Haicai, Verso e Prosa

Letras e Sentimentos

Meu Diário
21/05/2019 19h50
3º Renga - homenagem aos 12 anos do Grêmio Haicai Sabiá.

Praia do Anil, Magé - RJ, 26 de junho de 2018, às 09:22

Bom dia caríssimos haijins!

Vamos começar o renga em homenagem aos 12 anos de existência do Grêmio Haicai Sabiá, daqueles que o inciaram e de todos que dele participam!

VIVA O HAICAI BRASILEIRO!

O Grêmio Haicai Sabiá, o primeiro do Estado do Rio de Janeiro, foi fundado em 17 e 18 de junho de 2006, na Praia do Anil, Magé - Rj. Compareceram ao cerimonial de fundação, haicaístas e coordenadores do Grêmio Haicai Ipê de São Paulo, e autoridades locais.

Dia 18 de junho de 2018, completamos 12 anos. Os atuais membros prestaram homenagem com a composição de um renga. Iniciado dia 26 de junho, às 09:22 e concluído dia 29, às 17:40.

Gratidão a todos os participantes!

Emi (恵美) Benedita Azevedo

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I - PRIMEIRO RENGA DO GRÊMIO HAICAI SABIÁ.

Homenagem ao 12º Aniversário

Título - Primeira Estrela - Condução: Regina Alonso

Inverno.

01

Início do inverno –

nas oficinas do Grêmio o

calor da amizade.

................Benedita Azevedo

02

A brancura das camélias

na manhã ensolarada.

.................Carlos Martins

03

Finzinho de tarde –

Feita pelo sol de inverno

a sombra do abraço.

.............Marco Aurélio Goulart

04

Na escuridão da trilha

viajante solitário.

................Regina Alonso

05

O pio da coruja

dentro da madrugada -

Névoa de inverno

.................Rose Mendes

06

Ao longe cobre a montanha

o brilho dos cristais de gelo

...............Clarinha Sznifer

07

Sob velhas cobertas –

Criancinha pede colo

para se aquecer.

................Sandra Hiraga

08

Não se ouve pio de pássaro

no arvoredo vizinho

............... Severino José

09

Que dia curto –

Me esqueço de recolher

a roupa do varal

.................Álvaro Posselt

10

Na silhueta da serra

surge a primeira estrela

.............Gustavo Terra

Primavera.

11-

Primavera chega

mas o que vejo ainda?

manacás floridos

............Elisa Campos

12

Pela porta entreaberta

o bolo recém-assado

............

Natalia Yamane

13

Barulho de moto

e o vento abrindo a cortina –

Primavera fria

............Benedita Azevedo.

14

Sons de violino espalham

velhas canções na névoa

.............Clarinha Sznifer

15

Pintam a calçada

flores de jacarandá –

florzinha na sombra

...............Guilherme Henrique Sanches Fisher

16

Caminhando pela via

um senhor com seu cão guia

................Maria Lima

17

Lá vão os pardais

revoando pela praça

ao cair da tarde

...............Rose Mendes

18

Quase fim de primavera

e a dama-da-noite reina...

...............Maria Lima

19

Flores do canteiro

no cabelo da menina --

Ipê amarelo.

.............Marco Aurélio Goulart

20

Um último beija-flor

coleta néctar na tarde

..............Carlos Martins

Verão

21

A noite se estende –

Eis que a Lua de verão

ocupa o cenário

..........Fiore Carlos

22

Debruçado na janela

casal em troca de afagos

............Marco Aurélio Goulart

23

Brilha o sol de estio –

gaivotas aboletadas

na praia deserta

..............Nilza Azzi

24

Miro faceiro além,

pós-horizonte sem-fim.

.............Fernando Azevedo Brito

25

Fogos de Ano Novo

explodem cores e apagam –

estrelas perduram

...............Guilherme Henrique Sanches Fisher

26

Como uma bênção me sobe

cheiro da terra molhada

..............Severino José

27

Porteira da casa.

Flores de cássia imperial

colorem a grama.

................Benedita Azevedo

28

Do retorno da viagem

compota de abacaxi

................Natalia Yamane

Outono

29

Na rua deserta,

folhas rolam pelo chão —

Começo de Outono.

..................Nilza Azzi

30

Um aroma de café

chama para uma pausa.

...............Sandra Hiraga

31

Surpresa na sala

em voo rasante ela!

borboleta de outono

............Clarinha Sznifer

32

num retrato na estante

vem pousar a saudade

...............Severino José

33

Perto... tão perto

acima do casarão

a Lua de outono

.............. Rose Mendes

34

Vem com a brisa de outono

o cheiro do mato verde

..............Maria Lima

35

Tão longe se espalha

o canto dos camponeses –

colheita de algodão

..............Regina Alonso

36

Se distanciam na trilha,

caminhantes e risadas

............Carlos Martins

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Inverno de 2018

Praia do Anil, 29 de junho, às 17: 40

Emi (恵美) Benedita Azevedo

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Créditos:

Condução: Regina Alonso.

Colaboração: Carlos Martins.

Coordenação: Benedita Azevedo.

FOTO:

Valdir Peyceré

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Participantes:

Alvaro Posselt, Benedita Azevedo, Carlos Martins, Clara Szanifer, Elisa Campos, Fernando Azevedo de Brito, Fiore Carlos, Guilherme Henrique Sanches Fisher, Gustavo Terra, Marco Aurélio Goulart, Maria Lima, Natalia Yamane, Nilza Azzi, Regina Alonso, Rose Mendes, Sandra Hiraga e Severino José.

Gratidão a todos os participantes!

