

![]() Hokku, Haikai, Haiku, haicai
Organização, Seleção e Introdução Rodolfo Witzig Guttilla Companhia das Letras – 2009 - Hokku, Haicai, Haiku, Haicai
Poema de origem japonesa, o haicai descende de uma antiquíssima linhagem que remonta ao século VII depois de Cristo: nesse período surge o waka “poema à moda do país de Wa”, como os chineses chamavam o Japão), com versos de cinco e sete fonemas – o equivalente a sílabas métricas no Ocidente. A partir de então, a poesia tradicional japonesa adotará esse metro. Os primeiros waka serão reunidos no “Man’yôshû” (ou “antologia de dez mil folhas”, em uma das muitas traduções possíveis), a maior e maia antiga coletânea poética do Japão, iniciada no ano de 759 a, D. Elaborada entre os séculos VI e VIII, a obra é constituída por vinte volumes e reúne cerca de 4,500 poemas. A forma poética predominante no “Man’yôshu”, com mais de 4.000 poemas, é o tanka, composto de 5-7-5-7-7 fonemas. Também chamado misohitomoji, ou poema de 31 sílabas”, o tanka dividia-se em duas unidades ou estrofes: a primeira formada por 5-7-5 versos e chamada kami no ku (“primeiro verso”), e a segunda, com 7-7 versos, conhecida como shimo no ku (“último verso”). Durante a Era Heian (794-1185), o tanka passa a ser criado por duas pessoas: uma encarregada da primeira estrofe (denominada hokku), outra pela estrofe seguinte (conhecida por wakiku). No período Kamakura (1186-1339),o pequeno poema vai tornar-se uma espécie de entretenimento entre os cortesões da aristocracia feudal. Entre os anos 913 e 1439, os imperadores japoneses encomendaram 21 antologias aos poetas do período, cada uma com cerca de 20 volumes. O conjunto ficou conhecido por “Chokusen Waka-Shú” (“Coletânea de poemas waka”). Com o tempo a composição passará a ligar-se a outras estrofes da mesma medida, somando uma centena de versos. A nova forma ficou conhecida por renga e, em seguida, por renga haicai, ou renku. Entre os séculos XVI e VII, surgem duas principais escolas de renga haicai: a Teimon-há, ou ”escola de Mtsunaga Teitoku” (1571-1653) – que buscava a sofisticação da linguagem e a composição elaborada – e a Danrim-fú, ou “templo” cujo principal representante foi Nishiyama Sôin (1605-82).Seguida por monges representantes da burguesia e de artistas populares. Esta escola enfatizava o coloquialismo e, em alguns casos, as expressões vulgares e o humor rasteiro, repercutindo, em seus poemas, a temática das coisas simples e cotidianas. Nesse momento o hokku, primeira estrofe do renga haicai, ou simplesmente haicai (cujo significado é poema de dezessete sílabas”), irá constitutir-se em expressão autônoma.O terceto atingirá seu apogeu no século XVII, durante o período Edo (1603-1867) sob o mando do clã Tokugawa, quando Matsuó Bashô (1644-94) filho de samurai e samurai por nascimento, renuncia à sua classe social para, aos 25 anos tornar-se monge andarilho. Em sua jornada de autoconhecimento, Bashô eleva o haicai à condição de kadô (ou “caminho da poesia”), infundindo a visão de mundo zen em sua criação, herança do confucionismo e do budismo de estirpe Mahayana – principalmente a crença na interdependência de todas as coisas na natureza, as grandes e as pequenas. Em seu ofício Bashô irá revelar a beleza existente nas coisas modestas, humildes, imperfeitas, transitórias e não convencionais (sintetizada pelo conceito wabi-sabi). Sua escola ficará conhecida por Shomôn, ou “escola de Bashô”. Consta que o poeta teve mais de três mil discípulos em vida, entre eles o chamado Bashô Jijjetzsu (* dez grandes discípulos de Bashô”): Sampu. Kyorai, Ransêtsu, Kyorôku, Kikaku, Josô, Yaha, Shiko, Etsujin e Hokúshi, todos dignos herdeiros de sua trajetória de vida, pautada pela humildade, pelo desapego e pela simplicidade. Em seguida a esse período virtuoso, Buson (1716-84) , Kobayashi Issa, (1763-1827) e Massoka Shiki (1867-1902) irão estabelecer novos padrões para o pequeno poema, e ascender ao panteão dos haijins (ou “praticantes do haicai”) clássico. Ainda que as diferenças entre buson e Issa sejam evidentes ( o primeiro mais conceitual e racional , o outro confessional e emotivo), é visível a filiação de ambos ao “espírito da época” encarnado por Bashô e sua escola. Um período em que o Japão permanecerá isolado de todo o contato com o mundo exterior. Nascido no início da era Meiji (1867-1902), Shiki irá presenciar a abertura do Japão para o Ocidente, simbolicamente iniciada em 8 de julho de 1853, quando o oficial da Marinha norte-americana Matthew Calbraight Perry atracou no porto de3 Uraga, próximo a Edo (atual Tóquio e capital do Império desde o período Tokugawa), com uma esquadra de quatro naus, e apresentou ao Shogunato (senhores feudais locais) o pedido de abertura dos portos do Japão para o comércio e para reabastecimento de naves estrangeiras. Nesse contexto, o projeto de vida de Shiki será preservar a integridade da poesia japonesa e do haicai como forma original e local. Como parte desse empreendimento, o poeta criará o neologismo haiku (aglutinação de haikai e hokku) para nomear o poema de dezessete sílabas. Irá também estabelecer regras rígidas para sua composição, fundando em 1892 a escola Nippon-há. Entre as principais regras, o poema deveria ser breve, resumindo-se a dezessete fonemas ou sílabas; conter a referência à estação do ano (ou kigô) e ao local de sua criação: ser rico em onomatopeias; e, por fim explicar o kireji, partícula expletiva que pode introduzir uma pausa, denotar a dúvida ou emoção do poeta diante do acontecimento que inaugura o poema – tal como a interjeição”ah” na sintaxe ocidental. Mais próxima à poética de Buson que a de Bashô, Shiki afirmava que seu maior mestre continuava sendo a natureza, em todas as suas sutis manifestações. Praia do Anil, Magé, RJ, Benedita Azevedo Rodolfo Witzig Guttilla
Enviado por Benedita Azevedo em 19/01/2015
Alterado em 08/07/2026 Comentários
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