Haicai, Verso e Prosa

Letras e Sentimentos

Meu Diário
26/07/2018 21h57
Como surgiram os Grêmios de Haicai Sabiá e Águas de Março?

I Parte - texto 1

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Histórico dos Grêmios de Haicai Sabiá e Águas de Março.

(Por Benedita Azevedo)

 

     Tudo começou quando em 2000, lancei meu primeiro livro “Voltando a viver”. Fiz vários lançamentos no mês de julho. No início do segundo semestre fui surpreendida em sala de aula por um chamado da diretora Maria Aparecida Alonso, à secretaria.

      A secretária portadora da missiva ficou com os alunos enquanto eu seguia, um tanto preocupada com tal convocação. A diretora foi ao meu encontro na porta da sala, me pegou pela mão e me conduziu ao fundo as sala e me apresentou a um senhor baixo, cabelos grisalhos, com meu livro na mão:

         - Professora este é o escritor José Inaldo Alonso, da Academia Niteroiense de Letras e da Academia Mageense de Letras. Ele leu seu livro e que conhecê-la. Leve-o até a sala dos professores e fiquem à vontade.

         Ele se apresentou como professor de história aposentado e escritor. Disse que gostara do meu livro e viera de Niterói a Magé me fazer o convite a participar do Grupo Mônaco de Literatura. As reuniões seriam aos sábados das 10:00 às 12:00h, na Papelaria Ideal.

         Ao comparecer à reunião, soube que teria o lançamento do livro da escritora Lena Jesus Ponte: “Na trança do tempo”- haicai, na semana seguinte. Nunca tinha lido um haicai. Conhecia apenas a definição: poema de forma fixa, composto  em 3 versos e 17 sílabas.

         Ganhei do José Alonso um livro de presente, com a dedicatória da autora. Em casa li todos os poemetos e gostei muito. Mas quando li, ao final, o texto “Uma poesia Imigrante”, senti que estava na minha área preferida: História da Literatura. A forma e o metro, Pimentel fez questão de explicar. O primeiro exemplo que aparece no pequeno ensaio é o de Guilherme de Almeida:

O haicai

Lava, escorre, agita

A areia. E enfim, na bateia,

Fica uma pepita.

 

Logo adiante surgia o de Matsuo Bashô, com essa tradução. Eu não conhecia o autor, nem o haicai:

 

Na velha lagoa

Pro fundo uma rã mergulha.

Barulho das águas.

 

A seguir, o haicai de Antônio Luís Pimentel, a mais bela definição de haicais que conheço:

 

Que é um haicai?

É o cintilar das estrelas

Num pingo de orvalho.

 

Gostei dos haicais da Lena, especialmente deste:

 

Tece a aranha a teia.

A trama do seu tecido

A tudo se liga.

 

     Na mesma data, ganhei de Luiz Antônio Pimentel, o livro de Vinicius Sauerbronn “Poesia budista” no qual consta o  artigo “Gênese do haicai”  de Pimentel.

 

Neste estudo ele fala da waka, poesia típica que vem desde a era dos deuses (Kamiyo-Jidai), quando o Japão era todo um céu. Foi sem dúvida alguma, Susano-Wo-no-Mikoto, irmão do Deusa Sol, fundadora do império do Sol Nascente, quem compôs a primeira waka que não se perdeu através dos séculos.

         Assim falou o primeiro poeta que a história do Japão consagrou:

 

“Yagumo tatsu

Izumo yaegaki

Tzumagomi ni

Yaegaki tsukuru

Sono Yaegaki wo”

 

Ou seja em português:

 

“Andei oito nuvens

Até as terras de Izumo...

Ergui oito muros

- um castelo de oito muros,

Para guardar minha amada.

 

     A waka, que tem na parte superior versos de cinco, sete, cinco sílabas, e na parte inrerior, dois vrsos de sete, somando ao todo trinta e uma sílabas, é também chamada Shikishima-no-michi, que quer dizer: à maneira de Shikishima (nome antigo do Japão, ou anida Yamato uta, poema japonês.

 

     Há mais de mil e cem anos foi publicada a primeira obra clássica de waka, intitulada Manyo-shu, primorosa coletânea de poesias feitas por de todas as castas, desde imperadores até soldados e agricultores, que ainda em nossos dias é editada, lida e comentada pelo seu grande valor como documento histórico. Os poetas máximos dessa época foram Hitomaro, Akahito, Okura, Yakamochi e outros.

     Mais tarde, na Era do Imperador Daigo (ano 922 da nossa era) foi compilada uma outra coletânea, ou melhor, uma antologia não menos notável, intitulada Kokin-shu (coletânea de antigas e novas wakas), de onde selecionaram os cem poemas célebres que estão ornamentando as cartas usadas para jogar durante os dias festivos do Ano-Novo no Japão.

     Essa nova obra veio enriquecer sobremaneira a poesia japonesa, lançando nomes como Tsurayuki, Narahira e a poetisa Komachi que marcou época no Império das Cerejeiras em Flor, ficando famosa, não somente pelo seu talento invejável, pela sua inspiração divina, mas, principalmente, por sua incomparável beleza. Seu nome ainda hoje no Japão é empregado como sinônimo de mulher bela e talentosa.

     Daí por diante, várias séries de waka, surgiram, mas já sob o controle do Governo, sem contudo lograr o sucesso marcante, definitivo, absoluto, das publicações anteriores.

     Na Era Meiji, em que o imperador só de 1893 a 1901 produziu nada menos que 27.000 wakas, surge Shiki Massaoka, dando novos rumos, emprestando à waka novas normas, afastando-a um pouco dos moldes demasiadamente clássicos, cristalizados, viciados,  gastos através dos séculos. Foi quando se projetou a famosa poetisa Akiko e o poeta Takuboku liderando outros nomes que, igualmente, ficaram gravados para sempre na história da poesia japonesa.

