Haicai, Verso e Prosa

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Estudo sobre o haicai
Hokku, Haicai, Haiku, Haicai

Benedita Azevedo

Uma ampla visão histórica sobre o haicai, desde os primórdios, no japão, e sua naturalização brasileira, no mais completo relato que já li sobre o assunto. Segundo a obra, Boa Companhia, organizada por Rodolfo Witzig Guttilla, um dos fundadores do Grêmio Haicai Ipê, em 1987. Vejamos o que nos oferece no artigo de  apresentação "Haicai, haicais (ou como o mais importante poema japonês foi abrasileirado).

Poema de origem japonesa,  haicai descende de uma antiquíssima linhagem que remonta ao século VII depois de Cristo: nesse período surge o waka “poema à moda do país de Wa”, como os chineses chamavam o Japão), com versos de cinco e sete fonemas – o equivalente a sílabas métricas no Ocidente. A partir de então, a poesia tradicional japonesa adotará esse metro. Os primeiros waka serão reunidos no “Man’yôshû” (ou “antologia de dez mil folhas”, em uma das muitas traduções possíveis), a maior e maia antiga coletânea poética do Japão, iniciada no ano de 759 a, D. Elaborada entre os séculos VI e VIII, a obra é constituída por vinte volumes e reúne cerca de 4,500 poemas.

A forma poética predominante no “Man’yôshu”, com mais de 4.000 poemas, é o tanka, composto de 5-7-5-7-7 fonemas. Também chamado misohitomoji, ou poema de 31 sílabas”, o tanka dividia-se em duas unidades ou estrofes: a primeira formada por 5-7-5 versos e chamada kami no ku (“primeiro verso”), e a segunda, com 7-7 versos, conhecida como shimo no ku (“último verso”). Durante a Era Heian (794-1185), o tanka passa a ser criado por duas pessoas: uma encarregada da primeira estrofe (denominada hokku), outra pela estrofe seguinte (conhecida por wakiku). No período Kamakura (1186-1339),o pequeno poema vai tornar-se uma espécie de entretenimento entre os cortesões da aristocracia feudal. Entre os anos 913 e 1439, os imperadores japoneses encomendaram 21 antologias aos poetas do período, cada uma com cerca de 20 volumes. O conjunto ficou conhecido por “Chokusen Waka-Shú” (“Coletânea de poemas waka”).

Com o tempo a composição passará a ligar-se a outras estrofes da mesma medida, somando uma centena de versos. A nova forma ficou conhecida por renga e, em seguida, por renga haicai, ou renku. Entre os séculos XVI e VII, surgem duas principais escolas de renga haicai: a Teimon-há, ou ”escola de Mtsunaga Teitoku” (1571-1653) – que buscava a sofisticação da linguagem e a composição elaborada – e a Danrim-fú, ou “templo” cujo principal representante foi Nishiyama Sôin (1605-82).Seguida por monges representantes da burguesia e de artistas populares. Esta escola enfatizava o coloquialismo e, em alguns casos, as expressões vulgares e o humor rasteiro, repercutindo, em seus poemas, a temática das coisas simples e cotidianas.

Nesse momento o hokku, primeira estrofe do renga haicai, ou simplesmente haicai (cujo significado é poema de dezessete sílabas”), irá constitutir-se em expressão autônoma.O terceto atingirá seu apogeu no século XVII, durante o período Edo (1603-1867) sob o mando do clã Tokugawa, quando Matsuó Bashô (1644-94) filho de samurai e samurai por nascimento, renuncia à sua classe social para, aos 25 anos tornar-se monge andarilho. Em sua jornada de autoconhecimento, Bashô eleva o haicai à condição de kadô (ou “caminho da poesia”), infundindo a visão de mundo zen em sua criação, herança do confucionismo e do budismo de estirpe Mahayana – principalmente a crença na interdependência de todas as coisas na natureza, as grandes e as pequenas. Em seu ofício Bashô irá revelar a beleza existente nas coisas modestas, humildes, imperfeitas, transitórias e não convencionais (sintetizada pelo conceito wabi-sabi). Sua escola ficará conhecida por Shomôn, ou “escola de Bashô”. Consta que o poeta teve mais de três mil discípulos em vida, entre eles o chamado Bashô Jijjetzsu (* dez grandes discípulos de Bashô”): Sampu. Kyorai, Ransêtsu, Kyorôku, Kikaku, Josô, Yaha, Shiko, Etsujin e Hokúshi, todos dignos herdeiros de sua trajetória de vida, pautada pela humildade, pelo desapego e pela simplicidade.

Em seguida a esse período virtuoso, Buson (1716-84) , Kobayashi Issa, (1763-1827) e Massoka Shiki (1867-1902) irão estabelecer novos padrões para o pequeno poema, e ascender ao panteão dos haijins (ou “praticantes do haicai”) clássico. Ainda que as diferenças entre buson e Issa sejam evidentes ( o primeiro mais conceitual e racional , o outro confessional e emotivo), é visível a filiação de ambos ao “espírito da época” encarnado por Bashô e sua escola. Um período em que o Japão permanecerá isolado de todo o contato com o mundo exterior.

