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Considerações sobre haicai
ARTIGO
Benedita Azevedo Em minhas pesquisas sobre o haicai, encontrei estas duas definições, que divido com os amigos. A primeira ilustrei com o haicai de Douglas Éden Brotto (Guin Ga), nosso orientador do Grêmio Haicai Águas de Março. 1 – “Do ponto de vista formal o haicai divide-se em duas partes: uma da condição geral ou espacial do poema (outono, primavera, meio dia ou entardecer, uma árvore ou um rochedo, a lua, um beija-flor); a outra, relampejante, deve conter elemento ativo. Uma descritiva a outra, inesperada. A percepção poética surge do choque entre as duas. A própria índole do haicai é favorável ao humor seco, nada sentimental. Arte não intelectual, sempre concreta e antiliterária, o haicai é uma pequena cápsula carregada de poesia, capaz de fazer a realidade aparente.” (Otávio Paz, in OKU viajando com Bashô, Carlos Verçosa, pág. 46) Veja este exemplo: Remanso do riacho – Crianças correm e gritam girinos... girinos. (BROTTO. Douglas Éden, ODA. Teruko, Introdução ao haicai, Grêmio Haicai Ipê, pág 6, 2ª edição, São Paulo, 2008). Na primeira parte encontramos o elemento passivo: o remanso do riacho e sua quietude. Na segunda, a surpresa dos gritos das crianças rompendo o silêncio. “Do encontro desses dois elementos deve brotar a iluminação poética. E esta iluminação consiste em retornar ao silêncio do qual partiu o poema, mas, cheio de significações.”(Otávio Paz, op. cit. Pág. 47) 2 - Segundo Paul-Louis Couchoud, “o haicai é uma poesia japonesa em três versos, ou antes, em três pequenas partes de frase, a primeira de cinco sílabas, a segunda de sete, a terceiro de cinco: dezessete sílabas ao todo. É o mais elementar dos gêneros poéticos [....] Um haicai não é comparável nem a um dístico grego ou latino, nem a um quarteto francês. Não é tão pouco um “pensamento”, nem um “dito espirituoso”, nem um provérbio, nem um epigrama no sentido antigo [....] mas, um simples quadro em três pinceladas, uma vinheta, um esboço, às vezes um simples registro, um toque, uma impressão.”( in FRANCHETTI, Paulo. O Haicai no Brasil, pág. 259) Complementando as definições observadas acima transcrevo o 9º mandamento do haicai de nosso querido Mestre Goga. O haicai é considerado uma espécie de diálogo entre o autor e o apreciador, por isso não se deve explicar tudo por tudo. A emoção ou a sensação sentida pelo autor deve ser apenas sugerida, a fim de permitir ao leitor o reacontecer dessa emoção. Dessa forma, quem lê o haicai, poderá concluir, à sua maneira o poema apresentado. Resumindo, o haicai não deve ser um poema discursivo e acabado. ((BROTTO. Douglas Éden, ODA. Teruko, Introdução ao haicai, Grêmio Haicai Ipê, pág 15, 2ª edição, São Paulo, 2008). 3 - Compor um haicai é registrar em linguagem simples, quase coloquial, um momento particular, que brota através da sensibilidade em relação à natureza e o sentimento da permanência e da mudança. O haicai nos ensina a olhar e a sentir de modo diferente os aspectos da natureza e da vida. A linguagem muito elaborada descaracteriza o haicai tornando-o artificial. O haicaísta atento está sempre ligado ao que o rodeia, com a intenção de captar a instantaneidade, não como observador, mas como parte da natureza em suas variações sazonais. Só a observação e prática constantes nos levam a compreender a essência do haicai. “A persistência é o caminho do êxito” (Charles Chaplim) Praia do Anil, Magé, RJ, 12 / 01 / 2010 ---------------------------------------------- Referências do artigo 1 - PAZ, Octavio. A Poesia de Matsuo Bashô. OKU viajando com Bashô, tradução para o português, transcrição, pesquisa, seleção, notas adicionais, pesquisa bibliográfica e pósfácio: VERÇOSA. Carlos, pág. 46, Empresa gráfica da Bahia, Salvador, 1995. 1. 1 – BROTTO, Douglas Éden. Introdução ao haicai, Grêmio Haicai Ipê, pág 6 e 15, 2ª edição, São Paulo, 2008. 2 - COUCHOUD, Paul-Louis. In: FRANCHETTI, Paulo. O Haicai no Brasil. Alea, volume 10, número 2, julho-dezembro 2008, p. 256-269. Em: http://www.scielo.br/pdf/alea/v10n2/07.pdf Acessado: 02-02-2010 3 – Experiência adquirida através de estudos e da convivência com os companheiros do Grêmio Haicai Ipê, Sabiá, Águas de Março e os mestres e haijins: Masuda Goga, Teruko Oda, Paulo Franccheti, Edson Kenji Iura, Francisco Handa, José Marins, Douglas Éden Brotto e demais companheiros de estudo.
Benedita Azevedo
Enviado por Benedita Azevedo em 05/04/2010
Alterado em 08/07/2026 Comentários
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