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     A minha convivência com Antônio Pimentel, no Grupo Mônaco, e a leitura desses dois primeiros livros onde conheci o assunto foram o início do meu interesse pelo haicai. Mas, como ainda lecionava 60h/aula por semana, não pude dedicar-me como gostaria. Entretanto, comecei a escrever meus tercetos  e mostrar a ele, que lia e conferia as sílabas.  Lancei meu primeiro livro, sem ainda conhecer a cultura do kigo.

     Luiz Antônio Pimentel tornou-se um grande amigo. Foi ele quem me falou do Nippo Brasil e me passou o endereço eletrônico da coluna para enviar os haicais: zashi@nippobrasil.com.br

     Em 30 de maio de 2004, com o kigo “Arrebol de outono”, foram publicados meue primeiros haicais:

 

Início da noite.

Na esquina da praia

o arrebol de outono.

 

Praia de Mauá.

O arrebol de outono vê-se

No espelho das águas.

 

Em maio de 2005 foram publicados mais dois dos meus haicais:

 

Nas flores do beijo,

Gotas de orvalho cintilam

Logo de manhã.

 

Na casca do milho,

Para o café da manhã

Gostosas pamonhas.

 

Nunca mais parei de compor haicais tradicionais ou clássicos. E criei o “Projeto Haicai na Escola” lançado em outubro de 2004, para levar o haicai às crianças. (Próxima publicação)

Inverno de 2018

EMI (恵美)Benedita Azevedo

 

 


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19/03/2018 16h40
Casa de Jamil Munbarak

A casa de Jamil Munbarak

       A Casa São Pedro, construída em 1942, por Bernardo Thiago de Mattos, quando resolveu urbanizar a cidade de Itapecuru Mirim. Lá passou a funcionar o comércio de secos e molhados de Jamil Munbarak, que mais tarde, em 1948, construiu ao lado, sua residência, segundo anotações, no texto de Jucey Santana.

       Era uma das casas onde fazíamos compras. Princippalmente, os aviamentos para mamãe que era costureira. Quando não tinha na casa de Helena, como era conhecida a Casa São Pedro, comprávamos na casa de Mundiquinho Mendes, na Rua do Egito.

        Os irmãos Jamil e Helena Munbarak eram os padrinhos de minha irmã caçula, Maria do Socorro. Não sei precisar a data, mas lembro quando Jamil se casou. Eu era pequena, doze ou treze anos. Um dia entrei com mamãe no comércio. Ela cumprimentou o compadre e parabenizou-o pelo casamento. A esposa estava com ele no comércio e foi apresentada à comadre.

        Ele pediu à esposa que mostrasse a casa para mamãe. Saímos do comércio e entramos na residência. Nos fundos, após uma área interna, contornamos uma pilha de tijolos, para chegarmos aonde estavam sendo construídos novas dependêcias para Helena e Nazaré, já em fase de conclusão. 

       As duas irmãs se revezavam no Comércio, ao lado do irmão. Após o casamento, mesmo Maud sendo professora no Grupo Escolar Gomes de Sousa, eu a vi muitas vezes, ao lado do marido trabalhando na Casa São Pedro.

      Em 2011, numa das minhas idas a Itapecuru, fiquei hospedada no Hotel Brasil, X com a Casa São Pedro. A cor, o letreiro, as portas, tudo continuava como sempre! Tive curiosidade de saber como estavam aquelas pessoas que eu conhecia há tanto tempo, e fui visitá-los! Lá estavam Jamil e Maud no comércio. Perguntei a eles se lembravam de mim e disse meu nome:  Sou Benedita. Na hora, ele falou: Você não é a filha do compadre Euzébio e da comadre Rosinha que foi para o sul? Diante da minha confirmação ele começou a contar a história da morte do meu irmão, em 1954, quando eu tinha dez anos. Na conversa ele falou da tristeza que sentiu quando soube da morte de meus pais: mamãe em 09/12/93 e Papai em 07/04/96.

      No dia seguinte, voltei com Jucey Santana, que eu acabara de conhecer e andava pesquisando a vida de Mariana Luz. Jamil sabia de tudo. Parecia uma enciclopédia. Os olhos brilhavam diante das nossas perguntas.

      Antes de sairmos, tiramos fotos do casal e nossas.  Ele me disse: Vem aqui amanhã que quero te mostrar os instrumentos de tortura da época da escravidão.

     No dia seguinte, voltei, tirei fotos dos objetos e foi o último contato que tive com os amigos.

     Ao retornar, em 2016, a casa estava fechada. O casal estava em São Luís em tratamento de saúde! E agora, esta notícia de que a casa será demolida! Sangra meu coração!

Benedita Azevedo

Rio de Janeiro, 19 de março de 2018

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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22/02/2018 14h37
Feitos de Afrânio Peixoto, na Medicina e nas Letras

“Para quem teve o privilégio de conhecê-lo, como eu o conheci, em longo convívio, quase dia a dia, houve dois Afrânio: um que se transferiu para seus livros; outro, que não se separou do próprio Afrânio, e que o acompanhava aos salões, aos encontros de rua, às conferências e às salas de aula. O segundo, sem dúvida alguma, era maior que o primeiro. Porque os livros não conseguiam captar e guardar todo o fulgor da inteligência do mestre baiano, que dava de si, com todo o brilho, no improviso de uma palestra ou de uma conversa.”

[MONTELLO citado por

VENÂNCIO FILHO, 2007, p. 8].

