Haicai, Verso e Prosa

Letras e Sentimentos

Meu Diário
26/07/2018 21h57
Como surgiram os Grêmios de Haicai Sabiá e Águas de Março?

I Parte - texto 1

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Histórico dos Grêmios de Haicai Sabiá e Águas de Março.

(Por Benedita Azevedo)

 

     Tudo começou quando em 2000, lancei meu primeiro livro “Voltando a viver”. Fiz vários lançamentos no mês de julho. No início do segundo semestre fui surpreendida em sala de aula por um chamado da diretora Maria Aparecida Alonso, à secretaria.

      A secretária portadora da missiva ficou com os alunos enquanto eu seguia, um tanto preocupada com tal convocação. A diretora foi ao meu encontro na porta da sala, me pegou pela mão e me conduziu ao fundo da sala e me apresentou a um senhor baixo, cabelos grisalhos, com meu livro na mão:

         - Professora este é o escritor José Inaldo Alonso, da Academia Niteroiense de Letras e da Academia Mageense de Letras. Ele leu seu livro e que conhecê-la. Leve-o até a sala dos professores e fiquem à vontade.

         Ele se apresentou como professor de história aposentado e escritor. Disse que gostara do meu livro e viera de Niterói a Magé me fazer o convite a participar do Grupo Mônaco de Literatura. As reuniões seriam aos sábados das 10:00 às 12:00h, na Papelaria Ideal.

         Ao comparecer à reunião, soube que teria o lançamento do livro da escritora Lena Jesus Ponte: “Na trança do tempo”- haicai, na semana seguinte. Nunca tinha lido um haicai. Conhecia apenas a definição: poema de forma fixa, composto  em 3 versos e 17 sílabas.

         Ganhei do José Alonso um livro de presente, com a dedicatória da autora. Em casa li todos os poemetos e gostei muito. Mas quando li, ao final, o texto “Uma poesia Imigrante”, senti que estava na minha área preferida: História da Literatura. A forma e o metro, Pimentel fez questão de explicar. O primeiro exemplo que aparece no pequeno ensaio é o de Guilherme de Almeida:

O haicai

Lava, escorre, agita

A areia. E enfim, na bateia,

Fica uma pepita.

 

Logo adiante surgia o de Matsuo Bashô, com essa tradução. Eu não conhecia o autor, nem o haicai:

 

Na velha lagoa

Pro fundo uma rã mergulha.

Barulho das águas.

 

A seguir, o haicai de Antônio Luís Pimentel, a mais bela definição de haicais que conheço:

 

Que é um haicai?

É o cintilar das estrelas

Num pingo de orvalho.

 

Gostei dos haicais da Lena, especialmente deste:

 

Tece a aranha a teia.

A trama do seu tecido

A tudo se liga.

 

     Na mesma data, ganhei de Luiz Antônio Pimentel, o livro de Vinicius Sauerbronn “Poesia budista” no qual consta o  artigo “Gênese do haicai”  de Pimentel.

 

Neste estudo ele fala da waka, poesia típica que vem desde a era dos deuses (Kamiyo-Jidai), quando o Japão era todo um céu. Foi sem dúvida alguma, Susano-Wo-no-Mikoto, irmão do Deusa Sol, fundadora do império do Sol Nascente, quem compôs a primeira waka que não se perdeu através dos séculos.

         Assim falou o primeiro poeta que a história do Japão consagrou:

 

“Yagumo tatsu

Izumo yaegaki

Tzumagomi ni

Yaegaki tsukuru

Sono Yaegaki wo”

 

Ou seja em português:

 

“Andei oito nuvens

Até as terras de Izumo...

Ergui oito muros

- um castelo de oito muros,

Para guardar minha amada.

 

     A waka, que tem na parte superior versos de cinco, sete, cinco sílabas, e na parte inrerior, dois vrsos de sete, somando ao todo trinta e uma sílabas, é também chamada Shikishima-no-michi, que quer dizer: à maneira de Shikishima (nome antigo do Japão, ou anida Yamato uta, poema japonês.

 

     Há mais de mil e cem anos foi publicada a primeira obra clássica de waka, intitulada Manyo-shu, primorosa coletânea de poesias feitas por de todas as castas, desde imperadores até soldados e agricultores, que ainda em nossos dias é editada, lida e comentada pelo seu grande valor como documento histórico. Os poetas máximos dessa época foram Hitomaro, Akahito, Okura, Yakamochi e outros.

