Haicai, Verso e Prosa

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CONSIDERAÇÕES SOBRE O HAICAI.
ARTIGO
Benedita Azevedo

Em minhas pesquisas sobre o haicai, encontrei estas duas definições, que divido com os amigos. A primeira ilustrei com o haicai de Douglas Éden Brotto (Guin Ga), nosso orientador do Grêmio Haicai Águas de Março.

1 – “Do ponto de vista formal o haicai divide-se em duas partes: uma da condição geral ou espacial do poema (outono, primavera, meio dia ou entardecer, uma árvore ou um rochedo, a lua, um beija-flor); a outra, relampejante, deve conter elemento ativo. Uma descritiva a outra, inesperada. A percepção poética surge do choque entre as duas. A própria índole do haicai é favorável ao humor seco, nada sentimental. Arte não intelectual, sempre concreta e antiliterária, o haicai é uma pequena cápsula carregada de poesia, capaz de fazer a realidade aparente.” [Otávio Paz, in OKU viajando com Bashô, Carlos Verçosa, pág. 46]

Veja este exemplo:

Remanso do riacho –
Crianças correm e gritam
girinos... girinos.

[Douglas Éden Brotto]

Na primeira parte encontramos o elemento passivo: o remanso do riacho e sua quietude. Na segunda, a surpresa dos gritos das crianças rompendo o silêncio.

“Do encontro desses dois elementos deve brotar a iluminação poética. E esta iluminação consiste em retornar ao silêncio do qual partiu o poema, mas, cheio de significações.”[Otávio Paz, op. cit. Pág. 47]

2 - Segundo Paul-Louis Couchoud, “o haicai é uma poesia japonesa em três versos, ou antes, em três pequenas partes de frase, a primeira de cinco sílabas, a segunda de sete, a terceiro de cinco: dezessete sílabas ao todo. É o mais elementar dos gêneros poéticos [....] Um haicai não é comparável nem a um dístico grego ou latino, nem a um quarteto francês. Não é tão pouco um “pensamento”, nem um “dito espirituoso”, nem um provérbio, nem um epigrama no sentido antigo [....] mas, um simples quadro em três pinceladas, uma vinheta, um esboço, às vezes um simples registro, um toque, uma impressão.”  [in FRANCHETTI, Paulo. O Haicai no Brasil, pág. 259]
Complementando as definições observadas acima transcrevo o 9º mandamento do haicai de nosso querido Mestre Goga.

“O haicai é considerado uma espécie de diálogo entre o autor e o apreciador, por isso não se deve explicar tudo por tudo. A emoção ou a sensação sentida pelo autor deve ser apenas sugerida, a fim de permitir ao leitor o reacontecer dessa emoção. Dessa forma, quem lê o haicai, poderá concluir, à sua maneira o poema apresentado. Resumindo, o haicai não deve ser um poema discursivo e acabado”. Ex.
-
As marcas do tempo
apenas em meu rosto -
Lua de primavera.
             Teruko Oda
[GOGA, H. Masuda, ODA. Teruko, Introdução ao haicai, Grêmio Haicai Ipê, pág. 15, 2ª edição, São Paulo, 2008].

Portanto, compor um haicai é registrar em linguagem simples, quase coloquial, um momento particular, que brota através da sensibilidade em relação à natureza e o sentimento da permanência e da mudança. O haicai nos ensina a olhar e a sentir de modo diferente os aspectos da natureza e da vida. O haicaísta atento está sempre ligado ao que o rodeia, com a intenção de captar a instantaneidade, não apenas como observador, mas como parte da natureza em suas variações sazonais.

Só a observação e prática constantes nos levam a compreender a essência do haicai.
                                            
                                         Praia do Anil, Magé, RJ, 12 / 01 / 2009


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Referências do artigo
1 - PAZ, Octavio. A Poesia de Matsuo Bashô. OKU viajando com Bashô, tradução para o português, transcrição, pesquisa, seleção, notas adicionais, pesquisa bibliográfica e posfácio: VERÇOSA. Carlos, pág. 46, Empresa gráfica da Bahia, Salvador, 1995.

1. 1 – BROTTO, Douglas Éden. Introdução ao haicai, Grêmio Haicai Ipê, pág. 6 e 15, 2ª edição, São Paulo, 2008.

2 - COUCHOUD, Paul-Louis. In: FRANCHETTI, Paulo. O Haicai no Brasil. Alea, volume 10, número 2, julho-dezembro 2008, p. 256-269.
Em: http://www.scielo.br/pdf/alea/v10n2/07.pdf
Acessado: 12-01-2010


Benedita Azevedo
Enviado por Benedita Azevedo em 20/03/2009
Alterado em 08/05/2017
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