 

 

Terceiro ocupante da Cadeira 7, eleito em 7 de maio de 1910, na sucessão de Euclides da Cunha e recebido em 14 de agosto de 1911 pelo Acadêmico Araripe Júnior. Recebeu os Acadêmicos Osvaldo Cruz em 26 de junho de 1913,Aloísio de Castro em 15 de abril de 1919 e Alcântara Machado em 4 de outubro de 1933. Foi sucedido por Afonso Pena Júnior.

Afrânio Peixoto (Júlio A. P.), médico legista, político, professor, crítico, ensaísta, romancista, historiador literário, nasceu em Lençóis, nas Lavras Diamantinas, BA, em 17 de dezembro de 1876, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 12 de janeiro de 1947.

Foram seus pais o capitão Francisco Afrânio Peixoto e Virgínia de Morais Peixoto. O pai, comerciante e homem de boa cultura, transmitiu ao filho os conhecimentos que auferiu ao longo de sua vida de autodidata. Criado no interior da Bahia, cujos cenários constituem a situação de muitos dos seus romances, sua formação intelectual se fez em Salvador, onde se diplomou em Medicina, em 1897, como aluno laureado. Sua tese inaugural, Epilepsia e crime, despertou grande interesse nos meios científicos do país e do exterior. Em 1902, a chamado de Juliano Moreira, mudou-se para o Rio, onde foi inspetor de Saúde Pública (1902) e Diretor do Hospital Nacional de Alienados (1904). Após concurso, foi nomeado professor de Medicina Legal da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (1907) e assumiu os cargos de professor extraordinário da Faculdade de Medicina (1911); diretor da Escola Normal do Rio de Janeiro (1915); diretor da Instrução Pública do Distrito Federal (1916); deputado federal pela Bahia (1924-1930); professor de História da Educação do Instituto de Educação do Rio de Janeiro (1932). Reitor da Universidade do Distrito Federal, em 1935. Após 40 anos de relevantes serviços à formação das novas gerações de seu país, aposentou-se.

Sua estreia na literatura se deu dentro da atmosfera do simbolismo, com a publicação, em 1900, do drama Rosa mística, curioso e original drama em cinco atos, luxuosamente impresso em Leipzig, com uma cor para cada ato. O próprio autor renegou essa obra, anotando, no exemplarexistente na Biblioteca da Academia, a observação: “incorrigível. Só o fogo.” Entre 1904 e 1906 viajou por vários países da Europa, com o propósito de ali aperfeiçoar seus conhecimentos no campo de sua especialidade, aliando também a curiosidade de arte e turismo ao interesse do estudo. Nessa primeira viagem à Europa travou conhecimento, a bordo, com a família de Alberto de Faria, futuro acadêmico, da qual viria a fazer parte, sete anos depois, ao casar-se com Francisca de Faria Peixoto. Quando da morte de Euclides da Cunha (1909), foi Afrânio Peixoto quem fez o laudo de autópsia.

Ao vir ao Rio, seu pensamento era de apenas ser médico, tanto que deixara de incursionar pela literatura após a publicação de Rosa mística. Sua obra médico-legal-científica avolumava-se. O romance foi uma implicação a que o autor foi levado em decorrência de sua eleição para a Academia Brasileira de Letras, para a qual fora eleito à revelia, quando se achava no Egito, em sua segunda viagem ao exterior. Começou a escrever o romance A esfinge, o que fez em três meses antes da posse em 14 de agosto de 1911. O Egito inspirou-lhe o título e a trama novelesca, o eterno conflito entre o homem e a mulher que se querem, transposto para o ambiente requintado da sociedade carioca, com o então tradicional veraneio em Petrópolis, as conversas do mundanismo, versando sobre política, negócios da Bolsa, assuntos literários, artísticos e viagens ao exterior. Em certo momento, no capítulo “O Barro Branco”, conduz o personagem principal, Paulo, a uma cidade do interior, em visita a familiares, ali residentes. Demonstra-nos Afrânio, nessas páginas, os aspectos da força telúrica com que impregnou sua obra novelesca. O romance, publicado em 1911, obteve um sucesso incomum e colocou seu autor em posto de destaque na galeria dos ficcionistas brasileiros. Na trilogia de romances regionalistas Maria Bonita (1914) Fruta do mato (1920) e Bugrinha (1922). Entre os romances urbanos escreveu “As razões do coração” (1925), “Uma mulher como as outras” (1928) e “Sinhazinha”(1929).

Afrânio Peixoto, foi o primeiro autor brasileiro de haicai. Em 1919, através de seu livro Trovas Populares Brasileiras, prefaciou suas impressões a respeito do poema japonês e publicou cinco haicais comparando a trova brasileira com o haicai japonês.

“Os japoneses possuem uma forma elementar de arte, mais simples ainda que a nossa trova popular: é o haikai, palavra que nós ocidentais não sabemos traduzir senão com ênfase, é o epigrama lírico. São tercetos breves, versos de cinco, sete e cinco pés, ao todo dezessete sílabas. Nesses moldes vazam, entretanto, emoções, imagens, comparações, sugestões, suspiros, desejos, sonhos... de encanto intraduzível"

[Peixoto.Afrânio, in Trovas Brasileiras, págs. 13 - 14, W.M. Jacson, INC. Editores, Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, 1944]

 Foi, ainda, Afrânio Peixoto, que fez a primeira referência textual do haikai em forma de ensaio,“O  HAIKAI JAPONÊS OU EPIGRAMA LÌRICO” na revista Excelsior,  janeiro de 1928, p, 18 - 20. Mais tarde esse artigo foi utilizado no seu livro “Missangas”– Poesia e Folklore, publicado em 1931, pela Companhia Editora Nacional, Rua dos Gusmões,26-28 São Paulo – Brasil, 1931.