     Mais tarde, na Era do Imperador Daigo (ano 922 da nossa era) foi compilada uma outra coletânea, ou melhor, uma antologia não menos notável, intitulada Kokin-shu (coletânea de antigas e novas wakas), de onde selecionaram os cem poemas célebres que estão ornamentando as cartas usadas para jogar durante os dias festivos do Ano-Novo no Japão.

     Essa nova obra veio enriquecer sobremaneira a poesia japonesa, lançando nomes como Tsurayuki, Narahira e a poetisa Komachi que marcou época no Império das Cerejeiras em Flor, ficando famosa, não somente pelo seu talento invejável, pela sua inspiração divina, mas, principalmente, por sua incomparável beleza. Seu nome ainda hoje no Japão é empregado como sinônimo de mulher bela e talentosa.

     Daí por diante, várias séries de waka, surgiram, mas já sob o controle do Governo, sem contudo lograr o sucesso marcante, definitivo, absoluto, das publicações anteriores.

     Na Era Meiji, em que o imperador só de 1893 a 1901 produziu nada menos que 27.000 wakas, surge Shiki Massaoka, dando novos rumos, emprestando à waka novas normas, afastando-a um pouco dos moldes demasiadamente clássicos, cristalizados, viciados,  gastos através dos séculos. Foi quando se projetou a famosa poetisa Akiko e o poeta Takuboku liderando outros nomes que, igualmente, ficaram gravados para sempre na história da poesia japonesa.

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     A minha convivência com Antônio Pimentel, no Grupo Mônaco, e a leitura desses dois primeiros livros onde conheci o assunto foram o início do meu interesse pelo haicai. Mas, como ainda lecionava 60h/aula por semana, não pude dedicar-me como gostaria. Entretanto, comecei a escrever meus tercetos  e mostrar a ele, que lia e conferia as sílabas.  Lancei meu primeiro livro, sem ainda conhecer a cultura do kigo.

     Luiz Antônio Pimentel tornou-se um grande amigo. Foi ele quem me falou do Nippo Brasil e me passou o endereço eletrônico da coluna para enviar os haicais: zashi@nippobrasil.com.br

     Em 30 de maio de 2004, com o kigo “Arrebol de outono”, foram publicados meue primeiros haicais:

 

Início da noite.

Na esquina da praia

o arrebol de outono.

 

Praia de Mauá.

O arrebol de outono vê-se

No espelho das águas.

 

Em maio de 2005 foram publicados mais dois dos meus haicais:

 

Nas flores do beijo,

Gotas de orvalho cintilam

Logo de manhã.

 

Na casca do milho,

Para o café da manhã

Gostosas pamonhas.

 

Nunca mais parei de compor haicais tradicionais ou clássicos. E criei o “Projeto Haicai na Escola” lançado em outubro de 2004, para levar o haicai às crianças. (Próxima publicação)

Inverno de 2018

EMI (恵美)Benedita Azevedo

 

 


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19/03/2018 16h40
Casa de Jamil Munbarak

A casa de Jamil Munbarak

       A Casa São Pedro, construída em 1942, por Bernardo Thiago de Mattos, quando resolveu urbanizar a cidade de Itapecuru Mirim. Lá passou a funcionar o comércio de secos e molhados de Jamil Munbarak, que mais tarde, em 1948, construiu ao lado, sua residência, segundo anotações, no texto de Jucey Santana.

       Era uma das casas onde fazíamos compras. Princippalmente, os aviamentos para mamãe que era costureira. Quando não tinha na casa de Helena, como era conhecida a Casa São Pedro, comprávamos na casa de Mundiquinho Mendes, na Rua do Egito.

        Os irmãos Jamil e Helena Munbarak eram os padrinhos de minha irmã caçula, Maria do Socorro. Não sei precisar a data, mas lembro quando Jamil se casou. Eu era pequena, doze ou treze anos. Um dia entrei com mamãe no comércio. Ela cumprimentou o compadre e parabenizou-o pelo casamento. A esposa estava com ele no comércio e foi apresentada à comadre.

        Ele pediu à esposa que mostrasse a casa para mamãe. Saímos do comércio e entramos na residência. Nos fundos, após uma área interna, contornamos uma pilha de tijolos, para chegarmos aonde estavam sendo construídos novas dependêcias para Helena e Nazaré, já em fase de conclusão. 