Nascido no início da era Meiji (1867-1902), Shiki irá presenciar a abertura do Japão para o Ocidente, simbolicamente iniciada em 8 de julho de 1853, quando o oficial da Marinha norte-americana Matthew Calbraight Perry atracou no porto de Uraga, próximo a Edo (atual Tóquio e capital do Império desde o período Tokugawa), com uma esquadra de quatro naus, e apresentou ao Shogunato (senhores feudais locais) o pedido de abertura dos portos do Japão para o comércio e para reabastecimento de naves estrangeiras.

Nesse contexto, o projeto de vida de Shiki será preservar a integridade da poesia japonesa e do haicai como forma original e local. Como parte desse empreendimento, o poeta criará o neologismo haiku (aglutinação de haikai e hokku) para nomear o poema de dezessete sílabas. Irá também estabelecer regras rígidas para sua composição, fundando em 1892 a escola Nippon-há. Entre as principais regras, o poema deveria ser breve, resumindo-se a dezessete fonemas ou sílabas; conter a referência à estação do ano (ou kigô) e ao local de sua criação: ser rico em onomatopeias; e, por fim explicar o kireji, partícula expletiva que pode introduzir uma pausa, denotar a dúvida ou emoção do poeta diante do acontecimento que inaugura o poema – tal como a interjeição”ah” na sintaxe ocidental. Mais próxima à poética de Buson que a de Bashô, Shiki afirmava que seu maior mestre continuava sendo a natureza, em todas as suas sutis manifestações.

ANTECEDENTES DO HAICAI NO BRASIL

Passados quatro anos do último haijin clássico japonês, o haicai (como o termo será abrasileirado) entrará no Brasil em 1906, por obra de Monteiro Lobato, então redator, editor e fac-totum de o Minarete, pequeno jornal de Pindamonhangaba, interior de São Paulo. Na ocasião,  lobato irá publicar na Gazela o artigo  “A poesia japonesa” ,  em que pioneiramente, traduz  seis haicais. Dono de espírito crítico e inovador, o autor de “O Sítio do Pica-Pau Amarelo exercerá  grande influência sobre a geração de escritores e poetas que, 1922 romperá com a sintaxe passadista e inaugurará o “modernismo” no país – inspirados não somente, mas, de forma marcante, pela oralidade, pelo coloquialismo e pelo despojamento da narrativa lobatista,

Em 18 de junho de 1908, aportará em Santos a fabulosa nau Kasato Maru, trazendo a bordo 791 imigrantes japoneses. Segundo Massuda Goga, haiku no meigo, ou ”nome de haicaísta”, de Hdekasu Massuda (1911-2008), o primeiro haiku em território brasileiro foi escrito por Shûhei Uetsuka (1876-1935). Momentos antes de atracar.

Karetaki
Miagete tsukinu
Imisen
-
A nau imigrante
Chegando: vê-se lá no alto
A cascata seca,

Durante anos, o poema (assim como outra manifestações culturais e artísticas tradicionais) ficará em segundo plano entre os novos colonizadores, empenhados que estavam em garantir sua sobrevivência  no Buragiru, ou Brasil. Somente nos anos 1930 surgirão os primeiros núcleos de haiku entre os colonos, logo interrompidos com o início da segunda Grande Guerra. Nesse ambiente de grandes e tão duras limitações,  Nempuku Sato (1898-1979) irá destacar-se : interlocutor de Uetsuka e mentor de Goga. Nempuku irá comentar e difundir, a partir de 1933, o haiku produzido no idioma japonês no Brasil. Em 1948, lançará a revista mensal  Kokage, dedicada ao poema (que deixará de circular em outubro de 1979, ano da morte do poeta, após 372 números ininterruptos). Tendo em vista a qualidade de sua reflexão e criação poética, Nempuku irá tornar-se o principal representante no Brasil da escola NIPPOM-HÁ, de Massaoka Shiki. Considerando o ambiente de preconceito e exclusão que cercava a comunidade japonesa desde sua chegada ao país, especialmente após a guerra, os primeiros intercâmbios culturais apenas serão admitidos, ao menos publicamente a partir do final dos anos 1940, graças à iniciativa de Guilherme de Almeida
Pouco mais de uma década após a chegada dos primeiros imigrantes japoneses, caberá ao poeta, historiador e crítico literário, Afrânio Peixoto, em 1919, a forma do haicai a brasileiaro: três versos com cinco, sete, cinco pés, respectivamente, totalizando dezessete sílabas métricas. E nada mais.  Tendo em vista o parentesco do metro japonês (5-7) com a redondilha (menor e maior) esse formato será adotado por muitos praticantes do haicai.