         Naquela época, em que respirava os ares "verde-amarelo"do Movimento Modernista Pei-xoto defendia a naturalização do Hai-Kai. Dizia ele:

"Em francês, inglês, alemão aparecem haikais. Dir-se-á que assim não devera ser, e ao Japão os devíamos deixar. Então o epigrama ficaria heleno, a sátira romana, o romance novo-latino, o soneto italiano, a balada, a canção, o conto... seriam privativos de certos povos e não universais formas de arte... O haikai merece naturalização".

Para incitar os poetas nacionais, tão fáceis de obter maravilhas de adoção, o mais íntimo dos meus amigos lhes oferece esta recolta de haicais brasileiros, como se lhes desse kakis de Barbacena ou de São Paulo, já naturalizados, escreveu no ensaio "O haikai japonês ou epigrama lírico"                              [Missangas p. 239]

“Peixoto disse ainda: Bashô, o mestre de todos os grandes líricos japoneses do “haikai”, trinou: “Na composição não se vá compor de mais”. Perder-se-ia o natural. Que vossos pequenos poemas venham do coração”.

 

Dotado de personalidade fascinante, irradiante, animadora, além de ser um grande causeur e um primoroso conferencista, conquistava pessoas e auditórios pela palavra inteligente e encantadora. Como sucesso de crítica e prestígio popular, poucos escritores se igualaram na época a Afrânio Peixoto.

Na Academia, teve também intensa atividade. Pertenceu à Comissão de Redação da Revista (1911-1920); à Comissão de Bibliografia (1918) e à Comissão de Lexicografia (1920 e 1922). Presidente da Casa de Machado de Assis em 1923, promoveu, junto ao embaixador da França, Alexandre Conty, a doação pelo governo francês do palácio Petit Trianon, construído para a Exposição da França no Centenário da Independência do Brasil. Em 1923 criou a Biblioteca de Cultura Nacional dividida em : História, Literatura, Dispersos e Biobibliográfica, iniciando esta série com a biografia de Castro Alves. Em sua homenagem a coleção passou a ter o nome de Coleção Afrânio Peixoto.

Como ensaísta escreveu importantes estudos sobre Camões, Castro Alves e Euclides da Cunha.Em 1941 visitou a terra natal, Bahia, depois de 30 anos de ausência e publicou 2 livros: “Breviário da Bahia” (1945) e “Livro de Horas” (1947).

Afrânio Peixoto procurou resumir sua biografia o seu intenso labor intelectual exercido na cátedra e nas centenas de obras que publicou em dois versos: “Estudou e escreveu, nada mais lhe aconteceu.”

Era membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, da Academia das Ciências de Lisboa; da Academia Nacional de Medicina Legal, do Instituto de Medicina de Madri e de outras instituições.

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Praia do Anil, 28/05/2015  

[Benedita Silva de Azevedo]

 

 

 

 

 

 

 


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11/02/2018 10h54
Trilha Errante de Bashô

                (Alberto Marsicano)

 

Matsuo Bashô nasceu em 1644 em Ueno, pequena cidade japonesa da província de Iga. Seu pai, Matsuo Yozaemon, era um samurai a serviço do shogunato da família Todo que vivia como professor de caligrafia. (Existe grande similitude entre a arte da espada (Ken-dô) e a arte da caligrafia (Sho-dô). Mas a sorte de Bashô estaria traçada aos nove anos, ao tornar-se amigo do jovem Todo Yoshimada, herdeiro do poderoso clã. Ambos são iniciados na arte da poesia, sob a orientação de Kitamura Kigin (1624-1705) discípulo do renomado Teitoku. Bashô adota o nome literário de Sobo e seu companheiro de Sengin. Estudam com este mestre anos a fio a caligrafia, a poética japonesa e o verso clássico chinês. O primeiro haikai de Bashô data de 1662 quando contava com 18 anos.

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haru ya koshi

toshi ya yukiken

kotsugomori

.

chegou a primavera

ou se foi o ano velho?

véspera do ano novo.

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Referência: MATSUO Bashô, Trilha Estreita ao Confin ( tradução: Kimi Takenata, Alberto Marsicano), São Paulo, Iluminuras, 1997


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24/01/2018 00h51
RENGA: Chuva de verão: Comentários: Regina Alonso -

 

Chuva de verão –

Barulho de água na calhas,

no mais, o silêncio.

Dormem juntinhos na gruta

o rebanho e o pastor.

.........Carlos e Regina

-

Os primeiros versos trazem com sensibilidade e maestria a chuva de verão, forte e rápida: resta apenas o barulho sutil da água nas calhas. No dístico, o silêncio prevalece na quietude do sono do pastor (homem que cuida, tal qual a mãe) junto ao rebanho (a lembrar os filhos) na gruta (útero primevo). O renga é prática antiga usada muito antes de Bashô (séc XVII): considero este início muito feliz e adequado ao renga, pois os versos se encadeiam numa cena, ritmo e silêncio que traz a natureza (homem, chuva, animais) no tempo de hoje (agora) mas que nos permite sentir o outro tempo (distante, anterior) longíquo quando começou o renga.

-

Dormem juntinhos na gruta

o rebanho e o pastor.

Guardando a entrada

a cadela de vigia --

Estronda o trovão.

----------Regina e Benedita.

-

Mudança do ambiente com sutileza, da quietude para o movimento/barulho: o verso 'a cadela de vigia' sugere que algo pode acontecer... E o silêncio é quebrado com o barulho do trovão.

-

Guardando a entrada

a cadela de vigia --

Estronda o trovão.

"O relâmpago ilumina

as casas na noite escura".