       As duas irmãs se revezavam no Comércio, ao lado do irmão. Após o casamento, mesmo Maud sendo professora no Grupo Escolar Gomes de Sousa, eu a vi muitas vezes, ao lado do marido trabalhando na Casa São Pedro.

      Em 2011, numa das minhas idas a Itapecuru, fiquei hospedada no Hotel Brasil, X com a Casa São Pedro. A cor, o letreiro, as portas, tudo continuava como sempre! Tive curiosidade de saber como estavam aquelas pessoas que eu conhecia há tanto tempo, e fui visitá-los! Lá estavam Jamil e Maud no comércio. Perguntei a eles se lembravam de mim e disse meu nome:  Sou Benedita. Na hora, ele falou: Você não é a filha do compadre Euzébio e da comadre Rosinha que foi para o sul? Diante da minha confirmação ele começou a contar a história da morte do meu irmão, em 1954, quando eu tinha dez anos. Na conversa ele falou da tristeza que sentiu quando soube da morte de meus pais: mamãe em 09/12/93 e Papai em 07/04/96.

      No dia seguinte, voltei com Jucey Santana, que eu acabara de conhecer e andava pesquisando a vida de Mariana Luz. Jamil sabia de tudo. Parecia uma enciclopédia. Os olhos brilhavam diante das nossas perguntas.

      Antes de sairmos, tiramos fotos do casal e nossas.  Ele me disse: Vem aqui amanhã que quero te mostrar os instrumentos de tortura da época da escravidão.

     No dia seguinte, voltei, tirei fotos dos objetos e foi o último contato que tive com os amigos.

     Ao retornar, em 2016, a casa estava fechada. O casal estava em São Luís em tratamento de saúde! E agora, esta notícia de que a casa será demolida! Sangra meu coração!

Benedita Azevedo

Rio de Janeiro, 19 de março de 2018

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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22/02/2018 14h37
Feitos de Afrânio Peixoto, na Medicina e nas Letras

“Para quem teve o privilégio de conhecê-lo, como eu o conheci, em longo convívio, quase dia a dia, houve dois Afrânio: um que se transferiu para seus livros; outro, que não se separou do próprio Afrânio, e que o acompanhava aos salões, aos encontros de rua, às conferências e às salas de aula. O segundo, sem dúvida alguma, era maior que o primeiro. Porque os livros não conseguiam captar e guardar todo o fulgor da inteligência do mestre baiano, que dava de si, com todo o brilho, no improviso de uma palestra ou de uma conversa.”

MONTELLO citado por VENÂNCIO FILHO, 2007, p. 8].

Terceiro ocupante da Cadeira 7, eleito em 7 de maio de 1910, na sucessão de Euclides da Cunha e recebido em 14 de agosto de 1911 pelo Acadêmico Araripe Júnior. Recebeu os Acadêmicos Osvaldo Cruz em 26 de junho de 1913,Aloísio de Castro em 15 de abril de 1919 e Alcântara Machado em 4 de outubro de 1933. Foi sucedido por Afonso Pena Júnior.

Afrânio Peixoto (Júlio A. P.), médico legista, político, professor, crítico, ensaísta, romancista, historiador literário, nasceu em Lençóis, nas Lavras Diamantinas, BA, em 17 de dezembro de 1876, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 12 de janeiro de 1947.

Foram seus pais o capitão Francisco Afrânio Peixoto e Virgínia de Morais Peixoto. O pai, comerciante e homem de boa cultura, transmitiu ao filho os conhecimentos que auferiu ao longo de sua vida de autodidata. Criado no interior da Bahia, cujos cenários constituem a situação de muitos dos seus romances, sua formação intelectual se fez em Salvador, onde se diplomou em Medicina, em 1897, como aluno laureado. Sua tese inaugural, Epilepsia e crime, despertou grande interesse nos meios científicos do país e do exterior. Em 1902, a chamado de Juliano Moreira, mudou-se para o Rio, onde foi inspetor de Saúde Pública (1902) e Diretor do Hospital Nacional de Alienados (1904). Após concurso, foi nomeado professor de Medicina Legal da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (1907) e assumiu os cargos de professor extraordinário da Faculdade de Medicina (1911); diretor da Escola Normal do Rio de Janeiro (1915); diretor da Instrução Pública do Distrito Federal (1916); deputado federal pela Bahia (1924-1930); professor de História da Educação do Instituto de Educação do Rio de Janeiro (1932). Reitor da Universidade do Distrito Federal, em 1935. Após 40 anos de relevantes serviços à formação das novas gerações de seu país, aposentou-se.