EMI Benedita Azevedo

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Renga em Homenagem ao 12º Aniversário do 'Sabiá'

Comentários - Regina Alonso e Carlos Martins

Título - Primeira Estrela

 

Inverno

01-Início do inverno –

nas oficinas do Grêmio o

calor da amizade. Benedita Azevedo

 

O renga se inicia com muita sensibilidade e de forma apropriada ao tempo de inverno, chamando os haicaístas para aquecer os dias com o calor da amizade, que se consolida a cada encadeamento das estrofes. Os haijins olham os versos que o precedem, e no agora irão aproximar/ afastar, como as ondas que se renovam a cada movimento e não voltam.

 

02-A brancura das camélias

na manhã ensolarada. Carlos Martins

 

A cor das camélias traz o branco que nos remete à paz que há de reinar entre os poetas, nesta manhã de luz plena, claridade da natureza, que sutilmente, reforça o 'calor da amizade' da estrofe anterior e dá andamento ao renga, sem voltar ao que foi dito.

03-

Finzinho de tarde –

Feita pelo sol de inverno

a sombra do abraço. Marco Aurélio Goulart

O renga avança com o sol de inverno ao fim da tarde e 'a sombra do abraço' é verso belo e sutil que aprimora o encadeamento: a 'sombra' aponta para o escuro (medo? tristeza?) que virá, enquanto o 'abraço' traz a acolhida, afeto (oposições ricas na tessitura do poema)

04-

Na escuridão da trilha

viajante solitário. Regina Alonso

O abraço faz-se em despedida e lá se vai o viajante só pela trilha, pois o caminho se faz caminhando, ainda que na escuridão já prevista na estrofe 03, mas sem voltar, levando o renga e o caminhante.

05-

O pio da coruja

dentro da madrugada -

Névoa de inverno Rose Mendes

O encadeamento se faz com sensibilidade: é madrugada, escuro intenso, desce a névoa e o pio da coruja corta o espaço por onde trilha o viajante. Aproximação sem colar no dístico anterior, intensificando (pio da coruja e névoa) a solidão do homem – tudo (apenas) é natureza, afinal.

06-

Ao longe cobre a montanha

o brilho dos cristais de gelo Clarinha Sznifer

Hora de distanciar mais – o haijin traz o gelo em cristais brilhantes –O brilho é luz que se contrapõe ao escuro da estrofe 05, mas o frio, o gélido também é belo (brilho) e leva o renga adiante.

Carlos Martins acrescenta: Impressionante!

Se quiséssemos regrar o renga com o andamento clássico, não faríamos tão perfeito. Mestre Goga divide o renga haikai em 4 seções de 6 / 12 / 12 /6 estrofes (Jane Reichhold junta as intermediárias em uma seção de 24) e diz que a primeira deve ser suave, com motivos de alegria.

Foi exatamente o que fizemos nas 6 primeiras. O “rio do renga” fluiu da manhã, passando pela tarde, alcançando a noite e entrando madrugada adentro, no alto dela e, no romper da aurora.

Maravilha!!!

Posso estar enganado pelo noviciado no renga, mas os encadeamentos estão totalmente adequados!

07-

Sob velhas cobertas –

Criancinha pede colo

para se aquecer. Sandra Hiraga

A liga entre as estrofes acontece pela relação da criança com o outro, ao sentir frio no inverno rigoroso e propor o calor do corpo (humano), que as cobertas não trazem.

Aqui sentimos compaixão e penso em Bashô, que em sua viagem acolheu a todos (prostitutas, pulgas...)

08-

Não se ouve pio de pássaro

no arvoredo vizinho Severino José

Momento de extrema solidão e silêncio, mudança do ritmo anterior. Tudo agora 'congela', mas não para: podemos imaginar que não ouvimos o pio do pássaro, porque ele fugiu e se escondeu no arvoredo em busca de proteção.

09-

Que dia curto –

Me esqueço de recolher

a roupa do varal Álvaro Posselt

A estrofe 'quebra' a imagem anterior, pois o dia é curto, invernal, mas o homem está em casa, acolhido, aquecido e... até se esquece de recolher a roupa do varal, pois correu para dentro de casa para fugir do desconforto. Essa 'fuga' de fora para dentro dá andamento ao renga.

Essa imagem da fuga do fora para dentro está condizente com a circunspecção do inverno, acrescenta Carlos Martins.

10 -

Na silhueta da serra

surge a primeira estrela Gustavo Terra

A "Primeira Estrela"(que dá nome ao renga) surge como anunciação da esperança, do término da frieza do inverno para a alegria da Primavera. A estrela com seu brilho leva o renga... Belíssimo a estrela (primeira) surgir na silhueta da serra: a serra ainda não está nítida, é só um contorno, mas a luz já se faz para mostrar o 'novo' caminho.

Carlos Martins nos enriquece com sua observação: Este encadeamento achei uma aula, de tão didático. No dia curto a noite chega antes e esse fato faz com que a primeira estrela seja notada, o fato não passa despercebido.

Primavera

11-

Primavera chega

mas o que vejo ainda?

manacás floridos Elisa Campos

O inesperado, a surpresa que as estações nos fazem – é Primavera, mas ainda vemos 'manacás', que a rigor é kigo de outono – no entanto, nada é tão fixo, rigoroso e alguns manacás (e espécies de outras estações) ainda estão floridos. Aqui percebemos o limiar da passagem de uma para outra estação, quando o que foi ainda deixa vestígios. E assim caminhamos, na impermanência do tempo, das estações...

Análise perfeita, na opinião de Carlos Martins, que acrescenta: A relatividade das estações entre nós expõe a impermanência da impermanência, ou seja, das próprias estações. E mais, que o haicai entre nós deve ser mais suave, talvez menos rigoroso no regramento, para que o haijin capte as nuanças da transição das estações, que não são acentuadas como no Japão.