----------Benedita e Carlos

-

As casas estarão à escura por que é noite ou faltou luz com o estrondar do trovão? O que importa é o contraponto do clarão com o escuro da noite, trazendo o belo mesmo diante do perigo... 'do homem que vive o risco de viver', apenas viver é o que vale! Contrapondo também ao guardar (remete à vigilância, em silêncio e com atenção) a entrada da gruta, o barulho do trovão. O encadeamento se faz por esses contrapontos...

-

"O relâmpago ilumina

as casas na noite escura".

Tempo nebuloso

risca o céu de colorido –

Duplo arco-íris.

----------Carlos e Sandra

-

Ainda é verão (o kigo arco-íris é típico de verão, quando apresentam arcos bem nítidos e grandiosos), mas o renga é levado para outro lado, da escuridão/negror, do barulho e talvez medo, para o arco-íris em cores duplicadas, trazendo luz, alegria com muita sutileza: nada é explícito... apenas sugerido.

-

Tempo nebuloso

risca o céu de colorido –

Duplo arco-íris.

No pontilhão da cidade

sorri casal de mendigos.

-----------Sandra e Regina

-

A alegria da luz e da cor é ampliada até aos mendigos, que sorriem, esquecidos talvez das agruras da vida de privações diante da vivacidade (que bem caracteriza o verão) sugerida. Achei muito adequado ao andamento do renga, o 'casal' numa relação sutil com o 'duplo' arco-íris, reforçando a sensação de que os sonhos efervescem nesta estação.

-

No pontilhão da cidade

sorri casal de mendigos.

Voluntário chega

com uma sopa quentinha

após o toró

-----------Regina e Clara

-

Oportuna não só a chegada do voluntário com a sopa quentinha, amarrando bem com os mendigos num clima de solidariedade, mas também 'o toró' que quebra o andamento anterior, mais suave... A sopa foi servida 'após o toró', que 'fecha' inesperadamente o momento, o acontecer. A gente sente que tudo se alterna em diferente andamento, quase como a lembrar 'depois da tempestade vem a bonança'.

-

Voluntário chega

com uma sopa quentinha

após o toró

Na frente da Catedral

os moradores de rua.

---------------Clara e Nilza

-

Antes os mendigos, agora os moradores de rua compõem a cena talvez numa praça onde está a Catedral. Confesso que tive medo de que o renga corresse o risco de 'parar', prender-se na mesma situação (pessoas em estado de risco). Mas... a Catedral remete à praça, e a praça é espaço livre, 'é espaço do povo' (moradores de rua, mendigos, etc): todos que ali chegam são acolhidos pelo espaço/ações e o renga continua a andar, a correr também livre...

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Na frente da Catedral

os moradores de rua.

Bando de andorinhas -

O céu por alguns instantes

no olhar do menino.

--------------Nilza e Rose

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As andorinhas (de verão, assim eu sinto) levam também nossa atenção para o voo (movimento alto) e ao mesmo tempo que desviam da cena anterior, fazem o encadeamento com o olhar do menino (que pode ser um dos moradores de rua). A expressão 'por alguns instantes' conduz o renga com agilidade, pois tudo acontece num átimo de tempo.

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Bando de andorinhas -

O céu por alguns instantes

no olhar do menino

Uma ponta de saudade

passa pelo pensamento.

----------Rose e Sandra

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As andorinhas em bando dão o clima de partida ou chegada, propício à saudade, que dá continuidade ao renga levando-o com harmonia.

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Uma ponta de saudade

passa pelo pensamento.

Revoada de pombos

em torno do coreto ---

Manhã de verão

-----------Sandra e Carlos

-

Os pombos voam, geralmente fazem barulho, afinal é verão e é manhã, o horizonte se alarga... A saudade parece ir embora, como se o movimento da revoada limpasse a cena anterior, sem perder o encadeamento, pois podemos imaginar que há pessoas no coreto ('ponta de saudade/passa pelo pensamento'... 'pensamento' traz o homem...). Encadeamento perspicaz entreos versos da 1ª e da 2ª estrofe.

-

Revoada de pombos

em torno do coreto ---

Manhã de verão.

A criançada na creche

corre na recreação!

-------------Carlos e Benedita

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Tudo é movimento, a vivacidade é típica do verão: pombos (aves) e crianças (gente), todos seres vivos, alegres na claridade e calor desta estação. Encadeamento se dá pela evolução da agitação da revoada dos pombos 'livres' em volta do coreto para a correria das crianças 'presas' (num espaço fechado) na creche. Essa contraposição entre os espaços "aberto/fechado" foi sutil e movimentou/'levou' o renga com presteza.

-

A criançada na creche

corre na recreação!

As folhas ao sol

lembram a arte da Criação

por puro Amor...

-----------Benedita e Antonio

-

O haicai prestigia a natureza, ou melhor, é a natureza que 'fala' ao haijin. O homem é natureza e sabe que o Amor é o fulcro do convívio em harmonia com todos os seres vivos. O mistério da Criação trazido pelo brilho/luz das flores ao sol, parece iluminar também o haijin, que sutilmente (sem explicitar), coloca-se com humildade e nos passa gratidão pela vida.

Oportuno lembrar H. Masuda Goga: Quase todos os que estudam o haicai acreditam que Bashô escreveu seus poemas de acordo com a iluminação Zen. Portanto, pensam que o haicai é uma poesia que nasceu do zen-budismo. Mas o próprio Bashô disse que não era bonzo nem adepto da seita Zen, apesar da grande amizade com o bonzo Bucchô. Bashô foi espiritualmente influenciado pelo bonzo amigo, de forma profunda, tendo a sua atitude perante a arte se tornado cada vez mais rigorosa e séria. Ele ficou sensibilizado pelas vicissitudes não só da vida humana, mas também dos outros seres vivos que habitam o universo (o trecho grifado por mim, acredito, remete ao que comentei anteriormente).