Sua estreia na literatura se deu dentro da atmosfera do simbolismo, com a publicação, em 1900, do drama Rosa mística, curioso e original drama em cinco atos, luxuosamente impresso em Leipzig, com uma cor para cada ato. O próprio autor renegou essa obra, anotando, no exemplarexistente na Biblioteca da Academia, a observação: “incorrigível. Só o fogo.” Entre 1904 e 1906 viajou por vários países da Europa, com o propósito de ali aperfeiçoar seus conhecimentos no campo de sua especialidade, aliando também a curiosidade de arte e turismo ao interesse do estudo. Nessa primeira viagem à Europa travou conhecimento, a bordo, com a família de Alberto de Faria, futuro acadêmico, da qual viria a fazer parte, sete anos depois, ao casar-se com Francisca de Faria Peixoto. Quando da morte de Euclides da Cunha (1909), foi Afrânio Peixoto quem fez o laudo de autópsia.

Ao vir ao Rio, seu pensamento era de apenas ser médico, tanto que deixara de incursionar pela literatura após a publicação de Rosa mística. Sua obra médico-legal-científica avolumava-se. O romance foi uma implicação a que o autor foi levado em decorrência de sua eleição para a Academia Brasileira de Letras, para a qual fora eleito à revelia, quando se achava no Egito, em sua segunda viagem ao exterior. Começou a escrever o romance A esfinge, o que fez em três meses antes da posse em 14 de agosto de 1911. O Egito inspirou-lhe o título e a trama novelesca, o eterno conflito entre o homem e a mulher que se querem, transposto para o ambiente requintado da sociedade carioca, com o então tradicional veraneio em Petrópolis, as conversas do mundanismo, versando sobre política, negócios da Bolsa, assuntos literários, artísticos e viagens ao exterior. Em certo momento, no capítulo “O Barro Branco”, conduz o personagem principal, Paulo, a uma cidade do interior, em visita a familiares, ali residentes. Demonstra-nos Afrânio, nessas páginas, os aspectos da força telúrica com que impregnou sua obra novelesca. O romance, publicado em 1911, obteve um sucesso incomum e colocou seu autor em posto de destaque na galeria dos ficcionistas brasileiros. Na trilogia de romances regionalistas Maria Bonita (1914) Fruta do mato (1920) e Bugrinha (1922). Entre os romances urbanos escreveu “As razões do coração” (1925), “Uma mulher como as outras” (1928) e “Sinhazinha”(1929).

Afrânio Peixoto, foi o primeiro autor brasileiro de haicai. Em 1919, através de seu livro Trovas Populares Brasileiras, prefaciou suas impressões a respeito do poema japonês e publicou cinco haicais comparando a trova brasileira com o haicai japonês.

“Os japoneses possuem uma forma elementar de arte, mais simples ainda que a nossa trova popular: é o haikai, palavra que nós ocidentais não sabemos traduzir senão com ênfase, é o epigrama lírico. São tercetos breves, versos de cinco, sete e cinco pés, ao todo dezessete sílabas. Nesses moldes vazam, entretanto, emoções, imagens, comparações, sugestões, suspiros, desejos, sonhos... de encanto intraduzível"

[Peixoto.Afrânio, in Trovas Brasileiras, págs. 13 - 14, W.M. Jacson, INC. Editores, Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, 1944]

 Foi, ainda, Afrânio Peixoto, que fez a primeira referência textual do haikai em forma de ensaio,“O  HAIKAI JAPONÊS OU EPIGRAMA LÌRICO” na revista Excelsior,  janeiro de 1928, p, 18 - 20. Mais tarde esse artigo foi utilizado no seu livro “Missangas”– Poesia e Folklore, publicado em 1931, pela Companhia Editora Nacional, Rua dos Gusmões,26-28 São Paulo – Brasil, 1931.

         Naquela época, em que respirava os ares "verde-amarelo"do Movimento Modernista Pei-xoto defendia a naturalização do Hai-Kai. Dizia ele:

"Em francês, inglês, alemão aparecem haikais. Dir-se-á que assim não devera ser, e ao Japão os devíamos deixar. Então o epigrama ficaria heleno, a sátira romana, o romance novo-latino, o soneto italiano, a balada, a canção, o conto... seriam privativos de certos povos e não universais formas de arte... O haikai merece naturalização".