Nesse período uma grande e impactante mudança estava para ocorrer no ambiente literário.: no início dos anos 1920, os modernistas romperão com a sintaxe e a métrica tradicionais, inaugurando o verso livre e, principalmente, impondo a linguagem coloquial há poesia (guardadas as circunstâncias da mesma maneira que o movimento empreendido pela escola Danrim, no Japão do século XVII). A temática também será virada do avesso: na era da novíssima Revolução Industrial e da velocidade o poeta descerá do Monte Parnaso e arredores (muitos a contragosto)  para viver o bulício das ruas. Nesse contexto o haicai deduzir-se-á a um terceto breve e bem humorado, cujo tema refletirá a novidade da vida urbana e burguesa, em contraste com a pasmaceira da roça do Brasil profundo, representado pela figura emblemática da figura do Jeca-Tatu, de monteiro Lobato que, de um lado inspira os modernistas a adotarem uma sintaxe livre, nativa e inventiva, deles se afasta, de outro, em virtude de seus valors éticos e estéticos.

1922 e o HAICAI

Em 1922, o haicai era não somente praticado como também discutido por poetas que participaram da Semana de Arte Moderna: após a consagradora estreia da rapaziada no Teatro Mu7nicipal de São Paulo, a revista Klaxon irá comentar, em seu segundo número, as transformações promovidas na poesia japonesa a partir de 1895 (no caso do haiku, como vimos, produzidas por Shiki). Intitulado “A poesia japonesa contemporânea”, o texto9 o texto será assinado pelo poeta japonês Nico Horigoutchi, colaborador da revista. Em “A escrava que não era Isaura, discurso sobre algumas tendências da poesia modernista”, obra escrita entre abril e maio de 1922, Mário de Andrade irá reconhecer a influência de “certos gêneros orientais, benefício que nos veio do passado romântico, os tankas, os haicais japoneses [...]”, na poética modernista.

Foi também neste ano mítico que Luís Aranha entregou a Mário de Andrade os manuscritos daquele que seria seu primeiro livro de poesia. Intitulado Cocktails, o livrinho continha quatro poemas anteriormente publicados em Klaxon, além de muitos inéditos. Em sua própria avaliação, Mário foi demasiado severo, qualificando a poesia de Luís Aranha como “preparatoriana”, e o livro como ”desastre definitivo”. Segundo mais de um crítico, seu juízo implacável condenaria o jovem autor ao silêncio estéril, encerrando, com esse episódio, sua trajetória poética – Cocktails  foi publicado somente em 1986, seis décadas após sua concepção. Em “Drogaria de éter e de sombra”, um dos três poemas longos que compõem a obra, Luís Aranha inseriu dois haicais, o mais saboroso deles inspirado em conhecido poema de Yamazaki Sohán (1465-1552. Trata-se dos primeiro haicais concebidos por um poeta brasileiro.

Após esta iniciativa pioneira, coube ao campeão do modernismo Oswald  de Andrade adotar o haicai em Pau Brasil, marco da poesia moderna. Paulo Prado prefaciador do livrinho publicado em Paris, em 1925, identifica na poética oswaldiana a concisão e a agudeza do haijin. Passados quatro anos, Oswald voltará ao terceto no livro-experimento Primeiro caderno de poesia do aluno Oswald de Andrade. Tendo em vista sua inclinação para a zombaria, muitos de seus poemas serão (deliberadamente) mal interpretados, recebendo o  o epíteto de “poema piada”, especialmente seus haicais.

No mesmo ano, Carlos Drummond de Andrade, ainda noviço na cena poética, irá praticar o haicai logo após reunir-se, em 1924, com Oswald, Mário e outro expoentes do modernismo em |Belo Horizonte, por ocasião de uma antologia jornada empreendida pelos paulistas às cidades históricas mineiras, com a intenção de “redescobrir o Brasil”. Seus seis primeiros haicais serão publicados na edição de 27 de junho de 1925 da então prestigiosa revista de variedades Para Todos.  O poeta voltará ao gênero em diversas oportunidades, seja espinafrar a censura nos anos de chumbo, seja para transpor em palavras a dor incomunicável da Pietá, de Michelangelo.

Outro modernista de primeira hora que se encantou com o poema japonês foi Manoel Bandeira. Apesar de ter produzido um único haicai em sua extensa oficina poética, publicado em Lira dos cinquent’anos (Poesias completas, 1940), Bandeira traduziu, com extrema sensibilidade, poemas de Bashô e do espanhol Juan Ramón Jiménez, prêmio Nobel de 1956. Dedicou também grande atenção ao poema do tratado “Versificação em língua portuguesa”, publicado em 1956 pela Enciclopédia Delta Larousse. O haicai estará igualmente presente em sua obra crítica e na correspondência com aigos de ofício, entre os quais Carlos Drumond de Andrade.
Fonte: Boa Companhia – HAICAIS, Organização, Seleção e Introdução, Rodolfo Witzig Guttilla, Companhia das Letras – 2009




Rodolfo Witzig Guttilla
Enviado por Benedita Azevedo em 19/01/2015
Alterado em 08/07/2026


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