As crianças correm (movimentam-se) no seu viver, mas as folhas imóveis (supõe-se) recebem direto a 'luz'(criação), sem fazer qualquer movimento/ação. Encadeamento pelos opostos 'movimento Ximobilidade'.

-

As folhas ao sol

lembram a arte da Criação

por puro Amor...

Caminhantes continuam

pela alameda em flor.

------------Antonio e Regina

-

Gosto da ideia do caminhante (cada homem no caminho, no seu viver) continuar apesar das vicissitudes, isto é, apenas viver. Entregar-se ao que é traz as flores que me remetem à leveza, ao belo... e o renga caminha 'naturalmente', sem ficar 'engessado' na imobilidade das folhas (imobilidade? talvez entregues à luz natural, dádiva - do Sol; ser criatura por arte da Criação... por puro Amor).

-

Caminhantes continuam

pela alameda em flor.

O sol ardente

plácido corre o riacho

homens conversam

------------Regina e Antonio

-

E o renga continua , mas percebemos que o andamento muda: da leveza para o sol ardente, talvez dezembro (início das férias de verão) ou quem sabe fevereiro (quando terminam as férias de verão), dois meses bem quentes. Gostei da placidez do riacho contrapondo-se ao calorão que 'abate', mas o riacho está cheio devido às chuvas típicas dessa estação... as águas correm seguindo seu curso natural... e parecem levar os homens para o encontro com o outro, quem sabe sentados nas pedras ao redor do riacho... e a conversa 'rola' espontânea como as águas.

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O sol ardente

plácido corre o riacho

homens conversam

Dois pescadores de anzol

enchem a cesta de peixes.

------------Antônio e Benedita

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O encadeamento se dá pela água do riacho que leva dois homens à pescar. Tudo é harmonia, a conversa cessa e faz-se silêncio, podemos supor, quando os homens ficam atentos a escolher e prender iscas. Depois, imaginamos o silêncio interrompido pelo lançamento do anzol nas águas e quem sabe até pelas expressões de espanto, alegria (ou decepção) com o peixe que vem preso ao anzol e vai para a cesta.

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Dois pescadores com anzol

enchem a cesta de peixes.

Tarde preguiçosa ―

Em uníssono as cigarras

na mata do rio.

---------Benedita e Carlos

-

Agora o encadeamento se faz por similitude de sons: antes, ruídos, expressões quase barulho 'leve' (permitam-me para ser mais clara); agora o zunir inconfundível das cigarras rompe com força, quebra de vez o silêncio e nos leva mais longe, adiante... para a mata.

-

Tarde preguiçosa ―

Em uníssono as cigarras

na mata do rio.

voa, voa um passarinho

sobre o mistério da tarde

-------- Carlos e Rose

-

Percebo que a tarde finda, pela agregação da palavra 'mistério' ao último verso. O renga segue no voo do de um só passarinho. Talvez a intenção seja passar do zunir de muitas cigarras (em uníssono) para a tarde que se vai, sem pressa, no voo de 'um só' passarinho. Da tensão forte do canto estrídulo das cigarras afrouxamos para o voo do pássaro em solidão e provável silêncio, ao entardecer. Gostei da mudança de 'muitas' (cigarras) para 'um', solidão que sempre perpassa o entardecer (embora no verão haja a alegria das cores, do dia/luz que se alonga... porém, na mata, a solidão ao entardecer é mais 'visível/sentida', mesmo nessa estação).

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voa, voa um passarinho

sobre o mistério da tarde

Apenas silêncio

e o arrebol de verão -

Olhar para o céu...

------------Rose e Marco

-

Encadeamento sutil. Sinto que o silêncio 'arde' ao sol poente, quando o vermelho intenso, vivo e brilhante cobre o céu, que parece em chamas... E quase intuitivamente, erguemos os olhos ao céu e contemplamos algo que é 'fogo', beleza do fenômeno natural. Há contemplação e movimento da cabeça para o alto que conduzem com muita sutileza, o renga.

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Apenas silêncio

e o arrebol de verão -

Olhar para o céu...

Lá sobre a Serra do Órgãos

a cachoeira murmura

--------------Marco Aurélio

-

O encadeamento traz cena de extrema beleza. A cachoeira, no verão, abundante, devido às chuvas. O curso do rio, em queda vertical. A denominação do local coloca o renga 'no chão', no real acontecer e sai do clima de silenciosa contemplação. Agora a cachoeira murmura e os sons despertam, cortam a quietude e conduzem o renga.

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Lá sobre a Serra do Órgãos

a cachoeira murmura

Uma gota d’água

Pinga, pinga persistente

Perfurando a rocha

-------------Benedita e Pedro

-

Excelente a passagem da abundância de água para um pingo e sua força. O pingo, na persistência de seu fazer/ser, perfura a rocha... Os versos me fizeram lembrar de Bashô em sua viagem pelo Japão inóspito e longínquo, especialmente ao norte. E ele continuou, enfrentando o árduo caminho para levar a poesia, praticar com os que o recebiam... e exultar ao encontrar, compartilhar e ouvir/colher tão belos poemas, sem saber que precisaria vir longe, tão longe para encontrar a beleza! Esse encadeamento (e andamento do renga) para mim é de extrema sensibilidade e percepção.

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Uma gota d’água

Pinga, pinga persistente

Perfurando a rocha

a tarde vai se esvaindo

e esta chuva que não cessa.