12-

Pela porta entreaberta

o bolo recém assado Natalia Yamane

Tudo é recente, fim de uma estação e começo de outra. O bolo recém assado supõe celebração, espera de alguém que virá, de longe, talvez pisando flores de manacá e saudando a primavera, alegria de fora comemorada dentro de casa para acolher quem chega. Tudo é partir, chegar, partir... tudo é caminhar e o renga vai.

13-

Barulho de moto

e o vento abrindo a cortina –

Primavera fria Benedita Azevedo

Estações mudam. Mudam dentro de si mesmas e, com sensibilidade , o haijin traz o barulho de moto e o vento frio de Primavera na sutileza da cortina que esvoaça - alguém que chega? alguém que parte? alguém que passa? E continuamos a caminhada, sempre em frente, sem voltar ou parar.

14-

Sons de violino espalham

velhas canções na névoa Clarinha Sznifer

Os versos nos levam (e ao renga) para fora, na transparência e mistério que a névoa de primavera traz e que se intensifica ao som do violino: velhas canções sugerem saudade, menos agitação e movimento do que o trazido pela estrofe anterior (vento, moto). A música espalha canções na névoa e o andamento se faz com suavidade – quebra sutil entre as duas estrofes, sem paralisar.

15-

Pintam a calçada

flores de jacarandá –

florzinha na sombra Guilherme Henrique Sanches Fisher

Lá fora, a força e beleza das flores que colorem a calçada. Visualizamos a copa alta, imensa em sua floração. Intensidade rompida pela florzinha delicada na sombra, só uma, minúscula e delicada. Talvez num canto do chão, ou quem sabe, florzinha que restou num galho e ainda não foi ao chão. Ao vigor contrapõe-se a suavidade que carrega adiante o renga.

16-

Caminhando pela via

um senhor com seu cão guia Maria Lima

Suavidade pressupõe ternura e pela via o cão é companheiro do homem. Animal e ser humano juntos, natureza em harmonia – o animal é a visão do senhor, que vê o caminho pelos olhos do cão. E segue.

17-

Lá vão os pardais

revoando pela praça

ao cair da tarde Rose Mendes

Nesta estrofe, observamos intensificação do movimento, que na anterior é mais brando , pelo caminhar do homem dependente do cão guia. Entendemos que os pardais estão na tarde de primavera, em revoada, trinando alegremente, denunciando acasalamentos. Pardais que estão onde o homem está, fazendo ninhos nas casas. Assim, a alegria da primavera simbolizada pelos pardais leva o renga adiante com júbilo.

18-

Quase fim de primavera

e a dama da noite reina... Maria Lima

O verão já se insinua no perfume da dama da noite que se faz sentir. A primavera está quase no fim, momento em que se cruzam kigos dessa estação com os da estação que a sucede. As estações (o tempo, a vida) não começam e terminam exatamente nas datas anunciadas (estas são apenas critérios para registrar o início ou fim das características que marcam aquele ciclo de 3 meses cada). O imprevisível faz parte do caminho.

19-

Flores do canteiro

no cabelo da menina --

Ipê amarelo. Marco Aurélio Goulart

Passagem linda da estrofe 18 para a 19, trazendo a flor do ipê caída no canteiro para enfeitar o cabelo da menina. A flor no chão indica fim, queda, morte, mas no cabelo da menina traz beleza e simplicidade à morte, como parte natural do círculo inexorável do tempo viver-morrer.

20-

Um último beija-flor

coleta néctar na tarde Carlos Martins

Tudo é vida. Tudo é morte. O beija-flor (o último da primavera que finda) ainda colhe o néctar, o gozo, o deleite no último momento da estação que se vai e leva junto o renga.

Verão

21-

A noite se estende –

Eis que a Lua de verão

ocupa o cenário Fiore Carlos

A lua se ilumina e traz sensação de frescor, chamando todos para fora, para o desfrute desse prazer, desse viço, que preenche toda paisagem. Faz-se longa a noite...

22-

Debruçado na janela

casal em troca de afagos Marco Aurélio Goulart

A noite é longa fora e dentro: o casal se debruça à janela e na frescura da noite, troca carinhos. O tempo escoa e leva o renga.

23-

Brilha o sol de estio –

gaivotas aboletadas

na praia deserta Nilza Azzi

Já é dia. O sol de verão é muito quente – só as gaivotas ficam imóveis na praia. Silêncio, solidão, rompe a imagem anterior (estrofe 22) – o casal passou a noite em claro? o casal dorme até mais tarde? – e a estrofe 23 encadeia sem grudar, devagar...

24 -

Miro faceiro além,

pós-horizonte sem-fim. Fernando Azevedo Brito

Alguém de longe (de alguma casa, da calçada, do carro?) olha além do horizonte, que no calor infernal (da praia deserta) parece não ter fim. O olhar é alegre, antevendo o que virá (será algo ligado ao contentamento, à esperança?) liga as estrofes e avança.

25-

Fogos de Ano Novo

explodem cores e apagam –

estrelas perduram Guilherme Henrique Sanches Fisher

A alegria se concretiza no romper do Ano Novo, trazendo esperança e dando andamento ao renga pela contraposição do efêmero (fogos em cores se apagam) ao eterno (estrelas perduram).

26-

Como uma bênção me sobe

cheiro da terra molhada Severino José

A chuva traz no cheiro da terra molhada, a bênção para o homem. Parece-me que acontece um novo batismo feito naturalmente, celebrando a unidade homem e terra (natureza). A graça conduz o renga (e o homem) no caminho natural (viver-morrer e vice-versa).