Para incitar os poetas nacionais, tão fáceis de obter maravilhas de adoção, o mais íntimo dos meus amigos lhes oferece esta recolta de haicais brasileiros, como se lhes desse kakis de Barbacena ou de São Paulo, já naturalizados, escreveu no ensaio "O haikai japonês ou epigrama lírico"                              [Missangas p. 239]

“Peixoto disse ainda: Bashô, o mestre de todos os grandes líricos japoneses do “haikai”, trinou: “Na composição não se vá compor de mais”. Perder-se-ia o natural. Que vossos pequenos poemas venham do coração”.

Dotado de personalidade fascinante, irradiante, animadora, além de ser um grande causeur e um primoroso conferencista, conquistava pessoas e auditórios pela palavra inteligente e encantadora. Como sucesso de crítica e prestígio popular, poucos escritores se igualaram na época a Afrânio Peixoto.

Na Academia, teve também intensa atividade. Pertenceu à Comissão de Redação da Revista (1911-1920); à Comissão de Bibliografia (1918) e à Comissão de Lexicografia (1920 e 1922). Presidente da Casa de Machado de Assis em 1923, promoveu, junto ao embaixador da França, Alexandre Conty, a doação pelo governo francês do palácio Petit Trianon, construído para a Exposição da França no Centenário da Independência do Brasil. Em 1923 criou a Biblioteca de Cultura Nacional dividida em : História, Literatura, Dispersos e Biobibliográfica, iniciando esta série com a biografia de Castro Alves. Em sua homenagem a coleção passou a ter o nome de Coleção Afrânio Peixoto.

Como ensaísta escreveu importantes estudos sobre Camões, Castro Alves e Euclides da Cunha.Em 1941 visitou a terra natal, Bahia, depois de 30 anos de ausência e publicou 2 livros: “Breviário da Bahia” (1945) e “Livro de Horas” (1947).

Afrânio Peixoto procurou resumir sua biografia o seu intenso labor intelectual exercido na cátedra e nas centenas de obras que publicou em dois versos: “Estudou e escreveu, nada mais lhe aconteceu.”

Era membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, da Academia das Ciências de Lisboa; da Academia Nacional de Medicina Legal, do Instituto de Medicina de Madri e de outras instituições.

Dados biográficos de Afrânio Peixoto (Academia Brasileira de Letras) - 2014.

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Praia do Anil, 28/05/2015  

[Benedita Silva de Azevedo]

 

 

 

 

 

 

 


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11/02/2018 10h54
Trilha Errante de Bashô

                (Alberto Marsicano)

 

Matsuo Bashô nasceu em 1644 em Ueno, pequena cidade japonesa da província de Iga. Seu pai, Matsuo Yozaemon, era um samurai a serviço do shogunato da família Todo que vivia como professor de caligrafia. (Existe grande similitude entre a arte da espada (Ken-dô) e a arte da caligrafia (Sho-dô). Mas a sorte de Bashô estaria traçada aos nove anos, ao tornar-se amigo do jovem Todo Yoshimada, herdeiro do poderoso clã. Ambos são iniciados na arte da poesia, sob a orientação de Kitamura Kigin (1624-1705) discípulo do renomado Teitoku. Bashô adota o nome literário de Sobo e seu companheiro de Sengin. Estudam com este mestre anos a fio a caligrafia, a poética japonesa e o verso clássico chinês. O primeiro haikai de Bashô data de 1662 quando contava com 18 anos.

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haru ya koshi

toshi ya yukiken

kotsugomori

.

chegou a primavera

ou se foi o ano velho?

véspera do ano novo.

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Referência: MATSUO Bashô, Trilha Estreita ao Confin ( tradução: Kimi Takenata, Alberto Marsicano), São Paulo, Iluminuras, 1997


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24/01/2018 00h51
Primeiro Renga- Via Láctea - Homenagem ao mestre "Guin Gá"

Primeiro renga do Grêmio Haicai Águas de Março, em homenagem aos dez anos do grêmio e ao querido mestre Douglas Éden Broto "Guin Gá".