-------------Pedro Caluchi e Elisa

-

A chuva está de volta ligando-se perfeitamente ao pingo persistente. Tudo se esvai, o tempo (a tarde)... e faz sentir a impermanência, o transitório viver, eterna mudança, tempo inexorável. Só a chuva teima em permanecer: o último verso ('e esta chuva que não cessa) dá sensação de impaciência (nostalgia?) do homem, talvez até cansado de esperar por uma trégua (mudança meteorológica). A tarde passa, só a chuva fica, o contraditório no inabalável (tarde e chuva): tarde inexorável passa e chuva, também inexorável, parece ter vontade própria e permanece, apesar da vontade do homem consciente de que não pode mudar o que é. Este sentimento de impossibilidade, tempo e espera da mudança (nova estação?) é que,contraditoriamente conduz o renga.

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a tarde vai se esvaindo

e esta chuva que não cessa.

vai chegando a noite

cantam os pássaros pretos

entre o bambuzal

------------Elisa e Severino

-

Oportuna a chegada dos pássaros pretos (vivem em pequenos bandos, fazem muito barulho) – indica mudança de estação: verão para outono (talvez se iniciando e nos livrando do calor abafado). Conhecido como graúna, assum-preto, melro... é inteiro negro, o que origina seu nome popular. A noite está chegando: ainda há luz e podemos vê-los no lusco-fusco do anoitecer. É um dos pássaros de voz mais melodiosa, o que nos faz imaginar a beleza da canção que passa entre as hastes e folhas do bambuzal e conceber ainda o arrepiar das penas da cabeça e pescoço, enquanto canta. Até a fêmea canta. O canto dos pássaros avisa sutilmente, que a chuva passou. O renga é levado (e nos leva) à passagem da tarde para a noite pelo canto harmonioso. O movimento dos bambus (podemos pressupor que são novos, com hastes flexíveis e folhas viçosas) completam o andamento, encadeando e levando o renga numa composição de cena cheia de formosura, diminuindo a sensação de monotonia e melancolia do outono.

-

vai chegando a noite

cantam os pássaros pretos

entre o bambuzal

num farfalhar de folhas

meus passos seguem a trilha

-------------Severino e Elisa

-

A chuva cessa, os pássaros cantam e o homem (o próprio poeta?) pode seguir a trilha, o caminho que a natureza lhe aponta. O encadeamento sutil se faz pelos sons (do forte ao leve): do canto intenso dos pássaros pretos ao farfalhar (rumorejar, ciciar) de folhas.

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num farfalhar de folhas

meus passos seguem a trilha

Noite silenciosa...

só o grito da coruja

rasga a escuridão!

------------Elisa e Benedita

-

O tempo vai com os passos do caminhante, tempo que se amplia, alonga pelo caminho (vida?) sem fim... e o grito da coruja na escuridão, lembra a 'morte' do verão e do outono, pois tudo passa na roda do viver-morrer, recomeçar no novo tempo (estação/inverno) anunciado pelo grito que rasga a escuridão. A coruja procura abrigo e alimento? O que importa é o círculo do tempo inexorável, que faz um encadeamento forte pela 'quebra' do cicio das folhas ('quase' silêncio) ao grito da coruja. E leva o renga pelo caminho (tempo inabalável do homem).

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Noite silenciosa...

só o grito da coruja

rasga a escuridão!

Passa, na noite sem lua,

o jovem casal em juras.

--------------Benedita e Carlos

-

Sim, contraditório é o tempo: transitório pelas estações, em constantes mudanças e inflexível diante do mistério 'vida-morte' (nascer para morrer... morrer para nascer). É inverno (coruja é kigo de inverno), e o encadeamento se faz pela 'noite sem lua', que reforça o escuro da cena anterior, mas sem 'colar' no negror, pois aparece 'o jovem casal em juras', o que 'ilumina' o poema de 'outra luz '(do amor? do convívio?). O que vale é o andamento e mudança de tensão intensa para afrouxamento pela cena de aconchego.

-

Passa, na noite sem lua,

o jovem casal em juras.

Silêncio na noite

aves pousadas nos ramos

anjos sobre a terra

---------------Carlos e Rose

-

Confesso que me fiquei um pouco perdida no último verso. Senti necessidade de saber um pouco sobre o que são os anjos: mais poderosos do que os humanos, vivem no céu. Seres espirituais, sem um corpo físico real, mas têm inteligência, emoções e vontade. O fato de não terem corpos não muda o fato de terem suas personalidades. Criados como uma ordem superior de criaturas no universo, em comparação aos seres humanos, é de sua natureza possuir maior conhecimento, adquirido através da longa observação das atividades dos humanos.

Podemos imaginar no frio da noite sem lua, o casal em juras. E vem o silêncio das aves em pouso nos ramos... o casal em juras seria a personificação dos anjos sobre a terra? Sinto-me confusa e apreensiva - o renga vai ficar paralisado? Ou será conduzido pelos seres espirituais que adquirem conhecimento observando o casal em juras e neste caso não haveria personificação? Seriam anjos mesmo sobre a terra, mesmo sem corpo físico, mas personificados pelas aves em pouso nos ramos?

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Silêncio na noite

aves pousadas nos ramos

anjos sobre a terra

Nem passarinhos verão

a morna chuva de estrelas.

-------------Rose e Marco

-

Lindo e oportuno o último verso, 'a morna chuva de estrelas', que condiz com o clima anterior, mas traz a renovação do renga, ao propor um caminho novo, surpreendente. A chuva é morna, tépida e real, mas só vista pelos que contemplam, pelos que erguem os olhos às alturas? 'Nem passarinhos verão' reforça a natureza das alturas (céu, estrelas) a acontecer inexoravelmente, diante ou distante de qualquer olhar Parece-me que intuitivamente a primavera se insinua.