27-

Porteira da casa.

Flores de cássia imperial

colorem a grama. Benedita Silva de Azevedo

A natureza celebra o batismo de água na terra e explode em flores. O homem pisa a grama bordada de flores amarelas, chega em casa, ao aconchego e à beleza da alegria primaveril e do convívio.

28-

Do retorno da viagem

compota de abacaxi Natalia Yamane

A viagem de verão chega ao fim. Da colheita farta preparamos o excesso para que perdure, do mesmo jeito que conduzimos nossa vida. Previdentes, dos abacaxis, fazemos compota. Alimento que nos fortalece e adoça para a caminhada.

Outono

29-

Na rua deserta,

folhas rolam pelo chão —

Começo de Outono. Nilza Azzi

Parece-nos ouvir o barulho das folhas secas a anunciar, com melancolia, a nova estação. Sentimento de decadência acompanha os caminhantes.

30-

Um aroma de café

chama para uma pausa. Sandra Hiraga Yoshimura

O café quentinho é acolhida. O renga nos remete para dentro, para que no calor da casa, nos aquietemos. Afinal, temos sentimento de que esfriamos junto com a natureza, então buscamos o calor.

31-

Surpresa na sala

em voo rasante ela!

borboleta de outono Clarinha Sznifer

Quanta compaixão a borboleta de outono nos traz! Ela nos impele para a frente com seu exemplo: apesar da fragilidade, não deixa de voar. E o renga vai.

32-

num retrato na estante

vem pousar a saudade Severino José

Há forte amarração com a estrofe 31. Talvez estejamos na sala, mas já mudamos nosso ponto de observação, Na contemplação caminhamos dentro de nós mesmos e do outro. Retrato é imagem que aviva nossa memória na lembrança de quem está longe ou, partiu para sempre... quem sabe?

33-

Perto... tão perto

acima do casarão

a Lua de outono Rose Mendes

Encadeamento primoroso. A Lua de outono, que está tão longe, faz-se perto, tão perto, quando está acima do casarão, casa-abrigo-morada do (im)possível – e podemos 'tocar' a Lua.

34-

Vem com a brisa de outono

o cheiro do mato verde Maria Lima

O mato verde (o que está fora) cheira. A brisa de outono carrega a fragrância, que se espalha fora e dentro. E nos leva –"O caminho se faz caminhando"... "sem esquentar duas vezes a mesma esteira". Somos o caminho? (Somos o renga?)

35-

Tão longe se espalha

o canto dos camponeses –

colheita de algodão Regina Alonso

E de longe da terra (onde o mato verde cheira /estrofe 34), vem o canto dos camponeses a celebrar a colheita. Brancura do algodão, que traz a pureza do homem do campo, no rude (e amoroso) trabalho de preparar a terra, semeá-la e esperar com paciência e fé, o tempo da alegria, quando acontece a colheita. A canção é sopro que leva o renga.

Esse canto que se espalha não será, também, o próprio “kasen” que se materializa na colheita de estrofes feita pelos haijins? Adorável esta questão colocada por Carlos Martins, pois a canção é ritmo, leva... daí, é o próprio 'kasen'...

E se é o homem quem canta, o 'kasen' será o próprio homem?

36-

Se distanciam na trilha,

caminhantes e risadas Carlos Martins

A referência desta estrofe final à estrofe inicial é forte e sutil - na abertura, a chamada para o fazer poético solidário e no fechamento, percebemos que os caminhantes são os haijins, que vão rindo, felizes, porque terminaram a trilha, o renga e... cumpriram-se

Carlos Martins fecha o 'kasen' e nos privilegia ao compartilhar: Em um ouroborus* poético, encerra-se o “kasen”, com completude: início, meio e fim.

O renga-haikai, assemelha-se à “jornada do herói” mítica: os haijins iniciam-na com um grau de conhecimento e sensibilidade que vão aprimorando à medida que o encadeamento das estrofes se sucede, até que, na 36ª retornam ao ponto de partida. Entretanto, não retornam como partiram, mas, sim, renovados, com o haicai mais aprofundado e, principalmente, seguros para repassar o que aprenderam.

* Ouroboros ou Oroboro - criatura mitológica, uma serpente que engole a própria cauda formando um círculo, que simboliza o ciclo da vida, o infinito, a mudança, o tempo, a evolução, a fecundação, o nascimento, a morte, a ressurreição, a criação, a destruição, a renovação.

Comentário final

Gratidão a Benedita Silva de Azevedo (EMI), coordenadora do 'Sabiá', pela confiança e acolhida; ao Carlos Martins, que me ajudou e tornou possível conduzir o Renga 'Primeira Estrela', fazendo observações, dando sugestões, orientações necessárias e atendendo meu pedido para ler o comentário final e acrescentar o que fosse pertinente. Gustavo Terra, gratidão pela generosidade de compartilhar suas 'aleluias' e esclarecimento sobre as estações em que ocorrem.

Agradeço em especial aos haijins do Grêmio Haicai Sabiá pelo fazer coletivo com respeito à participação de todos e, pela humildade de aceitar sugestões com naturalidade e muita vontade de fazer o melhor, percebendo que somos o caminho e nunca 'estamos prontos'.

Aprendo muito no fazer 'aberto', com regras que não engessam, priorizando a poesia e não a métrica, a forma. Obrigada, hoje e sempre.