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.RENGA "A Via Láctea"---Comentários: Carlos Martins

OUTONO

01

No céu já escuro

Vejo piscar as estrelas...

Ah... a Via Láctea!

............GuinGá

02

Mais brilhantes, nesta noite,

negros olhos da menina.

...........Carlos Martins

.

No princípio era o Caos...

Depois, surgiu a massa luminosa das estrelas e, entre elas, a Via Láctea, que alimentou com seu leite primordial o olhar e o coração dos poetas (sem flexão de gênero).

E nesse caldeirão de energia e cor, o haijin, o Sennin, GuinGá está e, como Mestre da Arte do haicai, nos indica o início da jornada do renga, do caminho do renga – do “rengadô”.

Voltada sorridente para o alto, o rosto todo expressão de encantamento, a menina sorri com os olhos, ao descobrir tessituras na noite; formas conhecidas de animais, pessoas, objetos ou meramente luz!

.

03

Alegria na praça –

Gira a Lua no céu,

ciranda no chão.

...........Regina Alonso

04

Com diversão para todos

a noite fica mais longa.

...........Carlos Viegas.

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Um povoado, uma vila, uma praça de grande cidade, não importa.

A noite está clara. A lua ilumina tanto as nuvens que parece dia. Em seu movimento de rotação, ela dança no céu inspirando meninas e meninos na noite de sorrisos. O que está em cima é como o que está em baixo e, assim, tem-se a unidade.

Movimento é dia; repouso é noite.

É próprio do humano buscar a felicidade e o contentamento e, assim, ninguém quer dormir, todos querem girar... e girar ... e...

.

05

Sempre pontual –

O relógio do universo

Não falha na agenda.

............Fiore Carlos.

06

cresce pela estrada afora

a luz branca da paz.

...........Regina Coeli Nunes.

.

O homem criou o tempo; o universo, a eternidade.

Em algum lugar estão marcadas as ocorrências das marés, as órbitas de cometas e planetas, os voos regulares das aves, a forma repetitiva e perfeita de plantas e a composição das rochas.

E, do silêncio do espaço, uma luz que brilha de dia e de noite, orienta o caminhante em sua jornada.

.

07

Manhã no jardim -

O grilo volta a cantar

se tomo distância

..........AlvaroPosselt

08

Caminha pelo gramado

um casal de namorados.

..........Benedita Azevedo.

.

O peregrino para por um instante e inicia um descanso contemplativo, mas outros peregrinos menores desse palmilhar também o contemplam.

O silêncio é recíproco, o respeito também. E, ao se afastar, cada um diz adeus à sua maneira.

Alheios a outras manifestações sensíveis, os amantes só desejam cumprir a missão de seus corações e se integram em um plano maior.

.

INVERNO

.

09

Manhã gelada -

O calor vem da mensagem

do amigo distante

..........Rose Mendes

10

Os amigos abraçados

ocupam toda calçada.

..........Carlos Martins

.

Os laços não requerem a presença do tátil. A sinfonia composta há dois séculos, desperta lágrimas e entusiasmo na sala de concertos de hoje. A carta carinhosa é um holograma do espírito de quem a escreveu, que sorri para o destinatário emocionado.

Um mundo feito de respeito e carinho? Se alguns poucos ocuparem um pequeno espaço, já é o início...

.

11

Debaixo da ponte

a lona é curta pra dois –

Tarde de inverno

..........Regina Alonso

12

em baixo do cobertor

só se vê quatro pernas!

..........Elisa Campos

.

Ah, o frio fere com cortes na pele é o mesmo que pode aquecer a alma.

Se o desejo for de dividir, meio corpo quente já faz suar, e mesmo que o vento frio varra por toda a noite espaço ribeirinhos ou citadinos, o sorriso do companheirismo aquece.

.

13

Fogueira acesa -

Ninguém se lembra do frio

ao som das risadas.

..........Sandra Hiraga.

14

com as lembranças do dia

A voz de todos se aquece.

..........Severino José

.

O “luau” de jovens ou o encontro de outsiders mendigos ou poetas loucos, talvez ainda debaixo da ponte ou nas areias de uma praia reservada, tem a mesma natureza: liberdade!

Natureza essa que frio algum corrompe, se houver companheirismo e risadas.

Disse o poeta um dia que ele colecionava lembranças, pois no fim da vida seriam elas as únicas estrelas a iluminar o céu de sua velhice. A cumplicidade da troca de lembranças, aquece...