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Nem passarinhos verão

a morna chuva de estrelas.

Chia no fogão

a comida preferida

pescada frita

-------------Marcos e Regina

-

Pescadinha é abundante em setembro, e assim passamos para a alegria da primavera, cores, sons (chiados do peixe na frigideira). O renga é levado para outro lado, isto é, o acontecer passa do lado de fora (céu, estrelas) e conduz o renga para o lado de dentro (cozinha da casa) onde se dá o encontro jovial em volta da mesa... o cheiro atrai (todos? alguns?) para mesmo lugar, onde a refeição é feita com júbilo, e dá a sensação de confirmar o renascimento (do homem e do próprio renga), afinal o 'peixe' também foi o primeiro alimento  oferecido ao homem na travessia do mar.

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Chia no fogão

a comida preferida

pescada frita

a mesa posta pra dois

e um som suave no ar.

---------Regina e Benedita

-

A alegria pode ser compartida por apenas um casal (a mesa posta sugere... ) e o som suave insinua clima de romance, de paz, de harmonia. O renga caminha com sutileza e permite leve reflexão sobre a alegria como um estado de ser, estar e que independe da quantidade de pessoas...(reflexão sobre o mundo de hoje, redes sociais...)

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a mesa posta pra dois

e um som suave no ar.

por todo o quintal

sinais visíveis de chuva

ah!, a brisa fresca!

---------Benedita e Severino

-

Adorável e pertinente esta brisa, que nos faz perceber que ainda caminhamos pela primavera... e a chuva (que já passou) faz 'liga' tênue com os versos anteriores e aprofunda o renga, com o sentido de que o que já aconteceu (a chuva de primavera, silenciosa e constante, sugerindo desprendimento, despreocupação) possa trazer outros benefícios ao findar. Assim, podemos imaginar que a chuva, ao cessar, traz o frescor, ventinho gostoso que sopra , entra pela janela e refresca o local onde está a mesa posta... talvez o casal (namorados? amigos?não importa!) se aproxime da janela e converse, sentindo o vento de primavera. Lindo sentir que o renga é encadeado pela chuva (que cessa!) e levado suavemente pela refrescante e agradável brisa.

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por todo o quintal

sinais visíveis de chuva

ah!, a brisa fresca!

ao arrepio do sabiá

horas passam no telhado.

---------Severino e Elisa

-

O sabiá se arrepia à brisa refrescante, e horas (muito tempo) passam no telhado. Encadeamento pelo arrepio e quem sabe, até pelo canto, às vezes nostálgico, da ave. O telhado nos aproxima do alto, do céu de primavera e seu brilho menos intenso que o de verão. Certa imobilidade do tempo, dando sensação de quietude.

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ao arrepio do sabiá

horas passam no telhado.

amoroso encontro

a noite cai na cidade

não há solidão

----------Elisa e Rose

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A noite vem, noite de primavera, mais suave e clara, trazendo o encontro propício que encadeia e conduz o renga pelo convívio amoroso - não há solidão, ainda que haja nostalgia do canto de um só sabiá no telhado.

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amoroso encontro

a noite cai na cidade

não há solidão

Ao sopro do vento frio

um abraço aquece o casal.

---------Rose e Marco Aurélio

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Sinto que é vento frio de primavera, frio menos intenso que o de inverno... um abraço dá o calor necessário aos corpos e leva a solidão embora. O andamento do renga se faz pelo abraço que 'leva' o poema, o frio e a solidão embora. Aqui também me parece que o fim da primavera se insinua, ou melhor, que o abraço sugere certa vivacidade/energia que indica mudança de estação.

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Ao sopro do vento frio

um abraço aquece o casal.

As crianças brincam

com um enorme cipó ―

Campo de verão.

---------Marco e Carlos

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E do recolhimento no abraço, o poema passa para a amplitude no movimento de balançar de crianças penduradas no cipó. Muito interessante esse encadeamento pelos opostos: 'fechar'(movimento de abraçar, abrigar) para 'abrir', 'ampliar' (movimento de balançar no cipó). A primavera finda, a estação é outra: é verão (de volta à estação do início do renga – o ir e vir das estações, do círculo viver-morre... renascer) – tempo de vivacidade, atividade, energia... trazidos pelo viço e frescor do verdejante campo de verão.

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As crianças brincam

com um enorme cipó ―

Campo de verão.

Sombra de corpos no chão

e lá se vai a manhã...

---------Carlos e Regina

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Aqui é nítido e ao mesmo tempo sutil o encadeamento entre os três primeiros versos e os dois últimos. Gosto da sensação de que tudo anda, passa, se transforma – 'sombra de corpos no chão/ e lá se vai a manhã' – no instante (tempo fugaz) que é o acontecer (a razão) do próprio haicai. Acho que o fechamento do renga é forte por trazer o sentido de transitoriedade do tempo, vida-morte que sustenta (ou leva adiante?) o renga que se movimenta como a vida-morte, no círculo inexorável do tempo, da existência.

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Obs sobre o título do renga: 'Chuva de verão', bem de acordo ao desenrolar do renga, onde a chuva provoca o primeiro poema e também é reiterada em outros.

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verão/2018

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Referências

 

RENGA : Chuva de verão

Inspirado no haiga de Carlos Martins.

Conduzido por Benedita Azevedo

Comentários de Regina Alonso.

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Participantes: Carlos Martins, Regina Alonso, Benedita Azevedo, Sandra Hiraga, Clara Szanifer, Nilza Azze, Marco Bastos, Rose Mendes, Antonio de Jesus Anjes, Marco Aurélio Alencar, Pedro Caluchi, Elisa Campos, Severino José.


Publicado por Benedita Azevedo em 24/01/2018 às 00h51
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