Regina Alonso/Inverno, 2018

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Agradecemos a Regina Alonso e ao Carlos Martins pela excelente condução e comentários do renga "PRIMEIRA ESTRELA". Aos membros do Grêmio Haicai Sabiá que atenderam ao convite, e a todos que nos acompanharam nesta caminhada coletiva, nestes doze anos de semeadura do haicai brasileiro, quer presencial ou virtual. Aos colegas professores: Demétrio Sena, Iraí Verdan, Maria Madalena Ferreira e Regina Célia de Andrade que atenderam ao convite que fiz para compor o Grêmio Haicai Sabiá, sem os quais não teríamos começado. Aos membros do Grêmio Haicai Ipê, que nos prestigiaram na fundação e aos mestres Edson Iura e Teruko Oda que vieram de tão longe nos mostrar como deveriam ser organizadas as reuniões e até trouxeram cópias dos mapas de votação.

Meu eterno agradecimento a todos que me permitiram, com o apoio do companheirismo e amizade, esta caminhada no aprendizado constante do haicai.

Inverno de 2018

Praia do Anil, Magé - RJ

EMI Benedita Azevedo.

Foto da Praia do Anil: Valdir Peyceré.


Publicado por Benedita Azevedo em 21/05/2019 às 19h50
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26/07/2018 21h57
Como surgiram os Grêmios de Haicai Sabiá e Águas de Março?

I Parte - texto 1

.

Histórico dos Grêmios de Haicai Sabiá e Águas de Março.

(Por Benedita Azevedo)

 

     Tudo começou quando em 2000, lancei meu primeiro livro “Voltando a viver”. Fiz vários lançamentos no mês de julho. No início do segundo semestre fui surpreendida em sala de aula por um chamado da diretora Maria Aparecida Alonso, à secretaria.

      A secretária portadora da missiva ficou com os alunos enquanto eu seguia, um tanto preocupada com tal convocação. A diretora foi ao meu encontro na porta da sala, me pegou pela mão e me conduziu ao fundo da sala e me apresentou a um senhor baixo, cabelos grisalhos, com meu livro na mão:

         - Professora este é o escritor José Inaldo Alonso, da Academia Niteroiense de Letras e da Academia Mageense de Letras. Ele leu seu livro e que conhecê-la. Leve-o até a sala dos professores e fiquem à vontade.

         Ele se apresentou como professor de história aposentado e escritor. Disse que gostara do meu livro e viera de Niterói a Magé me fazer o convite a participar do Grupo Mônaco de Literatura. As reuniões seriam aos sábados das 10:00 às 12:00h, na Papelaria Ideal.

         Ao comparecer à reunião, soube que teria o lançamento do livro da escritora Lena Jesus Ponte: “Na trança do tempo”- haicai, na semana seguinte. Nunca tinha lido um haicai. Conhecia apenas a definição: poema de forma fixa, composto  em 3 versos e 17 sílabas.

         Ganhei do José Alonso um livro de presente, com a dedicatória da autora. Em casa li todos os poemetos e gostei muito. Mas quando li, ao final, o texto “Uma poesia Imigrante”, senti que estava na minha área preferida: História da Literatura. A forma e o metro, Pimentel fez questão de explicar. O primeiro exemplo que aparece no pequeno ensaio é o de Guilherme de Almeida:

O haicai

Lava, escorre, agita

A areia. E enfim, na bateia,

Fica uma pepita.

 

Logo adiante surgia o de Matsuo Bashô, com essa tradução. Eu não conhecia o autor, nem o haicai:

 

Na velha lagoa

Pro fundo uma rã mergulha.

Barulho das águas.

 

A seguir, o haicai de Antônio Luís Pimentel, a mais bela definição de haicais que conheço:

 

Que é um haicai?

É o cintilar das estrelas

Num pingo de orvalho.

 

Gostei dos haicais da Lena, especialmente deste:

 

Tece a aranha a teia.

A trama do seu tecido

A tudo se liga.

 

     Na mesma data, ganhei de Luiz Antônio Pimentel, o livro de Vinicius Sauerbronn “Poesia budista” no qual consta o  artigo “Gênese do haicai”  de Pimentel.

 

Neste estudo ele fala da waka, poesia típica que vem desde a era dos deuses (Kamiyo-Jidai), quando o Japão era todo um céu. Foi sem dúvida alguma, Susano-Wo-no-Mikoto, irmão do Deusa Sol, fundadora do império do Sol Nascente, quem compôs a primeira waka que não se perdeu através dos séculos.

         Assim falou o primeiro poeta que a história do Japão consagrou:

 

“Yagumo tatsu

Izumo yaegaki

Tzumagomi ni

Yaegaki tsukuru

Sono Yaegaki wo”

 

Ou seja em português:

 

“Andei oito nuvens

Até as terras de Izumo...

Ergui oito muros

- um castelo de oito muros,

Para guardar minha amada.

 

     A waka, que tem na parte superior versos de cinco, sete, cinco sílabas, e na parte inrerior, dois vrsos de sete, somando ao todo trinta e uma sílabas, é também chamada Shikishima-no-michi, que quer dizer: à maneira de Shikishima (nome antigo do Japão, ou anida Yamato uta, poema japonês.

 

     Há mais de mil e cem anos foi publicada a primeira obra clássica de waka, intitulada Manyo-shu, primorosa coletânea de poesias feitas por de todas as castas, desde imperadores até soldados e agricultores, que ainda em nossos dias é editada, lida e comentada pelo seu grande valor como documento histórico. Os poetas máximos dessa época foram Hitomaro, Akahito, Okura, Yakamochi e outros.

     Mais tarde, na Era do Imperador Daigo (ano 922 da nossa era) foi compilada uma outra coletânea, ou melhor, uma antologia não menos notável, intitulada Kokin-shu (coletânea de antigas e novas wakas), de onde selecionaram os cem poemas célebres que estão ornamentando as cartas usadas para jogar durante os dias festivos do Ano-Novo no Japão.