.

15

filhos no quintal

com alegria a correrem--

esfregam as mãos.

..........Mateus Nascimento.

16

penduradas no varal

roupas balançam ao vento

.........Regina Alonso

.

O espaço junto à casa, ainda é casa. E casa é reunião. Se for reunião de amor, a alegria é certa.

O poeta contempla a família como se fosse a lua: respeitosamente, sensivelmente, emocionadamente.

Como um filme de imagens oníricas, as roupas de diversos tamanhos e formas, balançam suaves, pela quase-brisa da primavera que se anuncia.

.

PRIMAVERA

.

17

Peças coloridas,

lençóis brancos como a neve—

Juntos, luz e cor.

.........Nilza Azzi

18

as cores da bougainvíllea

cobrindo toda a murada

..........Benedita Azevedo.

.

Roupas brancas e coloridas refletem a luz do sol, mas uma cor viva atrai a atenção do dia. No muro esparrama a natureza que se faz presente: é primavera, com primavera!

O muro de cor invernal recebe vida.

O haijin atento agradece aos deuses dos varais e das cercas vivas e mortas.

.

19

Bonito de ver

no bico do passarinho

um naco de amora

........Rose Mendes

20

Cata-ventos no jardim

giram ao sabor do vento.

.........Sandra Hiraga

.

Agora, come-se um naco aqui, um teco ali, debaixo do sol: a vida tem gosto de amora... Pergunte pro Guilherme!

A menina de rosto tingido de bordô levanta seu cata-vento à brisa perfumada do pomar. Corre, corre. Seu chapéu cai e ela quase voa, espírito livre... Vai...avoa!

.

21

O branco entre o verde

No fim do grande quintal -

Flor de laranjeira

..........Marco Aurélio Goulart

22

Se espalha pela varanda

um aroma adocicado

..........AlvaroPosselt

.

O perfume adocicado atrai olhares e corações dos passantes para a nuvem branca e aromatizada que desceu do céu, e contrasta com a verdejante presença no jardim, extensão da floresta, do outro lado do rio.

O haijin, em sua espreguiçadeira, fecha os olhos e deixa o espírito flanar pelos mistérios dos sentidos, sentindo-se uno com o cenário, com a tela pintada pelo Insondável.

.

23

Ah, linda manhã !

a clívia deu ar de sua graça

quantos botões...

........Elisa Campos

24

rumor leve no ouvido

abelhas pousam e partem

........Severino José

.

A flamejante flor já anuncia o calor dos ventos quentes que virão, no estio. Os dias estão mais definidos em suas luzes e temperatura.

O trabalho de pessoas, poetas e animais feito com mais entusiasmo e ritmo.

O fluxo das gentes nas cidades, dos baldes de mel das abelhas e das estrofes dos poetas se expande. Tudo é vida e completude!

.

25

Bálsamo na alma ---

Estalado de bom dia

do colibri.

.........Carlos Martins

26

a mulher em seu caminho

para e alisa os cabelos...

.........Rose Mendes

.

Não, não há mais margem para dúvidas e hesitação!

A natureza vibrante fala por todos os seus poros!

Flores, pássaros e insetos são companheiros de caminhada da mulher que fala com a alma.

.

VERÃO

.

27

Um riacho adiante —

No dia de Iemanjá

lavadeiras cantam.

..........Nilza Azzi

28

Ondulante correnteza,

um vulto joga a tarrafa.

.........Benedita Azevedo.

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A água atenua o calor da estação tórrida e seu espírito ancestral na forma de deusa mãe, cobra seu óbolo de melodias de alma, cantadas por mulheres fortes. Perto dali, homens retiram da água o alimento do corpo.

O suor de seus corpos alimenta e reverencia o rio que tudo dá e recebe, fonte de vida e de morte. Emblema da impermanência e da passagem.

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29

pausa no caminho –

do outro lado da margem

o voo da garça

..........Regina Alonso

30

Enfeite da natureza

Poema que já vem pronto

.........Fiore Carlos.

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O peregrino pousa o cajado, abana o rosto com o chapéu e se faz um com a terra e seres vivos.

Pássaros e ventos não se importam com sua presença e seguem seu ritmo e natureza, desempenhando o necessário movimento que integra o Grande Ser e Lhe dá sentido.

Tudo se junta como em um grande mosaico em que alguém, distante, vê a imagem completa.

