica, uma serpente que engole a própria cauda formando um círculo, que simboliza o ciclo da vida, o infinito, a mudança, o tempo, a evolução, a fecundação, o nascimento, a morte, a ressurreição, a criação, a destruição, a renovação.

Comentário final

Gratidão a Benedita Silva de Azevedo (EMI), coordenadora do 'Sabiá', pela confiança e acolhida; ao Carlos Martins, que me ajudou e tornou possível conduzir o Renga 'Primeira Estrela', fazendo observações, dando sugestões, orientações necessárias e atendendo meu pedido para ler o comentário final e acrescentar o que fosse pertinente. Gustavo Terra, gratidão pela generosidade de compartilhar suas 'aleluias' e esclarecimento sobre as estações em que ocorrem.

Agradeço em especial aos haijins do Grêmio Haicai Sabiá pelo fazer coletivo com respeito à participação de todos e, pela humildade de aceitar sugestões com naturalidade e muita vontade de fazer o melhor, percebendo que somos o caminho e nunca 'estamos prontos'.

Aprendo muito no fazer 'aberto', com regras que não engessam, priorizando a poesia e não a métrica, a forma. Obrigada, hoje e sempre.

Regina Alonso/Inverno, 2018

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Agradecemos a Regina Alonso e ao Carlos Martins pela excelente condução e comentários do renga "PRIMEIRA ESTRELA". Aos membros do Grêmio Haicai Sabiá que atenderam ao convite, e a todos que nos acompanharam nesta caminhada coletiva, nestes doze anos de semeadura do haicai brasileiro, quer presencial ou virtual. Aos colegas professores: Demétrio Sena, Iraí Verdan, Maria Madalena Ferreira e Regina Célia de Andrade que atenderam ao convite que fiz para compor o Grêmio Haicai Sabiá, sem os quais não teríamos começado. Aos membros do Grêmio Haicai Ipê, que nos prestigiaram na fundação e aos mestres Edson Iura e Teruko Oda que vieram de tão longe nos mostrar como deveriam ser organizadas as reuniões e até trouxeram cópias dos mapas de votação.

Meu eterno agradecimento a todos que me permitiram, com o apoio do companheirismo e amizade, esta caminhada no aprendizado constante do haicai.

Inverno de 2018

Praia do Anil, Magé - RJ

EMI Benedita Azevedo.

Foto da Praia do Anil: Valdir Peyceré.


Publicado por Benedita Azevedo em 21/05/2019 às 19h50
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