     Essa nova obra veio enriquecer sobremaneira a poesia japonesa, lançando nomes como Tsurayuki, Narahira e a poetisa Komachi que marcou época no Império das Cerejeiras em Flor, ficando famosa, não somente pelo seu talento invejável, pela sua inspiração divina, mas, principalmente, por sua incomparável beleza. Seu nome ainda hoje no Japão é empregado como sinônimo de mulher bela e talentosa.

     Daí por diante, várias séries de waka, surgiram, mas já sob o controle do Governo, sem contudo lograr o sucesso marcante, definitivo, absoluto, das publicações anteriores.

     Na Era Meiji, em que o imperador só de 1893 a 1901 produziu nada menos que 27.000 wakas, surge Shiki Massaoka, dando novos rumos, emprestando à waka novas normas, afastando-a um pouco dos moldes demasiadamente clássicos, cristalizados, viciados,  gastos através dos séculos. Foi quando se projetou a famosa poetisa Akiko e o poeta Takuboku liderando outros nomes que, igualmente, ficaram gravados para sempre na história da poesia japonesa.

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     A minha convivência com Antônio Pimentel, no Grupo Mônaco, e a leitura desses dois primeiros livros onde conheci o assunto foram o início do meu interesse pelo haicai. Mas, como ainda lecionava 60h/aula por semana, não pude dedicar-me como gostaria. Entretanto, comecei a escrever meus tercetos  e mostrar a ele, que lia e conferia as sílabas.  Lancei meu primeiro livro, sem ainda conhecer a cultura do kigo.

     Luiz Antônio Pimentel tornou-se um grande amigo. Foi ele quem me falou do Nippo Brasil e me passou o endereço eletrônico da coluna para enviar os haicais: zashi@nippobrasil.com.br

     Em 30 de maio de 2004, com o kigo “Arrebol de outono”, foram publicados meue primeiros haicais:

 

Início da noite.

Na esquina da praia

o arrebol de outono.

 

Praia de Mauá.

O arrebol de outono vê-se

No espelho das águas.

 

Em maio de 2005 foram publicados mais dois dos meus haicais:

 

Nas flores do beijo,

Gotas de orvalho cintilam

Logo de manhã.

 

Na casca do milho,

Para o café da manhã

Gostosas pamonhas.

 

Nunca mais parei de compor haicais tradicionais ou clássicos. E criei o “Projeto Haicai na Escola” lançado em outubro de 2004, para levar o haicai às crianças. (Próxima publicação)

Inverno de 2018

EMI (恵美)Benedita Azevedo

 

 


Publicado por Benedita Azevedo em 26/07/2018 às 21h57
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19/03/2018 16h40
Casa de Jamil Munbarak

A casa de Jamil Munbarak

       A Casa São Pedro, construída em 1942, por Bernardo Thiago de Mattos, quando resolveu urbanizar a cidade de Itapecuru Mirim. Lá passou a funcionar o comércio de secos e molhados de Jamil Munbarak, que mais tarde, em 1948, construiu ao lado, sua residência, segundo anotações, no texto de Jucey Santana.

       Era uma das casas onde fazíamos compras. Princippalmente, os aviamentos para mamãe que era costureira. Quando não tinha na casa de Helena, como era conhecida a Casa São Pedro, comprávamos na casa de Mundiquinho Mendes, na Rua do Egito.

        Os irmãos Jamil e Helena Munbarak eram os padrinhos de minha irmã caçula, Maria do Socorro. Não sei precisar a data, mas lembro quando Jamil se casou. Eu era pequena, doze ou treze anos. Um dia entrei com mamãe no comércio. Ela cumprimentou o compadre e parabenizou-o pelo casamento. A esposa estava com ele no comércio e foi apresentada à comadre.

        Ele pediu à esposa que mostrasse a casa para mamãe. Saímos do comércio e entramos na residência. Nos fundos, após uma área interna, contornamos uma pilha de tijolos, para chegarmos aonde estavam sendo construídos novas dependêcias para Helena e Nazaré, já em fase de conclusão. 

       As duas irmãs se revezavam no Comércio, ao lado do irmão. Após o casamento, mesmo Maud sendo professora no Grupo Escolar Gomes de Sousa, eu a vi muitas vezes, ao lado do marido trabalhando na Casa São Pedro.

      Em 2011, numa das minhas idas a Itapecuru, fiquei hospedada no Hotel Brasil, X com a Casa São Pedro. A cor, o letreiro, as portas, tudo continuava como sempre! Tive curiosidade de saber como estavam aquelas pessoas que eu conhecia há tanto tempo, e fui visitá-los! Lá estavam Jamil e Maud no comércio. Perguntei a eles se lembravam de mim e disse meu nome:  Sou Benedita. Na hora, ele falou: Você não é a filha do compadre Euzébio e da comadre Rosinha que foi para o sul? Diante da minha confirmação ele começou a contar a história da morte do meu irmão, em 1954, quando eu tinha dez anos. Na conversa ele falou da tristeza que sentiu quando soube da morte de meus pais: mamãe em 09/12/93 e Papai em 07/04/96.

      No dia seguinte, voltei com Jucey Santana, que eu acabara de conhecer e andava pesquisando a vida de Mariana Luz. Jamil sabia de tudo. Parecia uma enciclopédia. Os olhos brilhavam diante das nossas perguntas.

      Antes de sairmos, tiramos fotos do casal e nossas.  Ele me disse: Vem aqui amanhã que quero te mostrar os instrumentos de tortura da época da escravidão.