Sabedor de seu real tamanho, para o peregrino o que importa, é que tudo é somente poesia. O som e o silêncio: a luz e a escuridão; o amor e o ódio.

No verso, tudo é verso... e anverso.

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31

Manhã radiante

espalhadas pelo parque

flores de alamanda.

.........Carlos Viegas

32

Também as folhas caídas

onde brincam as crianças

.........Marco Aurélio Goulart

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Chega o tempo da desaceleração. O espírito se aninha, se aconchega e busca a companhia dos iguais na caminhada.

Já não quer vencer montanhas as fortes passadas, mas observar os montes milenarmente estáveis e o reflexo das flores amarelas do caminho nos seus olhos e nas encostas.

O haijin, de coração mais enternecido agora, deixa escorrer uma lágrima aos estalos das folhas pressionadas por pezinhos infantis. No mais, tudo é silêncio...

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OUTONO

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33

No banco da praça,

vovó e vovô se abraçam...

piscam as estrelas.

.........Mardilê Friedrich Fabre.

34

neste local costumeiro

onde estão sempre entre nós.

.........Regina Coeli Nunes

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O ápice da vida não é o seu fim, mas o coração invadido pela serenidade completa.

As almas que se encontraram, que cresceram juntas alimentadas pela felicidade ou sofrimento, agora são homenageadas pelas estrelas... A Via Láctea as reverencia.

Novamente, não se está sozinho. O caminho é de mão dupla. Observa-se e se é observado...

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35

Águas de Março

espalha-se pelo Brasil...

dez anos de história.

........Benedita Azevedo.

36

Raiz do haicai fincada

pelo "Nenpuku" Guin Ga.

..........Carlos Martins.

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Um dia, um navio aportou em Santos trazendo pessoas do país do sol nascente para o país de sol o ano inteiro.

Na bagagem, sonhos, costumes e arte.

Na arte, um modo diferente de poesia, vinda de fora para dentro, objetiva.

Na poesia, um poetar que observa a beleza e a mudança da vida que se apresenta aos sentidos. O registro de um botão de flor que eclode, do perfume de uma comida feita pela mãe; do eriçar de pelos ao vento frio ou do canto melódico de um pássaro na alvorada.

No registro, a assertividade e economia de palavras, mediante apenas o necessário – nem mais, nem menos.

No necessário, apenas o click, o instante, o satori, seja registrando o desenrolar das estações, como faziam os antigos mestres japoneses, mediante o kigo, ou termo de estação, seja somente o instante, o que o olhar da alma do poeta vê.

No ensinar dos mestres se firmou um modo de ver e mesmo de exercer uma missão no mundo, seja plantando um país de haicai, como Nenpuku Sato; no magistério em grupos de haicai como Mestre Hidekazu Masuda Goga ou feito uma semente pioneira, em um grupo específico de haicai, como o Grêmio Águas de Março, por um Mestre-Capitão dos Mares - Douglas Éden Brotto, nosso inesquecível Guin Ga.

Benedita Silva de Azevedo e demais haijins do Grêmio foram seus companheiros nessa obra que passou a fazer parte da história da poesia carioca.

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No corte brilhante

das metades do caqui

Afloram sementes...

............Guin Gá

E você, Guin Gá, foi uma e os inspirados haijins do Grêmio de Haicai Águas de Março foram outras tantas, para o florescimento do haicai carioca e nacional.

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Namastê!

Verão de 2018

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Autores participantes:

Alvaro Posselt, Benedita Silva de Azevedo, Carlos Martinss, Carlos Viegas, Douglas Eden Brotto, Elisa Campos, Fiore Carlos, Marco Aurélio Goulart, Mardilê Friedrich Fabre, Mateus Nascimento, Nilza Azzi, Severino José, Regina Alonso, Regina Coeli Nunes, Rose Mendes e Sandra Hiraga Yoshimura.

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Agradecemos ao caro amigo haijin, Carlos Martins pelos excelentes comentários ao nosso 1º Renga do Águas de Março e a todos os confrades que se animaram a participar na realização das estrofes distribuídas.

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Rio de Janeiro, 06 de fevereiro de 2018, às 19:12

Grêmio Haicai Águas de Março.

Emi (恵美) Benedita Azevedo (coordenadora)


Publicado por Benedita Azevedo em 24/01/2018 às 00h51
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