     No dia seguinte, voltei, tirei fotos dos objetos e foi o último contato que tive com os amigos.

     Ao retornar, em 2016, a casa estava fechada. O casal estava em São Luís em tratamento de saúde! E agora, esta notícia de que a casa será demolida! Sangra meu coração!

Benedita Azevedo

Rio de Janeiro, 19 de março de 2018

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Publicado por Benedita Azevedo em 19/03/2018 às 16h40
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22/02/2018 14h37
Feitos de Afrânio Peixoto, na Medicina e nas Letras

“Para quem teve o privilégio de conhecê-lo, como eu o conheci, em longo convívio, quase dia a dia, houve dois Afrânio: um que se transferiu para seus livros; outro, que não se separou do próprio Afrânio, e que o acompanhava aos salões, aos encontros de rua, às conferências e às salas de aula. O segundo, sem dúvida alguma, era maior que o primeiro. Porque os livros não conseguiam captar e guardar todo o fulgor da inteligência do mestre baiano, que dava de si, com todo o brilho, no improviso de uma palestra ou de uma conversa.”

[MONTELLO citado por

VENÂNCIO FILHO, 2007, p. 8].

 

 

Terceiro ocupante da Cadeira 7, eleito em 7 de maio de 1910, na sucessão de Euclides da Cunha e recebido em 14 de agosto de 1911 pelo Acadêmico Araripe Júnior. Recebeu os Acadêmicos Osvaldo Cruz em 26 de junho de 1913,Aloísio de Castro em 15 de abril de 1919 e Alcântara Machado em 4 de outubro de 1933. Foi sucedido por Afonso Pena Júnior.

Afrânio Peixoto (Júlio A. P.), médico legista, político, professor, crítico, ensaísta, romancista, historiador literário, nasceu em Lençóis, nas Lavras Diamantinas, BA, em 17 de dezembro de 1876, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 12 de janeiro de 1947.

Foram seus pais o capitão Francisco Afrânio Peixoto e Virgínia de Morais Peixoto. O pai, comerciante e homem de boa cultura, transmitiu ao filho os conhecimentos que auferiu ao longo de sua vida de autodidata. Criado no interior da Bahia, cujos cenários constituem a situação de muitos dos seus romances, sua formação intelectual se fez em Salvador, onde se diplomou em Medicina, em 1897, como aluno laureado. Sua tese inaugural, Epilepsia e crime, despertou grande interesse nos meios científicos do país e do exterior. Em 1902, a chamado de Juliano Moreira, mudou-se para o Rio, onde foi inspetor de Saúde Pública (1902) e Diretor do Hospital Nacional de Alienados (1904). Após concurso, foi nomeado professor de Medicina Legal da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (1907) e assumiu os cargos de professor extraordinário da Faculdade de Medicina (1911); diretor da Escola Normal do Rio de Janeiro (1915); diretor da Instrução Pública do Distrito Federal (1916); deputado federal pela Bahia (1924-1930); professor de História da Educação do Instituto de Educação do Rio de Janeiro (1932). Reitor da Universidade do Distrito Federal, em 1935. Após 40 anos de relevantes serviços à formação das novas gerações de seu país, aposentou-se.

Sua estreia na literatura se deu dentro da atmosfera do simbolismo, com a publicação, em 1900, do drama Rosa mística, curioso e original drama em cinco atos, luxuosamente impresso em Leipzig, com uma cor para cada ato. O próprio autor renegou essa obra, anotando, no exemplarexistente na Biblioteca da Academia, a observação: “incorrigível. Só o fogo.” Entre 1904 e 1906 viajou por vários países da Europa, com o propósito de ali aperfeiçoar seus conhecimentos no campo de sua especialidade, aliando também a curiosidade de arte e turismo ao interesse do estudo. Nessa primeira viagem à Europa travou conhecimento, a bordo, com a família de Alberto de Faria, futuro acadêmico, da qual viria a fazer parte, sete anos depois, ao casar-se com Francisca de Faria Peixoto. Quando da morte de Euclides da Cunha (1909), foi Afrânio Peixoto quem fez o laudo de autópsia.

Ao vir ao Rio, seu pensamento era de apenas ser médico, tanto que deixara de incursionar pela literatura após a publicação de Rosa mística. Sua obra médico-legal-científica avolumava-se. O romance foi uma implicação a que o autor foi levado em decorrência de sua eleição para a Academia Brasileira de Letras, para a qual fora eleito à revelia, quando se achava no Egito, em sua segunda viagem ao exterior. Começou a escrever o romance A esfinge, o que fez em três meses antes da posse em 14 de agosto de 1911. O Egito inspirou-lhe o título e a trama novelesca, o eterno conflito entre o homem e a mulher que se querem, transposto para o ambiente requintado da sociedade carioca, com o então tradicional veraneio em Petrópolis, as conversas do mundanismo, versando sobre política, negócios da Bolsa, assuntos literários, artísticos e viagens ao exterior. Em certo momento, no capítulo “O Barro Branco”, conduz o personagem principal, Paulo, a uma cidade do interior, em visita a familiares, ali residentes. Demonstra-nos Afrânio, nessas páginas, os aspectos da força telúrica com que impregnou sua obra novelesca. O romance, publicado em 1911, obteve um sucesso incomum e colocou seu autor em posto de destaque na galeria dos ficcionistas brasileiros. Na trilogia de romances regionalistas Maria Bonita (1914) Fruta do mato (1920) e Bugrinha (1922). Entre os romances urbanos escreveu “As razões do coração” (1925), “Uma mulher como as outras” (1928) e “Sinhazinha”(1929).

Afrânio Peixoto, foi o primeiro autor brasileiro de haicai. Em 1919, através de seu livro Trovas Populares Brasileiras, prefaciou suas impressões a respeito do poema japonês e publicou cinco haicais comparando a trova brasileira com o haicai japonês.

“Os japoneses possuem uma forma elementar de arte, mais simples ainda que a nossa trova popular: é o haikai, palavra que nós ocidentais não sabemos traduzir senão com ênfase, é o epigrama lírico. São tercetos breves, versos de cinco, sete e cinco pés, ao todo dezessete sílabas. Nesses moldes vazam, entretanto, emoções, imagens, comparações, sugestões, suspiros, desejos, sonhos... de encanto intraduzível"

[Peixoto.Afrânio, in Trovas Brasileiras, págs. 13 - 14, W.M. Jacson, INC. Editores, Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, 1944]

 Foi, ainda, Afrânio Peixoto, que fez a primeira referência textual do haikai em forma de ensaio,“O  HAIKAI JAPONÊS OU EPIGRAMA LÌRICO” na revista Excelsior,  janeiro de 1928, p, 18 - 20. Mais tarde esse artigo foi utilizado no seu livro “Missangas”– Poesia e Folklore, publicado em 1931, pela Companhia Editora Nacional, Rua dos Gusmões,26-28 São Paulo – Brasil, 1931.

         Naquela época, em que respirava os ares "verde-amarelo"do Movimento Modernista Pei-xoto defendia a naturalização do Hai-Kai. Dizia ele:

"Em francês, inglês, alemão aparecem haikais. Dir-se-á que assim não devera ser, e ao Japão os devíamos deixar. Então o epigrama ficaria heleno, a sátira romana, o romance novo-latino, o soneto italiano, a balada, a canção, o conto... seriam privativos de certos povos e não universais formas de arte... O haikai merece naturalização".

Para incitar os poetas nacionais, tão fáceis de obter maravilhas de adoção, o mais íntimo dos meus amigos lhes oferece esta recolta de haicais brasileiros, como se lhes desse kakis de Barbacena ou de São Paulo, já naturalizados, escreveu no ensaio "O haikai japonês ou epigrama lírico"                              [Missangas p. 239]

“Peixoto disse ainda: Bashô, o mestre de todos os grandes líricos japoneses do “haikai”, trinou: “Na composição não se vá compor de mais”. Perder-se-ia o natural. Que vossos pequenos poemas venham do coração”.

 

Dotado de personalidade fascinante, irradiante, animadora, além de ser um grande causeur e um primoroso conferencista, conquistava pessoas e auditórios pela palavra inteligente e encantadora. Como sucesso de crítica e prestígio popular, poucos escritores se igualaram na época a Afrânio Peixoto.

Na Academia, teve também intensa atividade. Pertenceu à Comissão de Redação da Revista (1911-1920); à Comissão de Bibliografia (1918) e à Comissão de Lexicografia (1920 e 1922). Presidente da Casa de Machado de Assis em 1923, promoveu, junto ao embaixador da França, Alexandre Conty, a doação pelo governo francês do palácio Petit Trianon, construído para a Exposição da França no Centenário da Independência do Brasil. Em 1923 criou a Biblioteca de Cultura Nacional dividida em : História, Literatura, Dispersos e Biobibliográfica, iniciando esta série com a biografia de Castro Alves. Em sua homenagem a coleção passou a ter o nome de Coleção Afrânio Peixoto.

Como ensaísta escreveu importantes estudos sobre Camões, Castro Alves e Euclides da Cunha.Em 1941 visitou a terra natal, Bahia, depois de 30 anos de ausência e publicou 2 livros: “Breviário da Bahia” (1945) e “Livro de Horas” (1947).

Afrânio Peixoto procurou resumir sua biografia o seu intenso labor intelectual exercido na cátedra e nas centenas de obras que publicou em dois versos: “Estudou e escreveu, nada mais lhe aconteceu.”

Era membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, da Academia das Ciências de Lisboa; da Academia Nacional de Medicina Legal, do Instituto de Medicina de Madri e de outras instituições.

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Praia do Anil, 28/05/2015  

[Benedita Silva de Azevedo]

 

 

 

 

 

 

 


Publicado por Benedita Azevedo em 22/02/2018 às 14h37
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11/02/2018 10h54
Trilha Errante de Bashô

                (Alberto Marsicano)

 

Matsuo Bashô nasceu em 1644 em Ueno, pequena cidade japonesa da província de Iga. Seu pai, Matsuo Yozaemon, era um samurai a serviço do shogunato da família Todo que vivia como professor de caligrafia. (Existe grande similitude entre a arte da espada (Ken-dô) e a arte da caligrafia (Sho-dô). Mas a sorte de Bashô estaria traçada aos nove anos, ao tornar-se amigo do jovem Todo Yoshimada, herdeiro do poderoso clã. Ambos são iniciados na arte da poesia, sob a orientação de Kitamura Kigin (1624-1705) discípulo do renomado Teitoku. Bashô adota o nome literário de Sobo e seu companheiro de Sengin. Estudam com este mestre anos a fio a caligrafia, a poética japonesa e o verso clássico chinês. O primeiro haikai de Bashô data de 1662 quando contava com 18 anos.

.

haru ya koshi

toshi ya yukiken

kotsugomori

.

chegou a primavera

ou se foi o ano velho?

véspera do ano novo.

.

Referência: MATSUO Bashô, Trilha Estreita ao Confin ( tradução: Kimi Takenata, Alberto Marsicano), São Paulo, Iluminuras, 1997


Publicado por Benedita Azevedo em 11/02/2018 às 10h54
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